{"id":7242,"date":"2022-08-05T22:17:38","date_gmt":"2022-08-06T01:17:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7242"},"modified":"2022-08-05T22:18:14","modified_gmt":"2022-08-06T01:18:14","slug":"a-inglaterra-e-a-escravidao-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/08\/05\/a-inglaterra-e-a-escravidao-final\/","title":{"rendered":"A INGLATERRA E A ESCRAVID\u00c3O (Final)"},"content":{"rendered":"<p>A INGLATERRA DECRETOU A ABOLI\u00c7\u00c3O DA ESCRAVATURA EM 1834, MAS, AO INV\u00c9S DOS CATIVOS, INDENIZOU OS SENHORES COM O TESOURO DOS PR\u00d3PRIOS CONTRIBUINTES, E AINDA RETARDOU A LIBERDADE DOS NEGROS AFRICANOS POR SEIS ANOS.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final do s\u00e9culo XVIII, as vozes contra a escravid\u00e3o africana eram esparsas e desconectadas, mas sempre existiram manifesta\u00e7\u00f5es desde o s\u00e9culo XVI, incluindo textos de mission\u00e1rios capuchinhos, relatos de viajantes e outros documentos que criticavam a maneira como os negros eram escravizados e tratados.<\/p>\n<p>Essa descri\u00e7\u00e3o do quadro \u00e9 do jornalista e escritor Laurentino Gomes na segunda trilogia de \u201cEscravid\u00e3o\u201d, acrescentando que, em sua g\u00eanese, o abolicionismo teve um importante componente religioso. \u201cA grande revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou de forma religiosa, no adro das igrejas da Inglaterra e dos Estados Unidos\u201d. Entre seus l\u00edderes estavam os quakers, uma vertente do protestantismo, criada em 1652 pelo ingl\u00eas George Fox.<\/p>\n<p>Os quarkers eram um grupo pequeno. Por volta de 1750 havia cerca de 90 mil nos Estados Unidos e no Reino Unido. Eram ricos, letrados, banqueiros, comerciantes, armadores e financiadores do neg\u00f3cio negreiro, influentes em suas comunidades. Foram convocados a desistirem do tr\u00e1fico de cativos.<\/p>\n<p>A esse grupo coube a cria\u00e7\u00e3o da primeira sociedade de abolicionistas, sediada na Filad\u00e9lfia e Nova York (EUA) e Londres e Manchester (Inglaterra). Nove dos doze da \u201cSociedade para Aboli\u00e7\u00e3o do Tr\u00e1fico de Escravos\u201d, estabelecida em 1787, na capital brit\u00e2nica, eram quarkers.<\/p>\n<p>Essa institui\u00e7\u00e3o serviu de modelo para outras organiza\u00e7\u00f5es. Elas traziam uma mudan\u00e7a significativa. Refletiam a ideia de que a sociedade humana poderia ser algo maior do que apenas lucro, gan\u00e2ncia e poder, conforme observou o historiador David Brion Davis.<\/p>\n<p>O movimento reunia pessoas de diferentes origens e perfis sociais, de acordo com Laurentino. Quase todos tinham alguma filia\u00e7\u00e3o religiosa, como Anthony Benezet, franc\u00eas de pais protestantes, professor de uma das raras escolas para negros existente nos EUA, na primeira metade do s\u00e9culo XVIII, e l\u00edder dos quarkers na Filad\u00e9lfia.<\/p>\n<p>Outro foi Benjamim Franklin, inventor do para-raios e um dos pais da Independ\u00eancia dos Estados Unidos. Tinha sido senhor de escravos at\u00e9 resolver libert\u00e1-los e aderir ao movimento abolicionista. Tamb\u00e9m John Wesley, te\u00f3logo anglicano, precursor do movimento espiritual que daria origem \u00e0 Igreja Metodista, em 1739.<\/p>\n<p>O reverendo John Newton foi capit\u00e3o de navio negreiro antes de se converter, tornar-se abolicionista e compor um dos hinos religiosos de todos os tempos &#8211; Amazing Grace (Maravilhosa Gra\u00e7a), incorporada \u00e0 cultura pop na voz de Elvis Presley.<\/p>\n<p>Na Inglaterra destacaram-se Granville Sharp (o mais veterano), Thomas Clarkson e William Wilberforce. Granville defendia a causa dos negros escravizados desde 1765. Foi autor de um plano para cria\u00e7\u00e3o de uma col\u00f4nia para ex-cativos na costa da \u00c1frica que daria origem ao atual pa\u00eds de Serra Leoa.<\/p>\n<p>Clarkson foi o mais infatig\u00e1vel de todos abolicionistas. Durante sua campanha, teria viajado 50 mil quil\u00f4metros pela Gr\u00e3-Bretanha fazendo pesquisas a respeito do neg\u00f3cio negreiro e divulgando suas ideias.