{"id":7360,"date":"2022-09-09T23:51:26","date_gmt":"2022-09-10T02:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7360"},"modified":"2022-09-09T23:51:54","modified_gmt":"2022-09-10T02:51:54","slug":"o-valongo-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/09\/09\/o-valongo-da-morte\/","title":{"rendered":"O VALONGO DA MORTE"},"content":{"rendered":"<p>A pr\u00f3pria m\u00eddia brasileira deu pouco destaque \u00e0 quest\u00e3o da escravid\u00e3o nas \u201ccomemora\u00e7\u00f5es\u201d do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia. Em seu lugar, assistimos a espet\u00e1culos e cenas de terror protagonizadas, principalmente, pelo capit\u00e3o-presidente, que destilou \u00f3dio e intoler\u00e2ncia, fazendo simplesmente campanha eleitoral dentro dos 200 anos de \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d. A festa c\u00edvica foi uma decep\u00e7\u00e3o e, porque n\u00e3o dizer, uma vergonha nacional.<\/p>\n<p>No entanto, queria aqui me reportar a um cap\u00edtulo do \u00faltimo livro da trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, do jornalista e escritor Laurentino Gomes que fala do Valongo, e o que representou esse nome, no Rio de Janeiro. O chamado Cais do Valongo come\u00e7ou a funcionar no final do s\u00e9culo XVIII e s\u00f3 terminou l\u00e1 pelos meados do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>De acordo com o autor da obra, o Valongo foi o maior entreposto de compra e venda de seres humanos do continente americano. Por mais de 70 anos, aquele lugar significou a morte para os escravos africanos que atravessaram o Atl\u00e2ntico at\u00e9 o Brasil.<\/p>\n<p>Na primeira metade do s\u00e9culo XIX, segundo Laurentino, o Brasil bateu todos os recordes em 350 anos de escravid\u00e3o africana. \u201cNo espa\u00e7o de apenas cinco d\u00e9cadas, 2.376.141 homens e mulheres foram arrancados de suas ra\u00edzes, marcados a ferro quente e despachados rumos \u00e0s cidades e lavouras brasileiras. Nunca tantos escravos chegaram ao pa\u00eds em t\u00e3o pouco tempo\u201d.<\/p>\n<p>Cita o escritor que ao todo foram 10.923 viagens, quase um ter\u00e7o do total de 36.110 catalogadas para todo continente americano ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos e meio. Do total de embarcados, apenas 2.061.624 atingiram o destino. Os demais 314.517 morreram e foram sepultados no mar, isto nos primeiros 50 anos do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Consta das suas pesquisas que, uma vez embarcados, muitos n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de sobreviver mais do que alguns dias em solo brasileiro. Conforme historiadores, cerca de 15% dos \u201cpretos novos\u201d morreriam nos tr\u00eas primeiros anos de vida no Brasil, o que corresponderia a 310 mil pessoas no per\u00edodo citado, quase a metade das mortes pela Covid-19 em pouco mais de dois anos.<\/p>\n<p>\u201cAs pedras nuas do Valongo e os ossos da Gamboa s\u00e3o testemunhas dessa hist\u00f3ria brutal e dolorosa. Ali jazem os dez escravos que o traficante Miguel Gomes Filho mandou sepultar de uma s\u00f3 vez, na mesma vala, em agosto de 1826\u201d. O cemit\u00e9rio de escravos foi por d\u00e9cadas ignorado nos mapas de ruas e nos guias tur\u00edsticos.<\/p>\n<p>Situada entre os bairros da Gamboa, da Sa\u00fade e do Santo Cristo, a antiga rua do Valongo mudou de nome e hoje se chama Camerino. Ao final dela, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pra\u00e7a Mau\u00e1, uma ladeira denominada Morro do Valongo, \u00e9 a \u00fanica refer\u00eancia geogr\u00e1fica que restou.