{"id":7266,"date":"2022-08-12T23:03:42","date_gmt":"2022-08-13T02:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7266"},"modified":"2022-08-12T23:04:04","modified_gmt":"2022-08-13T02:04:04","slug":"a-igreja-foi-conivente-e-escravista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/08\/12\/a-igreja-foi-conivente-e-escravista\/","title":{"rendered":"A IGREJA FOI CONIVENTE E ESCRAVISTA"},"content":{"rendered":"<p>De um modo geral, os jesu\u00edtas, os beneditinos e outras ordens religiosas sempre foram escravistas e participaram do tr\u00e1fico negreiro, mas algumas vozes se levantaram contra. Na \u00e9poca, todos tinham escravos, do rico ao pobre e at\u00e9 negros forros libertos, como se fosse uma coisa comum.<\/p>\n<p>Da parte da Igreja Cat\u00f3lica, um que se destacou contr\u00e1rio a esse sistema foi o frei Jos\u00e9 de Bolhona, mission\u00e1rio capuchinho italiano residente na Bahia que, segundo carta de 1794 ao governador da capitania dom Fernando Jos\u00e9 de Portugal, como relata o jornalista escritor Laurentino Gomes, em sua segunda trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, tentou persuadir seus fi\u00e9is de que \u201ca escravid\u00e3o era ileg\u00edtima e contr\u00e1ria \u00e0 religi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A prega\u00e7\u00e3o do mission\u00e1rio inquietava as consci\u00eancias dos habitantes da cidade de Salvador. Diante disso, Bolonha foi proibido de ministrar a confiss\u00e3o e logo despachado para Lisboa. Na Inglaterra, os ventos libert\u00e1rios j\u00e1 sopravam fortes vindos da parte de uma corrente protestante, com o empurr\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>NAUFR\u00c1GIO TR\u00c1GICO<\/p>\n<p>No final da segunda trilogia de \u201cEscravid\u00e3o\u201d, Laurentino narra um naufr\u00e1gio tr\u00e1gico que abalou o mundo daquela \u00e9poca. Esse fato aconteceu em dezembro de 1794 com o navio portugu\u00eas \u201cO S\u00e3o Jos\u00e9 Paquete d\u00b4\u00c1frica\u201d, capitaneado por Manuel Jo\u00e3o Pereira.<\/p>\n<p>Essa embarca\u00e7\u00e3o saiu de Lisboa em abril e, depois de navegar por mais de 12 mil quil\u00f4metros, ancorou em Mo\u00e7ambique, onde foram embarcados cerca de quinhentos negros com destino ao Maranh\u00e3o, produtor de algod\u00e3o, arroz e cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Na noite de 27 de dezembro, depois de atravessar o Cabo da Boa Esperan\u00e7a (Cabo das Tormentas), foi pego por forte tempestade e seu casco espatifou-se num banco de pedras. Os alarmes soaram. Socorridos por moradores, os tripulantes e o capit\u00e3o sobreviveram.<\/p>\n<p>Como era esperado, o desastre sobrou para os escravos aprisionados no por\u00e3o, onde 212 morreram afogados. Os demais foram resgatados e arrematados pelo melhor pre\u00e7o em leil\u00e3o nos dias seguintes na Cidade do Cabo. A nau ficou sepultada at\u00e9 meados de 1980, quando arque\u00f3logos conseguiram localiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>POMBAL E A CRISE<\/p>\n<p>De acordo com dados apurados por Laurentino, na hist\u00f3ria da escravid\u00e3o foram registrados cerca de mil naufr\u00e1gios ao longo dos 350 anos do com\u00e9rcio de escravos africanos no Atl\u00e2nticos, a maior parte no s\u00e9culo XVIII, \u00e9poca em que o reino de Portugal vivia em crise. A corrida do ouro e do diamante logo se esgotou.<\/p>\n<p>Em 1750, ap\u00f3s a morte de D. Jo\u00e3o V, o governo passou para as m\u00e3os de Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho e Melo, o futuro marqu\u00eas de Pombal. Assim como Rasputin, na R\u00fassia, Pombal foi defenestrado do poder por D. Maria I. Ele era uma esp\u00e9cie de primeiro-ministro do novo rei D. Jos\u00e9 I.<\/p>\n<p>O per\u00edodo de Pombal ficou conhecido como \u201cdespotismo esclarecido\u201d, forma moderna de governar, baseada em princ\u00edpios do iluminismo europeu, visando reformar a economia, as leis e as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pombal enfrentou tr\u00eas principais dificuldades. Uma delas foi a necessidade de reconstruir Lisboa, devastada por um terremoto seguido de um maremoto, no dia 1\u00ba de novembro daquele ano. O fen\u00f4meno deixou a capital em ru\u00ednas, matando 20 mil pessoas. S\u00f3 tr\u00eas mil, das 20 mil casas, continuaram habit\u00e1veis. Das 40 igrejas, 35 desmoronaram. Apenas 11, dos 65 conventos, continuaram de p\u00e9.<\/p>\n<p>Outro problema de Pombal foi conter os gastos e pagar as d\u00edvidas resultantes de uma sequ\u00eancia de guerras contra a Espanha, entre 1760 e 1770. A pior crise foi o esgotamento das minas de ouro e diamante do Brasil.<\/p>\n<p>Para vencer este \u00faltimo fracasso, Portugal apertou os mineradores na cobran\u00e7a de altos impostos. Veio, ent\u00e3o, a chamada \u201cderrama\u201d, estopim da Inconfid\u00eancia Mineira. Os pre\u00e7os do a\u00e7\u00facar brasileiro tamb\u00e9m sofreram queda devido a competi\u00e7\u00e3o das lavouras de engenho nas col\u00f4nias brit\u00e2nicas, francesas e holandesas. Uma recess\u00e3o derrubou o volume e a receita no Porto de Lisboa. Muitos comerciantes entraram em fal\u00eancia. No entanto, os gastos na corte n\u00e3o pararam de subir.<\/p>\n<p>Para contornar as dificuldades, Pombal procurou imprimir uma reforma administrativa, inclusive com a pol\u00eamica expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas de todos dom\u00ednios portugueses, com o confisco de seus bens. Suas propriedades inclu\u00edam 17 planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar, sete fazendas com mais de mil cabe\u00e7as de gado na ilha de Maraj\u00f3 e 186 edifica\u00e7\u00f5es em Salvador. Era ainda grande propriet\u00e1ria de escravos no Brasil e em Angola.<\/p>\n<p>Outra medida controvertida de Pombal foi o alvar\u00e1 de 1761 onde declarava que todos escravos negros desembarcados em solo portugu\u00eas seriam automaticamente livres. Foi apenas uma medida pr\u00e1tica de interesse econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O ciclo de reforma terminou em fevereiro de 1777, com a morte de D; Jos\u00e9. Sua filha dona Maria I foi a primeira mulher a ocupar o trono, trazendo o conservadorismo. Pombal caiu no ostracismo, e em 16 de agosto de 1781 foi proibido de se aproximar da corte. Ele tinha de guardar uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de 110 quil\u00f4metros de onde quer que estivesse a rainha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um modo geral, os jesu\u00edtas, os beneditinos e outras ordens religiosas sempre foram escravistas e participaram do tr\u00e1fico negreiro, mas algumas vozes se levantaram contra. Na \u00e9poca, todos tinham escravos, do rico ao pobre e at\u00e9 negros forros libertos, como se fosse uma coisa comum. 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