{"id":7143,"date":"2022-07-16T01:23:00","date_gmt":"2022-07-16T04:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7143"},"modified":"2022-07-16T01:23:27","modified_gmt":"2022-07-16T04:23:27","slug":"os-quilombos-e-os-capitaes-do-mato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/07\/16\/os-quilombos-e-os-capitaes-do-mato\/","title":{"rendered":"OS QUILOMBOS E OS CAPIT\u00c3ES DO MATO"},"content":{"rendered":"<p>A palavra kilombo, no portugu\u00eas quilombo, vem do quicondo e do quimbundo, l\u00ednguas faladas na \u00c1frica Central. Significa acampamento, arraial, uni\u00e3o ou cabana. Entre os povos imbangalas de Angola, indicava sociedade guerreira de rigorosa disciplina militar. No Brasil virou sin\u00f4nimo de reduto de escravos fugitivos, chamado de mocambo.<\/p>\n<p>Em \u201cEscravid\u00e3o\u201d, segundo volume da trilogia do jornalista e escritor Laurentino Gomes, no cap\u00edtulo \u201cFugitivos e Rebeldes\u201d, ele come\u00e7a a descrever sobre o Quilombo de Cruz da Menina, na Serra da Borborema, no agreste da Para\u00edba. Na produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar e do caf\u00e9, todos cativos chegaram ali por volta do final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX.<\/p>\n<p>COMUNIDADE FEMININA<\/p>\n<p>O nome foi dado em mem\u00f3ria de uma menina branca de nome Dulce, filha de retirantes da grande seca de 1876, que ali teria morrido de sede. Para tr\u00e1s ficou uma comunidade feminina e matriarcal. Restou a essas mulheres fortes a tarefa de cuidar dos filhos e sozinhas enfrentar os desafios da vida.<\/p>\n<p>Laurentino ressalta que hist\u00f3ria semelhante pode ser observada no munic\u00edpio vizinho de Alagoa Grande, terra do cantor e compositor Jackson do Pandeiro. Na mesma Serra, a comunidade quilombola de Caiana dos Crioulos se dividiu em duas em raz\u00e3o da seca.<\/p>\n<p>Uma parte dela permaneceu ali e a outra metade urbana e masculina em Pedras de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. As duas mant\u00eam intenso interc\u00e2mbio.\u00a0 No in\u00edcio de 2020, as mulheres de Caiana, depois de muitas lutas, conseguiram o reconhecimento e a titula\u00e7\u00e3o de suas terras, coisa que n\u00e3o ocorreu com Cruz da Menina.<\/p>\n<p>Heran\u00e7a do sistema escravista, como diz o escritor, atualmente existem milhares de quilombos espalhados pelo Brasil. Em 2019 era 3.212 certificados pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares. \u201cCom 1,2 milh\u00e3o de moradores, dos quais 75% em estado de pobreza extrema, os quilombos ocupam uma \u00e1rea de 1,2 milh\u00e3o de hectares.<\/p>\n<p>A soma de todos quilombos, segundo Laurentino, resulta numa \u00e1rea inferior \u00e0 ocupada pelas dez maiores propriedades do agroneg\u00f3cio do pa\u00eds. A fazenda Piratininga, entre Tocantins, Goi\u00e1s e Mato Grosso, se estende por 135 mil hectares.<\/p>\n<p>ORELHAS CORTADAS<\/p>\n<p>Durante a escravid\u00e3o, a viol\u00eancia contra os quilombos pode ser medida atrav\u00e9s dos relatos dos historiadores. Um deles conta que, ao retornar a S\u00e3o Paulo, em 1751, depois de atacar in\u00fameros redutos numa regi\u00e3o de Minas Gerais e Goi\u00e1s, o bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado levava como trof\u00e9u colares com 3.900 pares de orelhas cortadas. Pelas leis portuguesas, o corte da orelha era uma das puni\u00e7\u00f5es previstas para os fugitivos.