{"id":732,"date":"2014-12-30T22:03:58","date_gmt":"2014-12-31T01:03:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=732"},"modified":"2014-12-30T22:04:05","modified_gmt":"2014-12-31T01:04:05","slug":"itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/12\/30\/itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-5\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA E COMENTA ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p><strong>O HOMEM DE NAZAR\u00c9<\/strong><\/p>\n<p>Nasci em fam\u00edlia cat\u00f3lica, estudei em col\u00e9gio Marista, lembro da primeira comunh\u00e3o e das aulas de Catecismo e da minha f\u00e9 infantil, uma esp\u00e9cie de busca do \u00eaxtase. Um \u00eaxtase nada compar\u00e1vel \u00e0 entrega corporal e espiritual da sensual\u00edssima Santa Teresa da escultura famosa de Bernini ou dos livros da pr\u00f3pria Santa Teresa,\u00a0<em>best-sellers<\/em>\u00a0desde a Idade M\u00e9dia. Apenas o embevecimento de uma crian\u00e7a depois de comer uma h\u00f3stia, diante do mist\u00e9rio que me assustava ao pensar que a h\u00f3stia era \u201co corpo de Cristo\u201d. Os catequistas diziam para n\u00e3o morder a h\u00f3stia, pois ela se desfaria em sangue, \u201ccomo j\u00e1 aconteceu v\u00e1rias vezes\u201d. O mist\u00e9rio desapareceu, e com ele o susto, quando algu\u00e9m me explicou o que era uma met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Adolescente, j\u00e1 no col\u00e9gio Marista, busquei explica\u00e7\u00f5es sobre o s\u00edmbolo mais utilizado pelas religi\u00f5es crist\u00e3s: a cruz, um instrumento de tortura. E a ef\u00edgie de Cristo mais difundida: sendo torturado na cruz. Esse\u00a0<em>insight<\/em>\u00a0surgiu em um grupo que discutia assuntos pol\u00eamicos, do qual fazia parte. T\u00ednhamos entre 13 e 14 anos e fizemos o maior au\u00ea no col\u00e9gio, uma campanha para que a Igreja Cat\u00f3lica deixasse de usar a cruz como emblema de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade. Chegamos a rascunhar uma carta endere\u00e7ada ao Papa, fa\u00e7anha que n\u00e3o foi avante porque o diretor do col\u00e9gio, o Irm\u00e3o Cirilo (que chamava todo mundo de \u201cmeu santo\u201d), nos esclareceu que a cruz representa a dureza da vida, o peso de responsabilidades, dores e culpas que todos temos de carregar durante nossas exist\u00eancias. Era outra met\u00e1fora.<\/p>\n<p><!--more-->Essa minha conviv\u00eancia com Jesus, iniciada praticamente no ber\u00e7o, cresceu em duas dire\u00e7\u00f5es: minha necessidade de conhecer sua hist\u00f3ria e minha rela\u00e7\u00e3o espiritual com seu imenso legado. Historicamente, \u00e9 a maior personalidade da humanidade, o ser humano que mais impressionou \u00e0 esp\u00e9cie humana, que mudou a cultura global, inspirou religi\u00f5es, guerras, expans\u00f5es e implos\u00f5es de imp\u00e9rios, coloniza\u00e7\u00f5es e liberta\u00e7\u00f5es. Estudei obviamente os quatro Evangelhos can\u00f4nicos e fui em busca de outros relatos, das cartas e narrativas da \u00e9poca, dos ditos Evangelhos Ap\u00f3crifos e das pesquisas e conclus\u00f5es de historiadores.<\/p>\n<p>Jesus sempre deu muito trabalho aos historiadores, que tiveram de garimpar \u201crealidades\u201d em uma teia de lendas, mitos e vis\u00f5es que, naturalmente, envolveram sua figura, espelhando sua seminal import\u00e2ncia no imagin\u00e1rio da esp\u00e9cie. Para muitos pesquisadores, al\u00e9m de paup\u00e9rrimo ele era analfabeto, como mais de 90% de seus contempor\u00e2neos judeus, um analfabeto (se \u00e9 que era) capaz de sintetizar e ressignificar em uma curta frase os dez mandamentos do Juda\u00edsmo e todos os mandamentos existentes: amar ao outro como a si mesmo. E revelar que n\u00e3o existe uma verdade universal e sim as verdades de cada um: \u201ceu sou a verdade\u201d.