<\/p>\n<p>Os escravos, diferente dos brancos, eram jogados em terrenos baldios ou valas comuns, nas quais se ateava fogo, como relata o escritor. Tudo era depois coberto por uma camada de cal, para evitar a propaga\u00e7\u00e3o de mau cheiro e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o das descobertas de ossadas e materiais usados pelos escravos, somente em 2017 o Valongo foi inclu\u00eddo na lista dos patrim\u00f4nios mundiais da humanidade pela Unesco, uma ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Antes da cria\u00e7\u00e3o do Valongo, as opera\u00e7\u00f5es de compra e venda de escravos aconteciam na rua Direita, atual Primeiro de Mar\u00e7o, no centro do Rio de Janeiro. Os africanos desembarcavam na antiga Praia do Peixe (atual Pra\u00e7a XV). Muitos eram ali mesmo comercializados ou entregues a compradores que os haviam encomendados com anteced\u00eancia aos traficantes. Os demais iam para a rua Direita, onde ficavam expostos em meio a caixas e fardos de mercadorias. Aqueles que morriam eram levados para o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, no Largo de Santa Rita.<\/p>\n<p>Segundo Laurentino, por volta de 1817, j\u00e1 havia 34 grandes estabelecimentos de com\u00e9rcio de escravos em atividade no Valongo. Era um dos locais mais movimentados do Rio de Janeiro. Os rec\u00e9m-chegados deixavam os navios negreiros completamente nus e eram levados para a Casa da Alf\u00e2ndega. Em seguida passavam por uma quarentena de oito dias. Depois disso seguiam para as m\u00e3os de um mercador de escravos no Valongo.<\/p>\n<p>Como a passagem de escravos nus pelas ruas criou constrangimento entre as fam\u00edlias, D. Jo\u00e3o VI ordenou, em 1808, que os cativos fossem vestidos at\u00e9 o Valongo. Dali em diante poderiam continuar nus. Ao chegar ao Valongo, os escravos eram banhados e untados com \u00f3leo de dend\u00ea, como disfarce para parecerem saud\u00e1veis. Os homens tinham a barba e o cabelo raspados. As ra\u00e7\u00f5es eram mais generosas como forma de engorda.<\/p>\n<p>Pais, m\u00e3es, filhos e irm\u00e3os eram vendidos separadamente, sem nenhum respeito aos v\u00ednculos familiares. Laurentino destaca que o processo de venda envolvia uma s\u00e9rie de humilha\u00e7\u00f5es, como exame minucioso de seus corpos, incluindo as partes \u00edntimas. Inteiramente nus, eram pesados, medidos, apalpados e cheirados nos m\u00ednimos detalhes, sem contar os dentes.<\/p>\n<p>O doutor franc\u00eas Jean Baptiste Imbert, que chegou ao Brasil em 1831, numa esp\u00e9cie de cartilha m\u00e9dica, descrevia que os compradores evitassem negros de cabelos demasiadamente crespos, testa pequena ou baixa, olhos encovados e orelhas grandes, todos, segundo ele, tinham ind\u00edcios de mau car\u00e1ter. Desaconselhava ainda a compra de negros com nariz muito chato e ventas apertadas, sinais de que prejudicavam a respira\u00e7\u00e3o, comprometendo a capacidade de trabalho. Para uma boa compra, Imbert recomendava os cativos de \u201cp\u00e9s redondos\u201d, barrigas das pernas grossas, tornozelos finos, pele lisa e sem manchas no corpo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pr\u00f3pria m\u00eddia brasileira deu pouco destaque \u00e0 quest\u00e3o da escravid\u00e3o nas \u201ccomemora\u00e7\u00f5es\u201d do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia. Em seu lugar, assistimos a espet\u00e1culos e cenas de terror protagonizadas, principalmente, pelo capit\u00e3o-presidente, que destilou \u00f3dio e intoler\u00e2ncia, fazendo simplesmente campanha eleitoral dentro dos 200 anos de \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d. 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