<\/p>\n<p>De acordo com o autor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d, o C\u00f3digo Negro, do governo franc\u00eas, de 1768, estabelecia que na col\u00f4nia de S\u00e3o Domingos (Haiti), escravos ausentes por mais de quatro dias seriam submetidos a 50 chibatadas e ficariam amarrados no tronco at\u00e9 o p\u00f4r-do-sol. Oito dias de aus\u00eancia, 100 chibatadas e o uso de uma corrente amarrada a um peso de ferro de dez quilos por dois meses.<\/p>\n<p>Na Louisiana (EUA), os fugitivos tinham as orelhas cortadas e costas marcadas a ferro quente. Tr\u00eas fugas resultariam em senten\u00e7a de morte. No Suriname, um cativo recapturado depois de algumas semanas de fuga poderia ter o tend\u00e3o de Aquiles cortado ou amputa\u00e7\u00e3o da perna direita. Proposta semelhante chegou ao Brasil, mas n\u00e3o foi adotada.<\/p>\n<p>Em 1719, o conde de Assumar, governador de Minas Gerais, tentou implantar a pena de morte, mas n\u00e3o conseguiu. A medida acarretaria preju\u00edzos para os mineradores. Para o escravismo, era melhor um escravo fugitivo do que um escravo morto, conforme assinala o historiador Carlos Magno Guimar\u00e3es. \u00a0Tamb\u00e9m, a C\u00e2mara de Mariana, em 1755, prop\u00f4s cortar o tend\u00e3o de Aquiles. O conde dos Arcos surpreendeu contestando ser uma tirania e condenou as sev\u00edcias dos donos dos escravos.<\/p>\n<p>De todos os quilombos, o que mais resistiu foi o de Palmares, na Serra da Barriga, estado de Alagoas. Lutou durante mais de um s\u00e9culo contra portugueses e holandeses at\u00e9 a morte do seu \u00faltimo l\u00edder Zumbi, em 20 de novembro de 1695. Entre os s\u00e9culos XVIII e XIX surgiram milhares, inclusive em regi\u00f5es mais distantes, como na Amaz\u00f4nia. Outros funcionavam em \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0s cidades, como na floresta da Tijuca (Rio de Janeiro) e Quilombo do Jabaquara (S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>No Gr\u00e3o-Par\u00e1 e Maranh\u00e3o existiram cerca de 80, entre 1734 e 1816. Em Minas Gerais 160 no s\u00e9culo XVIII. Alguns eram grandes comunidades, como Quilombo do Ambr\u00f3sio (Quilombo Grande), em Minas Gerais, na regi\u00e3o de Arax\u00e1, atacado por duas expedi\u00e7\u00f5es (1746-1759). Chegou a reunir mil cativos. Foi descrito como quase reino por Bartolomeu Bueno.<\/p>\n<p>Em Mato Grosso, o Quilombo do Quariter\u00ea (1730), resistiu durante mais de meio s\u00e9culo e reuniu 79 negros e 30 \u00edndios, sob o governo de um rei e uma rainha. Ainda em Mato Grosso, o de Vila Maria chegou a abrigar 200 negros armados. \u201cNa defesa de seus redutos, os quilombolas seguiam estrat\u00e9gias de disciplina militar, desenvolvida na \u00c1frica (Angola, Congo, Nig\u00e9ria). No quilombo Buraco do Tatu, nas vizinhan\u00e7as de Salvador e destru\u00eddo em 1763, os esquemas de defesa eram africanos, com trincheiras cavadas ao ch\u00e3o e cobertas com estrepes de madeiras pontiagudos.<\/p>\n<p>Houve um grande quilombo na bacia do rio Trombetas, afluente do Amazonas. Um relat\u00f3rio dizia que teve dois mil habitantes. Os cativos chegaram a essa regi\u00e3o por volta de 1780 nas fazendas de gado e cacau.\u00a0 O reduto foi atacado em 1823, mas tempos depois foi reativado e deu origem a outros, mantendo rela\u00e7\u00f5es abertas com o mercado de brancos, aldeias ind\u00edgenas e exporta\u00e7\u00e3o de cacau.