{"id":7339,"date":"2022-09-02T22:36:01","date_gmt":"2022-09-03T01:36:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7339"},"modified":"2022-09-02T22:36:42","modified_gmt":"2022-09-03T01:36:42","slug":"os-traficantes-de-escravos-recebiam-honrarias-de-nobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/09\/02\/os-traficantes-de-escravos-recebiam-honrarias-de-nobreza\/","title":{"rendered":"OS TRAFICANTES DE ESCRAVOS RECEBIAM HONRARIAS DE NOBREZA"},"content":{"rendered":"<p>No cap\u00edtulo \u201cBar\u00f5es e Fidalgos\u201d, o escritor da trilogia \u201dEscravid\u00e3o\u201d, que todo brasileiro deveria ler, Laurentino Gomes, fala do Vale do Para\u00edba, \u201co cora\u00e7\u00e3o do Brasil escravista do s\u00e9culo XIX, da nobreza ex\u00f3tica e tropical e da troca de favores entre a Coroa e os senhores da terra\u201d.<\/p>\n<p>Pouca coisa mudou de l\u00e1 para c\u00e1 no nosso Brasil olig\u00e1rquico e burgu\u00eas provinciano atrasado. \u201cAs glebas de terras ao redor do munic\u00edpio de Vassouras, um dos grandes centros de produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, tiveram a maior concentra\u00e7\u00e3o de viscondes, bar\u00f5es, marqueses, comendadores, coron\u00e9is e detentores de outras honrarias de toda hist\u00f3ria do imp\u00e9rio brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Voltemos aos dias atuais e aqui est\u00e3o os bar\u00f5es da soja e do gado recebendo os elogios e as benesses financeiras dos governantes, sejam de direita ou de esquerda. \u201cA concess\u00e3o de t\u00edtulos se acelerou entre 1878 e 1889, per\u00edodo em que a monarquia, sob press\u00e3o do movimento abolicionista e da campanha republicana, come\u00e7ou a correr perigo\u201d. S\u00f3 na d\u00e9cada foram criados 370 bar\u00f5es, sendo 155 entre a Lei \u00c1urea e o golpe do marechal Deodoro da Fonseca.<\/p>\n<p>Diante do clima de tens\u00e3o entre militares e civis, o Visconde de Maracaju, ministro da Guerra, prop\u00f4s que \u201cos t\u00edtulos fossem usados como armas para seduzir os oficiais nos quarteis\u201d. N\u00e3o parece o mesmo retrato borrado de hoje? Na v\u00e9spera da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, 35 coron\u00e9is receberam o t\u00edtulo de bar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstamos todos marqueses\u201d \u2013 zombou em artigo no jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias o baiano Rui Barbosa, ao criticar a infla\u00e7\u00e3o nobili\u00e1rquica, respons\u00e1vel pele legi\u00e3o de fidalgos baratos \u2013 destacou Laurentino no terceiro livro \u201cEscravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na guerra contra o Paraguai (1864-1874) os escravos arriscavam suas vidas pegando em armas, enquanto seus donos ficavam em casa recebendo t\u00edtulos. O escritor sergipano Tobias Barreto se referia \u00e0 \u201cnobreza feita \u00e0 m\u00e3o\u201d que produzia fidalgos de nomes pitorescos, como o Bar\u00e3o de Bojuru, de Botovi e de S\u00e3o Jos\u00e9 Sep\u00e9.<\/p>\n<p>Muitos dos belos casar\u00f5es senhoriais dessa numerosa nobreza ainda podem ser visitados \u2013 assinalou Laurentino. Um exemplo por ele citado \u00e9 a sede da fazenda Resgate, no munic\u00edpio de Bananal (Vale do Para\u00edba), tombado pelo Iphan. Seu dono Manoel de Aguiar Valim foi um dos homens mais ricos do Brasil.<\/p>\n<p>No Vale do Para\u00edba, a propriedade que mais impressionava pela riqueza e pelas dimens\u00f5es era a casa grande da fazenda Flores do Para\u00edso, no munic\u00edpio de Rio das Flores, de Domingos Cust\u00f3dio Guimar\u00e3es, visconde do Rio Preto.<\/p>\n<p>\u201cO fausto e a riqueza dos fazendeiros escravocratas do Vale do Para\u00edba eram exibidos tamb\u00e9m na corte do Rio de Janeiro. Ant\u00f4nio Clemente Pinto, bar\u00e3o do Nova Friburgo, cafeicultor da regi\u00e3o de Cantagalo, era dono do mais luxuoso palacete, o atual Pal\u00e1cio do Catete, que serviu de resid\u00eancia para v\u00e1rios presidentes at\u00e9 a transfer\u00eancia da capital para Bras\u00edlia, em 1960\u201d.<\/p>\n<p>A lista de comerciantes negreiros apontados como cidad\u00e3os exemplares e benem\u00e9ritos \u00e9 longa. Elias Ant\u00f4nio Lopes doou o Pal\u00e1cio da Quinta da Boa Vista, atual Museu Nacional, para abrigar o pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o VI.<\/p>\n<p>Joaquim Pereira Marinho, o homem de pedra, primeiro conde Pereira Marinho em Portugal, foi um dos maiores traficantes de escravos na hist\u00f3ria do Brasil. \u201cSua est\u00e1tua erguida h\u00e1 mais de um s\u00e9culo no centro da maior cidade negra do mundo fora da \u00c1frica, \u00e9 hoje alvo de acalorada pol\u00eamica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSua imponente est\u00e1tua est\u00e1 na entrada do Hospital Santa Isabel, em Salvador, por ter ajudado a construir a unidade. Ele doou dinheiro a institui\u00e7\u00f5es de caridade e socorreu flagelados da seca no Nordeste. Como tantos outros, foi um cruel opressor e racista. Um tra\u00e7o comum na biografia dos grandes traficantes e senhores de escravos est\u00e1 exemplificada na hist\u00f3ria de Joaquim Pereira Marinho\u201d.<\/p>\n<p>Muitos foram convertidos em mecenas, tanto no Brasil, como Estados Unidos, Inglaterra, Fran\u00e7a e Holanda. \u201cPatrocinaram artistas, apoiaram a constru\u00e7\u00e3o de museus, organizaram teatros e companhias de dan\u00e7a, financiaram expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, doaram somas expressivas para igrejas, irmandades religiosas, hospitais, e obras de assist\u00eancia aos pobres e doentes\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cap\u00edtulo \u201cBar\u00f5es e Fidalgos\u201d, o escritor da trilogia \u201dEscravid\u00e3o\u201d, que todo brasileiro deveria ler, Laurentino Gomes, fala do Vale do Para\u00edba, \u201co cora\u00e7\u00e3o do Brasil escravista do s\u00e9culo XIX, da nobreza ex\u00f3tica e tropical e da troca de favores entre a Coroa e os senhores da terra\u201d. Pouca coisa mudou de l\u00e1 para c\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7339"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7339\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}