{"id":7271,"date":"2022-08-15T22:46:31","date_gmt":"2022-08-16T01:46:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7271"},"modified":"2022-08-15T22:56:03","modified_gmt":"2022-08-16T01:56:03","slug":"uma-independencia-que-nao-nos-livrou-da-escravidao-e-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/08\/15\/uma-independencia-que-nao-nos-livrou-da-escravidao-e-da-pobreza\/","title":{"rendered":"UMA INDEPEND\u00caNCIA QUE N\u00c3O NOS LIVROU DA ESCRAVID\u00c3O E DA POBREZA"},"content":{"rendered":"<p>AS SEMELHAN\u00c7AS SOCIAIS DOS 200 ANOS ATR\u00c1S PERSISTEM NA ATUAL SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS. AS DESIGUALDADES CONTINUAM PROFUNDAS COMO FERIDAS ABERTAS QUE AINDA N\u00c3O CICRATIZARAM. O QUE TEMOS A CELEBRAR NESSE BICENTEN\u00c1RIO?<\/p>\n<p>\u201cO novo pa\u00eds independente nascia empanturrado de escravid\u00e3o. E assim permanecia at\u00e9 quase o final do s\u00e9culo XIX. Homens e mulheres escravizados perfaziam mais de um ter\u00e7o de toda popula\u00e7\u00e3o, estimada em quase 4,7 milh\u00f5es de habitantes. Outro ter\u00e7o era composto por negros forro e mesti\u00e7os de origem africana, uma popula\u00e7\u00e3o pobre, carente de tudo, dominada pela minoria branca e que sequer seria contada entre os cidad\u00e3os, ou seja, brasileiros aptos a votar, serem votados e decidir o futuro do novo pa\u00eds. Os ind\u00edgenas, a esta altura j\u00e1 dizimados por guerras, doen\u00e7as e invas\u00e3o de seus territ\u00f3rios, sequer apareciam nas estat\u00edsticas\u201d.<\/p>\n<p>Este texto narrado pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes, no terceiro volume de \u201cEscravid\u00e3o\u201d registra o cen\u00e1rio da \u00e9poca da independ\u00eancia, em setembro de 1822. As descri\u00e7\u00f5es se encaixam na atual realidade de 200 anos atr\u00e1s. Ele ainda fala do Calabou\u00e7o, uma empresa do Estado, onde os escravos eram para l\u00e1 levados e a\u00e7oitados. Naquela \u00e9poca, os negros eram presos pelos motivos mais banais como andar na rua \u201cfora de horas\u201d, comportar-se como suspeito, demonstrar \u201catitude estranha\u201d ou simplesmente estar parado numa esquina.<\/p>\n<p>Para os pobres e desvalidos da sociedade que t\u00eam seus direitos violados todos os dias, nada mudou depois de 200 anos. A nossa pol\u00edcia \u00e9 violenta, a escravid\u00e3o, inclusive a trabalhista, continua de outra forma mais sofisticada, e o Calabou\u00e7o, um lugar sujo, fedorento e macabro como nos tempos medievais, foi substitu\u00eddo pelas cadeias e penitenci\u00e1rias superlotadas onde s\u00e3o amontoadas as camadas mais miser\u00e1veis, v\u00edtimas de uma sociedade que lhe virou \u00e0s costas, negando educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Do contingente dos ind\u00edgenas que h\u00e1 200 anos eram dizimados por doen\u00e7as e guerras, sobraram algumas aldeias amea\u00e7adas de serem expulsas de suas terras pelos garimpos clandestinos, sem contar que crian\u00e7as e idosos est\u00e3o morrendo por falta de assist\u00eancia m\u00e9dica,\u00a0 que o Estado, por obriga\u00e7\u00e3o, deveria proporcionar a essa gente. O quadro n\u00e3o mudou. Talvez, se formos comparar alguns dados, at\u00e9 piorou porque l\u00e1 fora o nosso pa\u00eds \u00e9 visto com de selvagens, com pena e vergonha.