<\/p>\n<p>Na descri\u00e7\u00e3o do historiador Fl\u00e1vio dos Santos Gomes, fugas e quilombos aumentavam mais em per\u00edodos de guerras, caso dos holandeses e portugueses que deram alento a Palmares, e diverg\u00eancias entre os brancos. O mesmo fen\u00f4meno pode ser observado na primeira metade do s\u00e9culo XIX nos conflitos Cabanagem (Par\u00e1), Balaiada (Maranh\u00e3o), Revolu\u00e7\u00e3o do Cabanos (Pernambuco e Alagoas), Farroupilha (Rio Grande do Sul). No Maranh\u00e3o, o quilombo Campo Grande mobilizou um ex\u00e9rcito de tr\u00eas mil ex-escravos para participar da Balaiada.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o das autoridades era implac\u00e1vel. Governadores reclamavam dos cont\u00ednuos delitos cometidos por bastardos (brancos pobres fora da lei), carij\u00f3s (\u00edndios), mulatos e negros. Em Minas Gerais foi proposto a pena de morte para combater as quadrilhas de salteadores. O governador de Minas temia que seu territ\u00f3rio poderia se transformar num Palmares. Ele dizia que os quilombos eram pequenos estados ou reinos organizados \u00e0 maneira africana. Em Campo Grande haviam mais de 600 negros, com rei e rainha. As refer\u00eancias a reis e rainhas apareciam em diversos relat\u00f3rios.<\/p>\n<p>No Mato Grosso, entre 1770 e 1795, existiu tamb\u00e9m o Quilombo da Carlota, governado por uma mulher, em homenagem \u00e0 princesa Carlota Joaquina, mulher de D. Jo\u00e3o VI.<\/p>\n<p>Um caso interessante narrado por Laurentino, seguido de negocia\u00e7\u00e3o (esp\u00e9cie de greve) ocorreu no final do s\u00e9culo XVIII, em Ilh\u00e9us, com o engenho Santana, fundado no s\u00e9culo XVI, com 300 cativos. Em 1789, um grupo de escravos, sob a lideran\u00e7a de Greg\u00f3rio Luis, fugiu depois de matar o mestre de a\u00e7\u00facar. O engenho ficou parado durante dois anos. Sob press\u00e3o das autoridades, os fugitivos decidiram propor um tratado de paz ao dono do engenho, listando dezenas de reivindica\u00e7\u00f5es. Trata-se de um caso raro onde os escravos falavam sobre as condi\u00e7\u00f5es em que viviam no cativeiro, desejos e expectativas.<\/p>\n<p>Treze das demandas se referiam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e pediam redu\u00e7\u00e3o de 30% da cota di\u00e1ria de cana obrigados a corta. Outras reivindica\u00e7\u00f5es falavam de folgas semanais e ao direito de revender no mercado o que produzissem atrav\u00e9s de seus meios. Queriam tamb\u00e9m jogar, descansar, cantar e dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es de escravos, se mostraram dispostos a retornar ao engenho. Exigiam apenas que os antigos feitores fossem demitidos e novos fossem eleitos mediante aprova\u00e7\u00e3o deles. O dono do engenho Manuel da Silva Ferreira fingiu aceitar as propostas, mas os traiu, prendendo o Greg\u00f3rio e vendeu os demais para o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, um caso bem-sucedido aconteceu em 1800, na antiga capitania do Esp\u00edrito Santo, onde muitas \u00e1reas estavam infestadas de quilombos (300 fugitivos). O governador Silva Pontes dispunha de uma tropa de 100 homens, mesmo assim decidiu negociar. Deu um prazo de 30 dias para os fugitivos retornarem. Em troca seriam anistiados. O plano funcionou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra kilombo, no portugu\u00eas quilombo, vem do quicondo e do quimbundo, l\u00ednguas faladas na \u00c1frica Central. Significa acampamento, arraial, uni\u00e3o ou cabana. Entre os povos imbangalas de Angola, indicava sociedade guerreira de rigorosa disciplina militar. No Brasil virou sin\u00f4nimo de reduto de escravos fugitivos, chamado de mocambo. 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