{"id":7317,"date":"2022-08-27T01:41:28","date_gmt":"2022-08-27T04:41:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7317"},"modified":"2022-08-27T01:41:48","modified_gmt":"2022-08-27T04:41:48","slug":"para-ingles-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/08\/27\/para-ingles-ver\/","title":{"rendered":"&#8220;PARA INGL\u00caS VER&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Essa express\u00e3o \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d \u00e9 muito comum no Brasil, mas muita gente n\u00e3o sabe explicar a origem correta. \u00c9 dita muitas vezes quando se promete uma coisa que n\u00e3o \u00e9 cumprida, n\u00e3o \u00e9 concretizada, como fazem nossos pol\u00edticos. As elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o espelho disso.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou l\u00e1 pelo in\u00edcio do s\u00e9culo XIX com a escravid\u00e3o, quando o nosso pa\u00eds, por volta de 1831, assinou uma lei parlamentar prometendo acabar com o tr\u00e1fico negreiro, isto \u00e9, com a importa\u00e7\u00e3o de escravos da \u00c1frica. O Brasil n\u00e3o somente burlou com suas malandragens, maracutais e conluios entre as pr\u00f3prias autoridades, como aumentou o com\u00e9rcio ilegal.<\/p>\n<p>O autor da trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, Laurentino Gomes descreve muito bem isso em detalhes no cap\u00edtulo \u201cPara Ingl\u00eas Ver\u201d. \u201cO Brasil nunca importou tantos africanos escravizados, e em t\u00e3o pouco tempo, quanto na primeira metade do s\u00e9culo XIX\u201d.<\/p>\n<p>O tr\u00e1fico s\u00f3 foi interrompido em 1850, com a assinatura da chamada Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s. Mesmo assim, o tr\u00e1fico continuaria entre as prov\u00edncias brasileiras, e alguns traficantes se aventuram atravessar o Atl\u00e2ntico para comprar escravos na Costa da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Narra Laurentino que in\u00fameros tratados internacionais foram assinados e jamais cumpridos. Uma lei de 1831 chegou a ser aprovada no parlamento brasileiro, acabando com a importa\u00e7\u00e3o de cativos. O imperador Pedro I chegou a empenhar sua palavra.<\/p>\n<p>\u201cA proibi\u00e7\u00e3o de 1831, segundo Laurentino, passaria para a hist\u00f3ria com o apelido jocoso de lei para ingl\u00eas ver. Enquanto isso, navios negreiros abarrotados continuaram a desembarcar homens e mulheres escravizados ao longo do litoral brasileiro sob o olhar c\u00famplice das autoridades\u201d.<\/p>\n<p>Bem antes disso, em 1810, o pr\u00edncipe regente D. Jo\u00e3o assinou com o governo brit\u00e2nico um tratado comercial que inclu\u00eda uma clausula sobre o tema. Falava-se de uma aboli\u00e7\u00e3o gradual do tr\u00e1fico de escravos. Em janeiro de 1815, Portugal assinou um segundo tratado, ratificado por Carta de Lei, em 1817, pelo qual se comprometia coibir o tr\u00e1fico ao norte da linha do Equador. Tudo se fazia para transgredir as normas.<\/p>\n<p>O acordo autorizava oficiais brit\u00e2nicos a abordar navios mercantes suspeitos de tr\u00e1fico ilegal. Os infratores e seus navios seriam apreendidos e levados a tribunais especiais estabelecidos no Rio de Janeiro e outro em territ\u00f3rio brit\u00e2nico na \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p>Em 1826, D. Pedro I assinou um tratado com a Inglaterra, no qual o Brasil assumia, al\u00e9m de uma d\u00edvida de dois milh\u00f5es de libras esterlinas feita originalmente por Portugal, o compromisso de honrar os acordos celebrados anteriormente pelo governo portugu\u00eas com os ingleses em rela\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico. Prometia extinguir o tr\u00e1fico em tr\u00eas anos. Nada disso ocorreu, muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em seu terceiro livro, Laurentino documenta em detalhes que todos os tratados e leis foram burlados por traficantes, ju\u00edzes, fazendeiros, capit\u00e3es de navios, for\u00e7as armadas e altas autoridades dentro do pr\u00f3prio imp\u00e9rio. O escritor cita v\u00e1rios casos em que uns acobertavam os outros com propinas e subornos, de modo que o tr\u00e1fico continuava a todo vapor.<\/p>\n<p>A coisa era t\u00e3o escancarada, que navios negreiros faziam o desembarque \u00e0 luz do dia com gente bem armada, e os guardas imperiais nada faziam. Embarca\u00e7\u00f5es trocavam de bandeiras para enganar a marinha brit\u00e2nica. O neg\u00f3cio era t\u00e3o escandaloso que at\u00e9 comerciantes ingleses se envolviam no tr\u00e1fico ilegal.<\/p>\n<p>As arma\u00e7\u00f5es, as mutretas, falsifica\u00e7\u00f5es de documentos e a impunidade daquele tempo do meado do s\u00e9culo XIX s\u00e3o as mesmas de atualmente quando se trata de leis, as quais continuam para ingl\u00eas ver. Praticamente nada mudou quando os infratores s\u00e3o poderosos do chamado colarinho branco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa express\u00e3o \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d \u00e9 muito comum no Brasil, mas muita gente n\u00e3o sabe explicar a origem correta. \u00c9 dita muitas vezes quando se promete uma coisa que n\u00e3o \u00e9 cumprida, n\u00e3o \u00e9 concretizada, como fazem nossos pol\u00edticos. As elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o espelho disso. 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