{"id":7207,"date":"2022-07-31T09:39:05","date_gmt":"2022-07-31T12:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7207"},"modified":"2022-07-31T09:40:08","modified_gmt":"2022-07-31T12:40:08","slug":"a-inglaterra-e-a-escravidao-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/07\/31\/a-inglaterra-e-a-escravidao-i\/","title":{"rendered":"A INGLATERRA E A ESCRAVID\u00c3O (I)"},"content":{"rendered":"<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII, o tr\u00e1fico negreiro ainda era uma institui\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e lucrativa na Inglaterra, tanto que em 1713 fizeram uma prociss\u00e3o solene e uma festa para celebrar a boa fase nos neg\u00f3cios de uma nova companhia, a \u201cSouth Sea Company\u201d dedicada ao ramo de cargas de cativos.<\/p>\n<p>Quem registra o fato \u00e9 o jornalista e escritor Laurentino Gomes, na segunda trilogia de \u201cEscravid\u00e3o\u201d. Em 1713, essa empresa se tornara detentora do monop\u00f3lio de fornecimento de m\u00e3o de obra cativa pelos trinta anos seguintes para o imp\u00e9rio colonial espanhol nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>De acordo com Laurentino, tinha como s\u00f3cios principais o rei Felipe V, da Espanha e a rainha Ana, da Inglaterra. Entre os minorit\u00e1rios, o matem\u00e1tico Isaac Newton e dois escrit\u00f3rios, Daniel Defoe e Jonathan Swift, autores de cl\u00e1ssicos da literatura Robinson Cruso\u00e9 e As viagens de Gulliver. Em sua curta exist\u00eancia de pouco mais de uma d\u00e9cada, forneceu 64 mil africanos aos espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>CAPITAL MUNDIAL DO TR\u00c1FICO<\/p>\n<p>A cidade portu\u00e1ria de Liverpool era considerada a capital mundial do tr\u00e1fico negreiro. Passara de um pacato vilarejo de pescadores para a segunda cidade mais populosa da Inglaterra. O n\u00famero de moradores passou de cinco mil, em 1700, para 34 mil, em 1773. Liverpool tamb\u00e9m se tornou o principal porto de mercadorias da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, cujo centro seria a cidade de Manchester.<\/p>\n<p>Dezenas de itens compunham a carga de um navio que deixou os portos da Inglaterra em 1787 rumo \u00e0 \u00c1frica, como pe\u00e7as de algod\u00e3o e linho, len\u00e7os e tecidos de seda, balas e barras de chumbo, panelas e frigideiras, p\u00f3lvora, ta\u00e7as e copos de vidro, bijuterias e pedras preciosas, espadas, couro, capas de chuva, tabaco, bebidas e tantos outros.<\/p>\n<p>Os navios brit\u00e2nicos transportavam anualmente, no total, mais de 100 mil africanos escravizados para o Novo Mundo, dos quais 60 mil para os engenhos de a\u00e7\u00facar na Jamaica e Barbados, onde os africanos compunham cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o. A Jamaica recebeu sozinha mais de um milh\u00e3o de cativos, n\u00famero superior ao da Bahia. Barbados, meio milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, tamb\u00e9m se intensificou, a bordo dos navios negreiros, o com\u00e9rcio de escravos para o sul dos Estados Unidos, grande produtora de arroz, tabaco e algod\u00e3o. Entre 1730 e 1740, os brit\u00e2nicos se tornaram os campe\u00f5es mundiais do tr\u00e1fico de gente escrava, ultrapassando pela primeira vez no per\u00edodo, o n\u00famero de portugueses e brasileiros.<\/p>\n<p>O ABOLICIONISMO<\/p>\n<p>Nas quatro d\u00e9cadas seguintes, mais de 800 mil seriam traficados. O auge foi atingido entre 1780 e 1790, quando transportaram 350 mil cativos. Mesmo assim, nesses dez anos aconteceram os debates que fariam desabar o arcabou\u00e7o do sistema escravista, que foi a campanha do abolicionismo brit\u00e2nico e norte-americano, mudando a face do planeta no s\u00e9culo seguinte.<\/p>\n<p>De acordo com o autor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d, o movimento ganhou folego em meados da d\u00e9cada de 1780. Vinte anos mais tarde levaria \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro na Inglaterra e nos Estados Unidos. Mais duas d\u00e9cadas e meia, em 1833, resultaria na aboli\u00e7\u00e3o da escravatura na Inglaterra, completando com o 13 de maio de 188 no Brasil.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o, sugiram v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es de historiadores, algumas at\u00e9 rom\u00e2nticas plantadas pelos brit\u00e2nicos e norte-americanos, como de que teria sido resultado de uma obra filantr\u00f3pica dos brancos em favor dos negros, mas isso n\u00e3o se sustentou.<\/p>\n<p>Em 1944, um estudo revolucion\u00e1rio de um homem crioulo de Trinidad Tobago, chamado Eric Williams abriu v\u00e1rias discuss\u00f5es. Segundo ele, a escravid\u00e3o havia se tornado economicamente insustent\u00e1vel no longo prazo. Diante da marcha dos acontecimentos do s\u00e9culo XVIII, como as novas tecnologias, as descobertas cient\u00edficas e m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, seria inevit\u00e1vel a substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra cativa pelo trabalho assalariado.