{"id":707,"date":"2014-12-23T23:10:24","date_gmt":"2014-12-24T02:10:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=707"},"modified":"2014-12-23T23:10:31","modified_gmt":"2014-12-24T02:10:31","slug":"itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/12\/23\/itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-4\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA E COMENTA ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p>Blog Refletor\u00a0Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p>TEMPO REAL<strong>\u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Duas a\u00e7\u00f5es da Ancine-Ag\u00eancia Nacional de Cinema, anunciadas esta semana, referem-se diretamente ao prop\u00f3sito de fomentar a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem audiovisual no Brasil. Primeiro, o crit\u00e9rio de \u201cpropostas de linguagem inovadora e relev\u00e2ncia art\u00edstica\u201d para a escolha, atrav\u00e9s de edital p\u00fablico, de 17 projetos de filmes longos a serem produzidos em 2015, uma linha de a\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 continuidade. Segundo, o investimento de 60 milh\u00f5es de reais nas TVs p\u00fablicas, comunit\u00e1rias e universit\u00e1rias. O presidente da ag\u00eancia, Manoel Rangel, justificou a iniciativa: \u201co campo da TV p\u00fablica \u00e9 um espa\u00e7o de oxigena\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m esta semana tive contato com estudantes de cinema e nossa conversa, por iniciativa deles, girou em torno dos filmes em tempo real, um tipo de narrativa que querem trabalhar. As a\u00e7\u00f5es da Ancine, a inquieta\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos jovens cineastas e um texto que postei aqui h\u00e1 duas semanas,\u00a0<em>Cinema de fluxo<\/em>, est\u00e3o imersos no mesmo caldo de cultura da inova\u00e7\u00e3o, de respostas pertinentes \u00e0 necessidade de experimenta\u00e7\u00e3o e ousadia para alimentar as artes audiovisuais em processo de muta\u00e7\u00e3o (devido \u00e0s novas tecnologias e aos novos cen\u00e1rios sociais, psicossociais e pol\u00edticos da humanidade).<\/p>\n<p>Apesar de ser um procedimento antigo, experimentado por\u00a0alguns\u00a0cineastas cl\u00e1ssicos, filmes em tempo real s\u00e3o raros na hist\u00f3ria do cinema, mas tudo indica que ser\u00e3o cada vez menos raros na contemporaneidade do cinema digital. Sobre o que estamos falando? Come\u00e7ando pelo princ\u00edpio, a linguagem do cinema \u00e9 constru\u00edda com o tempo, como a m\u00fasica. Funciona a partir de dois princ\u00edpios tecno-art\u00edsticos: tempo real e elipse. Tempo real \u00e9 quando a dura\u00e7\u00e3o da cena \u00e9 a mesma da hist\u00f3ria que ela est\u00e1 contando. Por exemplo, um di\u00e1logo de tr\u00eas minutos \u00e9 apresentado na tela durante tr\u00eas minutos. A elipse \u00e9 um salto no tempo entre uma cena e outra, ou dentro da pr\u00f3pria cena. Ent\u00e3o os filmes s\u00e3o feitos com momentos de tempo real e saltos de tempo entre eles. Alguns te\u00f3ricos se referem ao efeito produzido pelas elipses como \u201ccompress\u00e3o\u201d. \u00c9 manipulando tempos reais e elipses que \u00e9 poss\u00edvel contar em dez minutos uma hist\u00f3ria que dura um s\u00e9culo.<\/p>\n<p><!--more-->Entre os raros cl\u00e1ssicos realizados exclusivamente em tempo real, sem a contraparte das elipses, est\u00e1\u00a0<em>Festim diab\u00f3lico<\/em>\u00a0(<em>Rope<\/em>), 1948, de\u00a0Hitchcock. Tr\u00eas jovens servem um jantar para convidados sobre um ba\u00fa onde est\u00e1 escondido o corpo de um colega que mataram. \u00c9 um tempo real radical porque \u00e9 em uma s\u00f3 tomada, a c\u00e2mera n\u00e3o \u00e9 desligada nunca, n\u00e3o h\u00e1 cortes. Como na \u00e9poca fazer isso era imposs\u00edvel, na verdade Hitchcock fez dez tomadas e disfar\u00e7ou os cortes entre elas. Em 1952 Fred Zinneman fez\u00a0<em>Matar ou morrer<\/em>\u00a0(<em>High Noon<\/em>), classificado pelos cr\u00edticos como\u00a0<em>western<\/em>\u00a0psicol\u00f3gico. Um xerife que acaba de se casar e entregar o cargo, decide ficar na cidade e enfrentar um fac\u00ednora que vem se vingar dele e da comunidade. Do casamento at\u00e9 o duelo final a hist\u00f3ria dura 90 minutos e os espectadores sabem disso porque h\u00e1 rel\u00f3gios no cen\u00e1rio cadenciando o suspense. Exatamente os 90 minutos do filme.