{"id":7250,"date":"2022-08-10T00:26:20","date_gmt":"2022-08-10T03:26:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7250"},"modified":"2022-08-10T00:26:46","modified_gmt":"2022-08-10T03:26:46","slug":"a-visao-romantica-de-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/08\/10\/a-visao-romantica-de-escritor\/","title":{"rendered":"A VIS\u00c3O ROM\u00c2NTICA DE ESCRITOR"},"content":{"rendered":"<p>De supet\u00e3o chega um mo\u00e7o falante com seu filho ao lado em minha mesa numa Feira Liter\u00e1ria e vai logo me perguntado em que horas eu escrevo, se pela manh\u00e3, \u00e0 tarde ou pela madrugada. Fico at\u00f4nito por ter me pego de surpresa e respondo que a qualquer momento do dia e, \u00e0s vezes, parte da noite, mesmo porque tenho o h\u00e1bito de dormir por volta das duas da madruga.<\/p>\n<p>O senhor bem afei\u00e7oado n\u00e3o parou por a\u00ed, e foi me enchendo de outros interrogat\u00f3rios, semelhante a uma crian\u00e7a curiosa, mas tamb\u00e9m com aquela vis\u00e3o rom\u00e2ntica que se tem de um escritor ou de um outro qualquer artista, como se n\u00e3o fosse um humano, e sim, um deus qualquer vindo do Olimpo. Por \u00faltimo, quis saber se eu era mesmo formado numa universidade.<\/p>\n<p>Aquele papo ligeiro e inquisidor, confesso, me deixou encabulado porque ningu\u00e9m nunca me fez esses questionamentos, mas sobre o conte\u00fado da obra, editora, g\u00eanero ou outra coisa parecida. O visitante n\u00e3o parava de me interrogar, como se eu estivesse ali num tribunal para ser condenado, ou numa prova para testar se eu era falso ou verdadeiro.<\/p>\n<p>Fiquei at\u00e9 animado porque achei que, finalmente, iria vender um livro para, pelo menos, comprar o leite do \u201cv\u00e9io\u201d, ou pagar minha gasolina e estadia na cidade, logo eu que estava ali parado pensativo s\u00f3 olhando as pessoas passarem em frente ao meu estante, sem ao menos entrar para conhecer o trabalho daquele jornalista caipira do interior.<\/p>\n<p>Que nada! Conversou, sapateou; fez aquele monte de perguntas; e depois foi-se embora, sem levar pelo menos um exemplar debaixo do bra\u00e7o. Pensei comigo naquele ditado de que \u201calegria de pobre dura pouco\u201d. Acho at\u00e9 que ele estava mais pretendendo deixar o filho impressionado com sua \u201cdesenvoltura de bom letrado\u201d. Ora, poderia ao menos ter presenteado o filhote que ficou calado s\u00f3 observando suas investidas sobre o mundo da escrita.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da sua mentalidade rom\u00e2ntica, o que mais me deixou encafifado foi sobre se eu era mesmo formado, como se existisse alguma faculdade para escritor, ou quem n\u00e3o fez um n\u00edvel universit\u00e1rio n\u00e3o tivesse capacidade para escrever um livro. Quem sabe, na ideia dele, fosse at\u00e9 proibido parir um livro, sem antes n\u00e3o pegar um \u201ccanudo\u201d de doutor depois de passar anos alisando banco de escola, decorando gram\u00e1tica, datas hist\u00f3ricas e teoremas de Pit\u00e1goras.<\/p>\n<p>De certa forma aquele lance foi inusitado e at\u00e9 engra\u00e7ado, mas depois fiquei a imaginar que ainda existe gente que possui uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica medieval da \u201cbelle \u00e9poque\u201d, ou do \u201cmal de si\u00e8cle\u201d, onde o artista escritor, m\u00fasico, poeta, pintor, escultor, ator\/atriz ou de outra linguagem era um ser de outro universo que n\u00e3o dorme, n\u00e3o come, n\u00e3o bebe, n\u00e3o faz sexo, n\u00e3o precisa de dinheiro e vive s\u00f3 de boemia, lambendo as sobras dos outros.<\/p>\n<p>Talvez seja por essa \u00f3tica distorcida que pessoas ainda hoje desvalorizam tanto o trabalho do artista, sem falar que \u00e9 visto como um marginal qualquer. Muitos acham que a arte de redigir um texto ou pintar um quadro \u00e9 f\u00e1cil de ser feita, da\u00ed n\u00e3o ter o mesmo valor ou superior a um bem material de consumo, como um belo vestido, um rel\u00f3gio, um celular ou um terno.<\/p>\n<p>Na conversa daquele homem, para ser escritor ou fazer uma pe\u00e7a art\u00edstica qualquer tem que ter muita ins\u00f4nia, ou andar por a\u00ed vagando em noite de lua cheia com lobisomem. Grandes escritores, como Tolst\u00f3i, Dostoievsky, Hemingway e at\u00e9 brasileiros sofriam de ins\u00f4nias terr\u00edveis; atravessavam noites nas boemias et\u00edlicas, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma regra geral.<\/p>\n<p>Cada um tem seu h\u00e1bito de vida e opta mesmo pelos seus hor\u00e1rios prediletos e momentos de inspira\u00e7\u00e3o. A noite pode at\u00e9 ser uma crian\u00e7a para uns, mas outros preferem dormir bem para levantar com a cabe\u00e7a fresca para elaborar sua obra.<\/p>\n<p>A minha lida jornal\u00edstica de 50 anos me ensinou e me treinou a escrever a qualquer hora, mesmo porque esse tipo de profissional \u00e9 escravo do fato, o qual n\u00e3o tem hora para acontecer. Quanto a escrever um livro, voc\u00ea tem mais liberdade, e n\u00e3o existe o leitor em sua cola, mesmo assim tem aquele editor lhe cobrando, sugando quanto pode o seu suor ou seus neur\u00f4nios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De supet\u00e3o chega um mo\u00e7o falante com seu filho ao lado em minha mesa numa Feira Liter\u00e1ria e vai logo me perguntado em que horas eu escrevo, se pela manh\u00e3, \u00e0 tarde ou pela madrugada. 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