{"id":7386,"date":"2022-09-16T23:31:14","date_gmt":"2022-09-17T02:31:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7386"},"modified":"2022-09-16T23:31:37","modified_gmt":"2022-09-17T02:31:37","slug":"os-leiloes-como-se-fossem-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/09\/16\/os-leiloes-como-se-fossem-animais\/","title":{"rendered":"OS LEIL\u00d5ES COMO SE FOSSEM ANIMAIS"},"content":{"rendered":"<p>Desde quando come\u00e7ou a escravid\u00e3o africana rumo ao continente americano no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, os cativos eram leiloados nos entrepostos ou armaz\u00e9ns como se fossem objetos ou animais, na base do peso, da idade, dos dentes e do estado de sa\u00fade. O Valongo, por exemplo, no Rio de Janeiro, foi um dos maiores entrepostos de escravos das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Em sua terceira obra \u201cEscravid\u00e3o\u201d, o jornalista e escritor Laurentino Gomes relata que \u201ca pr\u00e1tica antiga, herdada dos primeiros tempos da col\u00f4nia portuguesa, os leil\u00f5es de pessoas s\u00f3 foral legalmente proibidos no Brasil por decreto de 15 de setembro de 1869, faltando menos de duas d\u00e9cadas para a Lei \u00c1urea\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo decreto, segundo ele, se proibiu a separa\u00e7\u00e3o de marido, mulher e filhos em idade inferior a quinze anos. No entanto, como tudo em nosso pa\u00eds at\u00e9 nos dias atuais, dava-se um jeitinho para burlar as leis. Como sempre, a pr\u00e1tica ilegal era feita pelos poderosos senhores escravistas que terminavam ficando impunes.<\/p>\n<p>Nos leil\u00f5es, uma vez fechada a compra, os escravos eram marcados a ferro quente, com o nome de seus donos. De acordo com cita\u00e7\u00e3o de Laurentino, o tenente alem\u00e3o Julius Mansfeldt, que visitou o Rio de Janeiro, em 1826, contou que primeiro o marcador lambuzava a \u00e1rea da pele com gordura animal e depois aplicava sobre ela um peda\u00e7o de papel mergulhado em \u00f3leo. Por fim, uma haste aquecida sobre um braseiro, recortada com as iniciais do senhor, era pressionada sobre esse retalho de papel.<\/p>\n<p>As boas \u201cpe\u00e7as de qualidade\u201d eram leiloadas nos armaz\u00e9ns do Valongo, e existiam tamb\u00e9m as encomendas feitas diretamente pelos senhores aos traficantes ou capit\u00e3es dos navios. As mulheres, crian\u00e7as, os mais velhos e com defeitos f\u00edsicos eram comercializados no mercado secund\u00e1rio por pre\u00e7os mais em conta por pessoas de menor poder aquisitivo.<\/p>\n<p>Tropeiros, mascates e at\u00e9 ciganos entravam nesse mercado. Viajavam l\u00e9guas pelo interior oferecendo esses cativos como se fossem quaisquer mercadorias. Nas transa\u00e7\u00f5es, existiam tamb\u00e9m os chamados alugueis de escravos que, como a venda, eram anunciados pelos jornais da \u00e9poca. Todos queriam ter um escravo, at\u00e9 o pobre e o alforriado que juntavam dinheiro para adquirir uma \u201cpe\u00e7a\u201d, mesmo que fosse doente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancias de compra, venda e aluguel se multiplicavam pelas cidades brasileiras. O autor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d narra que uma dessas casas, chamada Narcizo e Silva forneceu, em 1856, uma escrava para Jos\u00e9 Thomaz Nabuco de Ara\u00fajo, ministro do Imp\u00e9rio e pai do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco.<\/p>\n<p>Sobre o Valongo, diz Laurentino que \u00e9 um dos mercados de escravos mais bem documentado na hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, gra\u00e7as aos relatos de diversos viajantes que estiveram no Brasil entre o final do s\u00e9culo XVIII e nas primeiras d\u00e9cadas do XIX. Os armaz\u00e9ns chegavam a acomodar at\u00e9 quatrocentos escravos cada um.<\/p>\n<p>Em 1826, um viajante escoc\u00eas chegou a calcular dois mil escravos em exposi\u00e7\u00e3o para venda no Valongo, estocados em cerca de cinquenta barrac\u00f5es. Somente na primeira d\u00e9cada do Brasil independente, o mercado e seu vizinho cemit\u00e9rio dos pretos novos come\u00e7aram a ser alvos de protestos dos moradores por causa do mau cheiro e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Os mortos eram enterrados em covas rasas e quando batiam as chuvas, seus cad\u00e1veres apareciam em terra nua. Eram mais de mil sepultamentos por ano. As reclama\u00e7\u00f5es s\u00f3 foram atendidas em 1830 quando o cemit\u00e9rio deixou de funcionar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde quando come\u00e7ou a escravid\u00e3o africana rumo ao continente americano no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, os cativos eram leiloados nos entrepostos ou armaz\u00e9ns como se fossem objetos ou animais, na base do peso, da idade, dos dentes e do estado de sa\u00fade. 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