\u00a0<em>Matar ou morrer<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um tempo real dito radical porque n\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3 tomada. S\u00e3o v\u00e1rias, s\u00e3o muitos cortes, mas n\u00e3o existe saltos no tempo.<\/p>\n<p>O filme em tempo real foi desenvolvido com mais const\u00e2ncia na Am\u00e9rica Latina. H\u00e1 exemplos em v\u00e1rios pa\u00edses (como o premiado filme chileno\u00a0<em>S\u00e1bado<\/em>, 2002, de Mat\u00edas Bize), mas principalmente no M\u00e9xico, a partir do trabalho de Jaime Humberto Hermosillo, que lan\u00e7ou em 1990\u00a0<em>A tarefa<\/em>\u00a0(<em>La tarea<\/em>), filme referencial nessa linha. Tomada \u00fanica, uma mulher grava cenas com o namorado com uma c\u00e2mera escondida e o espectador n\u00e3o sabe exatamente o que est\u00e1 acontecendo entre eles at\u00e9 o minuto final. Hermosillo realizou em 1992\u00a0<em>A tarefa proibida<\/em>\u00a0(<em>La tarea prohibida<\/em>), tamb\u00e9m estimulante, mas sem o sucesso da primeira\u00a0<em>Tarea<\/em>.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo de outro filme mexicano a mencionar \u00e9, exatamente,\u00a0<em>Tiempo real<\/em>, 2002, de Fabrizio Prada. A c\u00e2mera ligada sem interrup\u00e7\u00e3o narrando o roubo de um carro-forte pelos seus motoristas e cruzando uma cidade, passando por 15 diferentes cen\u00e1rios. Prada ensaiou com seus atores e t\u00e9cnicos durante oito meses, fez 11 tomadas de uma hora e meia e escolheu uma delas. Sem manipular o tempo, sem \u201ccompress\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>O \u00faltimo exemplar mexicano inserido nessa linha, que vi, foi\u00a0<em>Preludio<\/em>, 2013, de Eduardo Lucatero, uma situa\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica em um apartamento, minuciosamente ensaiada durante seis meses e gravada em um dia, conex\u00e3o perfeita entre equipe e elenco. Possivelmente alguns dos leitores pensar\u00e3o que \u00e9 um cinema muito pr\u00f3ximo ao teatro. Em alguns filmes isso pode ser percebido, mas outros passam bem longe disso, como\u00a0<em>Matar ou morrer<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Tiempo real<\/em>. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o aberta tanto \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o das duas express\u00f5es, cinema e teatro, como a novas sendas de cria\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio especificamente audiovisual, na linguagem estribada no tempo, no jogo m\u00e1gico com esse profundo mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>O artigo <strong>Tempo real\u00a0<\/strong>que gira em tornode fazer filme e o tempo suscitou lembran\u00e7as, revirando a mem\u00f3ria recordei-me dos idos 1977, quando da filmagem de Diamante Bruto, cujo principal cen\u00e1rio \u00e9 a bela e encantada Len\u00e7\u00f3is. Naquela \u00e9poca, esperando o tempo mudar e preocupado com a continuidade das senas, o ent\u00e3o diretor Orlando Senna, expressou um conceito \u201cFazer Cinema \u00e9 a arte de esperar\u201d jogando, tamb\u00e9m, com o ato de filmar e o tempo, muito embora em outra perspectiva f\u00edlmica.<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blog Refletor\u00a0Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina TEMPO REAL\u00a0 \u00a0\u00a0 Duas a\u00e7\u00f5es da Ancine-Ag\u00eancia Nacional de Cinema, anunciadas esta semana, referem-se diretamente ao prop\u00f3sito de fomentar a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem audiovisual no Brasil. 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