{"id":7349,"date":"2022-09-08T00:40:03","date_gmt":"2022-09-08T03:40:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7349"},"modified":"2022-09-08T00:40:33","modified_gmt":"2022-09-08T03:40:33","slug":"eu-nasci-ha-200-anos-atras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/09\/08\/eu-nasci-ha-200-anos-atras\/","title":{"rendered":"EU NASCI H\u00c1 200 ANOS ATR\u00c1S"},"content":{"rendered":"<p>VAI DAR PASSADO OU PRESENTE?<\/p>\n<p>Eu vi quando o pr\u00edncipe imperador D. Pedro I decretou o \u201cDia do Fico\u201d, em janeiro de 1822, desobedecendo a ordem do seu pai D. Jo\u00e3o VI de retornar para Lisboa por causa de suas molequeiras e gastos demasiados. \u00a0Ele tomou gosto pela coisa e foi ficando na vida boa do Rio de Janeiro, fazendo suas \u201cartes\u201d e dando corno na princesa, a torto e a direito.<\/p>\n<p>Parafraseando o cancioneiro, poeta e vision\u00e1rio Raul Seixas, que tudo viu e tudo falou, eu nasci h\u00e1 200 anos atr\u00e1s e me chamo Brasilino da Silva Santa Cruz. Estava l\u00e1 naquele mundar\u00e9u de escravos africanos, de muita gente analfabeta bem longe dos senhores bar\u00f5es quando o imperador soltou aquele grito de \u201cIndepend\u00eancia ou Morte\u201d, no riacho Ipiranga, no dia sete de setembro de 1822. Naquele ano eram quase cinco milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>No momento, o povo passava com seus burros, alforjes e cangalhas e nada entendeu daquele alvoro\u00e7o. Como no quadro de Pedro Am\u00e9rico, o renegado at\u00e9 pensou ser uma briga entre eles, o t\u00edtulo de um novo samba improvisado ali mesmo, um canto sertanejo, uma sofr\u00eancia, arrocha, um pagode ou ax\u00e9 que depois virou hino de \u201cum gigante adormecido em ber\u00e7o espl\u00eandido\u201d, de um Brasil varonil, retumbante, c\u00e9u cor de anil e outros palavreados complicados que at\u00e9 hoje pouca gente compreende.<\/p>\n<p>Eu estava l\u00e1 e vi que foi uma independ\u00eancia de gente rica cunhada na ma\u00e7onaria, com a pena de uma princesa chamada de Leopoldina, e um tal de Jos\u00e9 de Bonif\u00e1cio de Andrada, tramando uma separa\u00e7\u00e3o. O pov\u00e3o se juntou na pra\u00e7a da capital, dan\u00e7ando e falando palavras de liberdade, liberdade! Depois todos foram para seus casebres, mocambos e descobriram que n\u00e3o passaram de penetras numa festa de gente branca metida a europeia. Foi uma independ\u00eancia dependente!<\/p>\n<p>O neg\u00f3cio foi s\u00e9rio, tanto que os portugueses n\u00e3o gostaram nada daquele grito presepeiro. Ent\u00e3o eu vi, logo em seguida, quebrar o pau na Bahia, Piau\u00ed e no Par\u00e1. Foi uma guerra de faca e fac\u00e3o contra armas de fogo. Os baianos foram \u00e0 luta, com negros e ind\u00edgenas, em junho de 1823, e s\u00f3 terminaram a peleja em dois de julho do mesmo ano. At\u00e9 uma mulher se vestiu de homem para brigar e expulsar os portugueses.<\/p>\n<p>Com aquela popularidade toda, D. Pedro aproveitou, e junto com seu ministro Bonif\u00e1cio, inventou de fazer uma Constituinte ao estilo da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, de liberdade, igualdade e fraternidade, mas s\u00f3 saiu uma titica de carta real aristocr\u00e1tica, em 1824.\u00a0 Brasilino leu e n\u00e3o gostou do que viu. S\u00f3 papo furado. Brasilino viu os exclu\u00eddos esfarrapados e os africanos cativos, que at\u00e9 ajudaram a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o cara de dois milh\u00f5es de libras esterlinas pelo div\u00f3rcio feito com o reinado de Portugal.<\/p>\n<p>Tudo continuou na mis\u00e9ria com uma independ\u00eancia empanturrada de escravos por todos os lados. Eu vi negros desembarcando no Valongo, levando chibatadas no Pelourinho do Calabou\u00e7o e sendo surrados nas fazendas de caf\u00e9. Vi senhores estuprando negrinhas nas senzalas. Tempos de sofrimento e muita dor, choro e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe perdeu for\u00e7as, e Brasilino viu quando ele embarcou num navio de volta para Portugal, em 1831, deixando para tr\u00e1s seu filho Pedro II de doze anos. O Parlamento proibiu o tr\u00e1fico negreiro naquele ano, mas a oligarquia rural n\u00e3o quis saber nada disso e fazia os embarques e desembarques clandestinos de cativos. Todos eram coniventes, at\u00e9 as autoridades reais.