<\/p>\n<p>Portanto, o que temos a comemorar nesse bicenten\u00e1rio, quando as florestas est\u00e3o ardendo em fogo e o nosso meio ambiente sendo destru\u00eddo? Vamos celebrar a evolu\u00e7\u00e3o industrial e as novas tecnologias eletr\u00f4nicas, ainda atrasadas e provincianas em rela\u00e7\u00e3o a outras na\u00e7\u00f5es desenvolvidas? Uma festa verde-amarela de muitas pompas, desfiles militares, tanques, soldados, e civis nas ruas, tremulando suas bandeirinhas, n\u00e3o v\u00e3o apagar nossas mazelas que s\u00e3o muitas e negativas. Ainda n\u00e3o vivemos uma democracia ideal que \u00e9 manchada pela fome de mais de 30 milh\u00f5es de brasileiros, sem falar nos 12 milh\u00f5es de desempregados.<\/p>\n<p>No sete de setembro de 1822, a escravid\u00e3o era, na defini\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva, o patriarca da independ\u00eancia, um cancro que contaminava e ru\u00eda as entranhas da sociedade brasileira. O racismo persiste como um cancro, e 200 anos depois ainda est\u00e3o discutindo a quest\u00e3o da cor da pele e odiando uns aos outros, numa na\u00e7\u00e3o dividida pelo preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o. As leis foram feitas para proteger os poderosos que ficam sempre impunes pelos seus crimes de corrup\u00e7\u00e3o e ladroagens.<\/p>\n<p>O mais contradit\u00f3rio nisso tudo \u00e9 que os \u00edndios e os negros foram os que mais lutaram para consolidar essa independ\u00eancia, caso da Bahia em 1823, e depois foram exclu\u00eddos do processo de inclus\u00e3o.\u00a0 O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do ocidente a abolir o regime escravista, depois de Cuba (1866) e Estados Unidos, em 1865, depois de uma guerra civil que resultou na morte de 750 mil pessoas. Em nosso pa\u00eds, a marcha foi bem lenta, come\u00e7ando em 1850 com a Lei Eus\u00e9bio de Queiroz pondo fim ao tr\u00e1fico negreiro, que n\u00e3o era cumprida. Em 1871 foi proclamada a Lei do Ventre Livre, e em 1885, a do sexagen\u00e1rios. Por fim, a Lei \u00c1urea, de 13 de maio de 1888.<\/p>\n<p>\u201cOs ex-escravos e seus descendentes foram abandonados. A segunda \u201caboli\u00e7\u00e3o\u201d defendida por muitos abolicionistas, jamais aconteceu. O Brasil nunca se tornou uma \u201cdemocracia rural\u201d, mediante uma reforma agr\u00e1ria, como preconizava Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. Jamais educou, deu moradias, renda e empregos decentes, como propunha Joaquim Nabuco. Nunca promoveu os negros e mesti\u00e7os brasileiros \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os plenos, com os mesmos direitos e deveres assegurados aos demais brasileiros, como desejavam Luiz Gama e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio\u201d &#8211; destaca Laurentino em suas obras.<\/p>\n<p>O autor diz mais ainda, que tanto os negros quanto os ind\u00edgenas foram e continuam v\u00edtimas de um processo sistem\u00e1tico de genoc\u00eddio, na forma definida por Abedias Nascimento. Como tamb\u00e9m assinalou Florestan Fernandes, o escritor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d concorda que esse processo de genoc\u00eddio come\u00e7ou no passado e permanece em andamento no presente. \u201cDa escravid\u00e3o, no in\u00edcio do per\u00edodo colonial, at\u00e9 os dias que correm, as popula\u00e7\u00f5es negras e mulatas t\u00eam sofrido um genoc\u00eddio institucionalizado, sistem\u00e1tico, embora silencioso\u201d \u2013 escreveu Florestan.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS SEMELHAN\u00c7AS SOCIAIS DOS 200 ANOS ATR\u00c1S PERSISTEM NA ATUAL SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS. AS DESIGUALDADES CONTINUAM PROFUNDAS COMO FERIDAS ABERTAS QUE AINDA N\u00c3O CICRATIZARAM. O QUE TEMOS A CELEBRAR NESSE BICENTEN\u00c1RIO? \u201cO novo pa\u00eds independente nascia empanturrado de escravid\u00e3o. E assim permanecia at\u00e9 quase o final do s\u00e9culo XIX. 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