<\/p>\n<p>Segundo Laurentino, o abolicionismo foi tamb\u00e9m a primeira campanha popular a usar t\u00e9cnicas modernas de propaganda de massa com fins pol\u00edticos. Seus l\u00edderes tinham a consci\u00eancia de que n\u00e3o bastava a defesa de princ\u00edpios morais e valores crist\u00e3os para convencer a opini\u00e3o p\u00fablica quanto o abolicionismo.<\/p>\n<p>Reuni\u00f5es, palestras e com\u00edcios nas ruas e pra\u00e7as ajudaram na promo\u00e7\u00e3o dos milhares de abaixo-assinados que chegaram ao Parlamento. A participa\u00e7\u00e3o feminina foi intensa e importante, como o boicote do a\u00e7\u00facar produzido nas col\u00f4nias escravistas do Caribe. O abolicionismo, al\u00e9m de uma filosofia, tinha um cunho ativista.<\/p>\n<p>Um caso particular de crueldade do tr\u00e1fico se tornou como\u00e7\u00e3o nacional. Foi a trag\u00e9dia ocorrida a bordo de um navio negreiro entre a \u00c1frica e o Caribe, no dia seis de setembro de 1781, com o navio Zong, de Liverpol. Essa nau saiu da \u00c1frica para Jamaica com excesso de carga.<\/p>\n<p>No meio do Atl\u00e2ntico, em novembro, 60 negros j\u00e1 haviam morrido. Temendo perder toda carga, o capit\u00e3o Luke decidiu jogar ao mar todos escravos doentes ou desnutridos. Em tr\u00eas dias, 133 negros foram atirados vivos da amurada, e s\u00f3 um conseguiu escapar.<\/p>\n<p>Era um horror a viagem nos por\u00f5es, como narra \u00a0Laurentino. L\u00e1 \u00a0dentro, a cada homem adulto cabia um ret\u00e2ngulo de 1,82 metro de comprimento por 40 cent\u00edmetros de largura. Cada menina espremia-se numa faixa de 1,22 metro por 35,6 cent\u00edmetros. A altura entre as diferentes plataformas era de 1,70 metro.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, um grupo liderado por Benezet conseguiu fazer aprovar, na Pensilv\u00e2nia, em 1780, uma primeira lei de emancipa\u00e7\u00e3o gradual. Medidas id\u00eanticas foram aprovadas depois em Massachusettes, Vermont, Connecticut, Nova York, Nova Jersey e Alto Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, em 1805, o governo concordou em banir a importa\u00e7\u00e3o de cativos para os territ\u00f3rios da Guiana e ilha de Trinidad. No ano seguinte proibiu os s\u00faditos de se envolverem no com\u00e9rcio de escravos com dom\u00ednios e col\u00f4nias estrangeiras.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1807, o tr\u00e1fico foi totalmente proibido a partir de primeiro de janeiro do ano seguinte, mesma data em que os EUA proibiram a importa\u00e7\u00e3o de novos cativos em seus dom\u00ednios. No entanto, a aboli\u00e7\u00e3o total s\u00f3 viria mesmo em 1865, ap\u00f3s a Guerra da Secess\u00e3o.<\/p>\n<p>Portugal, Espanha e o Brasil foram as \u00faltimas pot\u00eancias escravistas do hemisf\u00e9rio ocidental a extinguir o tr\u00e1fico. Entre 1820 a 1880, cerca de 2,3 milh\u00f5es de africanos escravizados embarcariam em navios negreiros rumo a Am\u00e9rica, a maior parte com destino a Cuba e Brasil.<\/p>\n<p>Em 1834, o movimento conseguiu a t\u00e3o sonhada vit\u00f3ria que foi a aboli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas do tr\u00e1fico, mas da pr\u00f3pria escravid\u00e3o em todos os territ\u00f3rios brit\u00e2nicos, s\u00f3 quer a um grande custo para o Tesouro. O parlamento abolia a escravid\u00e3o comprando de seus donos, 800 mil cativos.<\/p>\n<p>O dinheiro foi usado n\u00e3o para indenizar os escravos pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho cativo, mas para compensar os senhores pela perda do que consideravam um investimento e um valioso patrim\u00f4nio. Lord Harewood, um dos mais ricos da \u00e9poca recebeu 26 mil libras esterlinas pela alforria de 1.277 negros. Al\u00e9m disso, a liberdade foi somente para crian\u00e7as com at\u00e9 seis anos de idade. Os demais tiveram que ficar mais seis anos com seus antigos donos na condi\u00e7\u00e3o de \u201caprendizes\u201d, sob a orienta\u00e7\u00e3o de seus senhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A INGLATERRA DECRETOU A ABOLI\u00c7\u00c3O DA ESCRAVATURA EM 1834, MAS, AO INV\u00c9S DOS CATIVOS, INDENIZOU OS SENHORES COM O TESOURO DOS PR\u00d3PRIOS CONTRIBUINTES, E AINDA RETARDOU A LIBERDADE DOS NEGROS AFRICANOS POR SEIS ANOS. 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