<\/p>\n<p>Veio a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, em 1850 e, mesmo assim, os navios furavam o cerco e comercializavam escravos. O tempo passou e eu vi quando a princesa Isabel sancionou a Lei \u00c1urea, em 13 de maio de 1888, quando seu pai curtia viagem pela Europa. Naquele tempo s\u00f3 haviam cerca de 750 mil escravos. O resto j\u00e1 estava alforriado, mas na mis\u00e9ria de sempre.<\/p>\n<p>Os bar\u00f5es, os duques, os marqueses, os viscondes, condes e os coron\u00e9is n\u00e3o gostaram de \u201clibertar\u201d seus cativos, tratados como animais de carga e resolveram se vingar. Eu vi quando eles se uniram ao marechal Deodoro da Fonseca e deram outro grito para arrancar o velho D. Pedro II que tirava uma soneca no trono. Isto foi em novembro de 1889. Independ\u00eancia dependente!<\/p>\n<p>Brasilino estava l\u00e1 quando criaram a tal Rep\u00fablica, coisa que nunca foi p\u00fablica, s\u00f3 deles mesmos. Logo em seguida, j\u00e1 no raiar do s\u00e9culo XX, Floriano Peixoto baixou uma ditadura e, de l\u00e1 para c\u00e1, s\u00f3 pau e crises, com uma democracia mambembe do tipo tupiniquim.<\/p>\n<p>Nessa Rep\u00fablica, eu vi de tudo, coisa do arco do velho, de Deus e do satan\u00e1s. Vi e tomei muito caf\u00e9 com leite entre S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, at\u00e9 que apareceu um ga\u00facho, l\u00e1 dos pampas do Rio Grande do Sul, e golpeou a Rep\u00fablica. Seu nome era Get\u00falio Vargas, que em 1930, com m\u00e3o de ferro tascou outra ditadura, e tome tortura. At\u00e9 o Brasilino foi preso e apanhou muito na cadeia.<\/p>\n<p>Mais manso, o ga\u00facho voltou em 50, mas n\u00e3o suportou a panela de press\u00e3o. Estourou e ele resolveu se suicidar. Entrou general no meio e queria botar os tanques nas ruas. Teve uma tal de Lott que impediu o golpe. Brasilino j\u00e1 estava soltou e acompanhou tudo de perto. Aos troncos e barrancos, um cigano de nome Juscelino foi eleito presidente. Eu vi quando ele construiu uma Bras\u00edlia, em 1960.<\/p>\n<p>Depois entrou um doido de nome J\u00e2nio Quadros e botou tudo a perder. O covarde renunciou. Ai meu amigo, a coisa fedeu mesmo. Botaram merda no liquidificador. Mais um ga\u00facho chamado Jango quis socializar os bens. At\u00e9 que Brasilino ficou animado, mas os generais acabaram com a festa e meteram fuzis e metralhadoras em todo mundo.<\/p>\n<p>Eu estava l\u00e1 e vi toda bagaceira. Foi muita gente morta e desaparecida. Os fardados de coturnos ficaram no poder por quase 30 anos, jogando gente nos por\u00f5es das mortes. Tudo era feito na base das indiretas, sem nada de civil. Com muita sofr\u00eancia, no Congresso ganhou um mineiro de nome Tancredo Neves, mas \u201cmorreu\u201d antes de assumir. Entrou um bigodudo marimbondo do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>O resto, Brasilino nem precisa mais contar porque quase todo mundo j\u00e1 sabe do Collor (parece com marca de tinta) que logo foi deposto. Entrou um Fernando Henrique que passou o bast\u00e3o para um nordestino pau-de-arara que fez uma confus\u00e3o danada com o troca-troca de favores entre ser pai dos pobres e m\u00e3e dos ricos. Dizem que houve muita roubalheira.<\/p>\n<p>H\u00e1 duzentos anos, meus camaradas, nunca vi coisa t\u00e3o feia. Um maluco psicopata, junto com evang\u00e9licos fan\u00e1ticos, nazifascistas, racistas, mis\u00f3ginos e homof\u00f3bicos, tomou o poder, e agora os doidos extremistas defensores da supremacia branca batem todos os dias nas portas dos quarteis para que eles voltem a governar sob com a marreta da ditadura.<\/p>\n<p>\u00c9 Brasilino, voc\u00ea est\u00e1 ferrado! Agora voc\u00ea est\u00e1 num fogo cruzado, denominado de tempo eleitoral, entre o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia, numa disputa de vida ou morte, do tipo vale tudo. Depois de duzentos anos ser\u00e1 que vir\u00e1 por a\u00ed outro grito de \u201cIndepend\u00eancia ou Morte\u201d? Se voc\u00ea que est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 duzentos anos vendo toda essa presepada, n\u00e3o sabe, imagina eu.\u00a0 Vai dar passado ou presente?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VAI DAR PASSADO OU PRESENTE? Eu vi quando o pr\u00edncipe imperador D. Pedro I decretou o \u201cDia do Fico\u201d, em janeiro de 1822, desobedecendo a ordem do seu pai D. 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