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao ente m\u00edstico, ao Deus feito homem, minha rela\u00e7\u00e3o se desenvolveu de maneira mais complexa e s\u00f3 se estabilizou ap\u00f3s estudar religi\u00f5es orientais e sistemas filos\u00f3ficos-religiosos africanos. A mim me pareceu, e continua parecendo, que o fato do Deus \u00fanico e todo poderoso da B\u00edblia descer \u00e0 Terra no corpo de uma pessoa teria sido um milagre como outro qualquer, um milagre normal, j\u00e1 que Ele tudo pode. Mas o contr\u00e1rio, um homem que, por sua intelig\u00eancia, sensibilidade, coragem e bondade se transforma em Deus, se eleva aos olhos e cora\u00e7\u00f5es de seus semelhantes como algu\u00e9m superior a todos, com poderes al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o, isso sim \u00e9 um acontecimento extraordin\u00e1rio, um avan\u00e7o enorme na evolu\u00e7\u00e3o espiritual do ser humano. Ao Deus feito Homem das religi\u00f5es, preferi o Homem que se faz Deus (cren\u00e7a que estendo a todos os grandes avatares, Buda entre eles, que n\u00e3o seriam \u201cencarna\u00e7\u00f5es\u201d de divindades e sim humanos com alto grau de conex\u00e3o com o cosmo, com a totalidade do universo e da vida).<\/p>\n<p>Chegar a esse Jesus Cristo me fez muito bem, me fez confiar na humanidade e em mim mesmo, me fez muito melhor do que eu era. Encontrei uma refer\u00eancia fundamental no jovem nazareno que mudou o mundo, diante das vicissitudes e das gl\u00f3rias da minha exist\u00eancia sempre me pergunto o que aquele cara diria, o que faria. Conversando sobre isso com um amigo, um te\u00f3logo, ele disse que a isso se chama Cristo Interior, \u201cque todos deviam ter, religiosos ou n\u00e3o\u201d. Se tenho vontade de rezar, o que acontece \u00e0s vezes, me volto para dentro, me dirijo a ele, \u00e0 suprema intelig\u00eancia humana que ele alcan\u00e7ou. Por isso, nas festas natalinas, celebro seu anivers\u00e1rio com alegria e conforto, pensando que tamb\u00e9m \u00e9 meu anivers\u00e1rio, do dia em que renasci ao descobrir que o menino da manjedoura era t\u00e3o humano como eu, como todos, e portanto temos a possibilidade de tentarmos a diviniza\u00e7\u00e3o.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>Orlando vez em quando, nos surpreende com suas considera\u00e7\u00f5es sobre alguns temas. Eu sempre o imaginei, apesar de conhecer bem a sua origem familiar, a sua hist\u00f3ria de vida e a Cultura dos lugares onde nasceu e viveu a fase formativa de sua vida, um \u201cateu\u201d e, possivelmente, ate \u201creligioso\u201d, ou no m\u00e1ximo, um cat\u00f3lico brasileiro, cat\u00f3lico brasileiro na medida em que, culturalmente somos cat\u00f3licos: os Protestantes s\u00e3o cat\u00f3licos, o ateu \u00e9 cat\u00f3lico \u201cgra\u00e7as a Deus\u201d, os adeptos dos Candombl\u00e9s, das Umbandas e os Kardecistas s\u00e3o cat\u00f3licos, at\u00e9 mesmo porque a palavra Cat\u00f3lico \u201csignifica universal\u201d. Mas, neste artigo chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de considerar, mesmo com alguma reserva Cristo com \u201canalfabeto\u201d, homem inteligente e sens\u00edvel, cujas \u201cintelig\u00eancia, sensibilidade, coragem e bondade se transforma em Deus, se eleva aos olhos e cora\u00e7\u00f5es de seus semelhantes como algu\u00e9m superior a todos, com poderes al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o, isso sim \u00e9 um acontecimento extraordin\u00e1rio, um avan\u00e7o enorme na evolu\u00e7\u00e3o espiritual do ser humano\u201d.<\/p>\n<p>Ao falar no final do terceiro par\u00e1grafo \u201cEra outra met\u00e1fora\u201d, achei por bem citar o conceito da palavra: <strong>MET\u00c1FORA <\/strong>[&#8230;]. Transfer\u00eancia de significado. Diz Arist\u00f3teles: \u201cA M. consiste em dar a uma coisa um nome que pertence \u00e0 outra coisa: transfer\u00eancia que se pode efetuar do g\u00eanero \u00e0 esp\u00e9cie ou da esp\u00e9cie ao g\u00eanero ou de esp\u00e9cie a esp\u00e9cie ou \u00e0 base de uma analogia\u201d (<em>Poet. 21, 1457 b 7<\/em>). A no\u00e7\u00e3o de M. foi algumas vezes empregada para determinar a natureza da l\u00edngua em geral (v. LINGUAGEM). Como instrumento ling\u00fc\u00edstico particular sua defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente, hoje, daquela dada por Arist\u00f3teles. Para a M. <em>m\u00edtica<\/em> dos povos primitivos que \u00e9 substancialmente a identifica\u00e7\u00e3o da express\u00e3o metaf\u00f3rica com o objeto (cfr. CASSIRE, Language and Myth, 1946). (ABBAGNANO, 1901, p.p. 638 \u2013 639).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O HOMEM DE NAZAR\u00c9 Nasci em fam\u00edlia cat\u00f3lica, estudei em col\u00e9gio Marista, lembro da primeira comunh\u00e3o e das aulas de Catecismo e da minha f\u00e9 infantil, uma esp\u00e9cie de busca do \u00eaxtase. 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