<\/p>\n<p>Pelo sistema capitalista, conforme as an\u00e1lises dos historiadores, os ex-escravos, convertidos em assalariados seriam tamb\u00e9m consumidores para os novos produtos da economia industrial brit\u00e2nica. Eric tamb\u00e9m defendeu a tese de que a escravid\u00e3o teria sido a primeira fase da economia capitalista, cujos lucros financiaram a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, tornando o trabalho cativo obsoleto.<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima explica\u00e7\u00e3o para o desfecho abolicionista dizia ele que o sistema escravista trazia dentro de si a semente da destrui\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, teria sido resultado da resist\u00eancia dos pr\u00f3prios escravos. O abolicionismo coincidiu com o per\u00edodo de rupturas dentro das ordens estabelecidas pelos brancos, como a Independ\u00eancia dos EUA e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Esses epis\u00f3dios abriram espa\u00e7os para a liberdade.<\/p>\n<p>Num curto intervalo de apenas 43 anos, entre 1789 a 1823, ocorreram mais de vinte revoltas em todo continente americano. Nesse clima, conforme analisa Laurentino, os escravos teriam agu\u00e7ado nos senhores o medo de uma \u201cbomba social\u201d. A Revolu\u00e7\u00e3o do Haiti, em 1791, e a Revolta dos Mal\u00eas, na Bahia, em 1835, foram dois grandes exemplos.<\/p>\n<p>As ideias revolucion\u00e1rias do iluminismo no s\u00e9culo XVIII foram abrindo espa\u00e7os para violentas revolu\u00e7\u00f5es. O escravismo j\u00e1 era uma m\u00e1quina enferrujada, que precisava ser abandonada em favor de um equipamento mais novo e eficiente.<\/p>\n<p>Essa de filantropia dos brancos n\u00e3o colava diante dos fatos de que grandes l\u00edderes escritores, intelectuais e agitadores negros j\u00e1 defendiam o abolicionismo, como no caso da Inglaterra dos africanos Olaudah Equiano, Ottobah Cugoano e Charles Sancho, este um ex-escravo que se tornara compositor e primeiro afrodescendente a ter o direito de voto na Inglaterra.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, segundo apurou Laurentino, a rela\u00e7\u00e3o de abolicionistas negros tem quase quarenta nomes, incluindo o escritor Frederick Douglas, James William Charles, primeiro afrodescendente a estudar na Universidade Yale, e o tamb\u00e9m ex-escravo Harriet Tubman, homenageado pelo presidente Barack Obama.<\/p>\n<p>No Brasil houve o abolicionista Joaquim Nabuco, branco conhecido como \u201cQuincas, o Belo\u201d. Ao lado dele tiveram o fluminense Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, o advogado baiano Luis Gama, o engenheiro baiano Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, autora de \u00darsula, primeiro romance publicado por uma mulher negra.<\/p>\n<p>ATIVA E VIGOROSA<\/p>\n<p>Quanto a explica\u00e7\u00e3o da inviabilidade econ\u00f4mica n\u00e3o convence certos historiadores, pois pesquisas mostram que, no final do s\u00e9culo XVIII, a escravid\u00e3o estava longe da exaust\u00e3o. Estava ativa e vigorosa, como demonstrou o historiador Seymour Drescher, opositor de Eric William. Pelo ponto econ\u00f4mico, <u>n\u00e3o haveria como acabar com a escravid\u00e3o. Na vis\u00e3o <\/u>\u00a0de Drescher, a aboli\u00e7\u00e3o teria mergulhado as col\u00f4nias brit\u00e2nicas num decl\u00ednio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Ao assumir o governo brit\u00e2nico, em 1783, o primeiro-ministro William Pitt estimou que 80% de todas as receitas auferidas pela Gr\u00e3-Bretanha no com\u00e9rcio ultramarino vinham de suas col\u00f4nias no Caribe. No per\u00edodo de 1750 a 1805, nunca tantos cativos foram transportados da \u00c1frica para a Am\u00e9rica, antes da aboli\u00e7\u00e3o nos EUA e Inglaterra. A pr\u00f3pria Guerra da Sucess\u00e3o entre o Sul e o Norte, em que mais de 750 mil pessoas morreram, comprova que o sistema estava vigoroso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, \u201ca teoria de que a aboli\u00e7\u00e3o resultou da teoria da press\u00e3o dos pr\u00f3prios negros n\u00e3o fica de p\u00e9 sozinha e precisa ser calibrada diante dos fatos. Houve v\u00e1rias rebeli\u00f5es, mas nenhuma, com a exce\u00e7\u00e3o do Haiti, chegou a amea\u00e7ar a ordem escravista. A maioria optou por outras estrat\u00e9gias silenciosas de resist\u00eancia, como rela\u00e7\u00e3o de la\u00e7os familiares mediante o compadrio (irmandades religiosas, alian\u00e7as sutis com seus senhores)\u201d.<\/p>\n<p>Na chamada Revolta de Tacky, na Jamaica, em 1760, os rebeldes pregavam a aniquila\u00e7\u00e3o dos brancos\u00a0 e a tomada do poder, onde continuariam a produzir o a\u00e7\u00facar pela escraviza\u00e7\u00e3o dos negros. No Quilombo Oitizeiro, no sul da Bahia, os fugitivos utilizavam o trabalho de outros escravos na produ\u00e7\u00e3o de mandioca. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<u>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/u><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII, o tr\u00e1fico negreiro ainda era uma institui\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e lucrativa na Inglaterra, tanto que em 1713 fizeram uma prociss\u00e3o solene e uma festa para celebrar a boa fase nos neg\u00f3cios de uma nova companhia, a \u201cSouth Sea Company\u201d dedicada ao ramo de cargas de cativos. Quem registra o fato \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7207"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}