{"id":7004,"date":"2022-06-04T00:21:04","date_gmt":"2022-06-04T03:21:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7004"},"modified":"2022-06-04T00:21:26","modified_gmt":"2022-06-04T03:21:26","slug":"os-reinos-de-daome-e-oio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/06\/04\/os-reinos-de-daome-e-oio\/","title":{"rendered":"OS REINOS DE DAOM\u00c9 E OI\u00d3"},"content":{"rendered":"<p>No segundo volume da trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a hist\u00f3ria do rei Agaja, de Daom\u00e9 que, com seus ex\u00e9rcitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Alad\u00e1, pertencente ao soberano Huffon que fugiu \u00e0s pressas para uma ilha.<\/p>\n<p>As tropas do Daom\u00e9 tomaram o pal\u00e1cio e, em seguida dirigiram-se ao templo de Dangbe, onde as serpentes p\u00edtons eram cultuadas como divindades pelos huedas, designa\u00e7\u00e3o do povo habitante do reino de Ajud\u00e1.<\/p>\n<p>O saldo da ofensiva foi tr\u00e1gico. Dez mil pessoas foram escravizadas. Todos os fortes e entrepostos europeus existentes na regi\u00e3o foram saqueados.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o brit\u00e2nico William Snelgrave, que ancorou seu navio em Alad\u00e1 (capital de um reino do mesmo nome vizinho de Ajud\u00e1), ficou horrorizado com a quantidade de moscas, todas atra\u00eddas pelas cabe\u00e7as em decomposi\u00e7\u00e3o de quatro mil guerreiros huedas sacrificados por Agaja em sinal de j\u00fabilo pela vit\u00f3ria em Ajud\u00e1.<\/p>\n<p>Antes de Alad\u00e1, maior fornecedor de cativos na regi\u00e3o, Agaja havia devastado dois reinos. Segundo relatos, ao fim dos combates, o rei capturou oito mil guerreiros que se tornaram cativos. De acordo com o historiador ingl\u00eas Robin Law, \u201ca guerra era a pr\u00f3pria raz\u00e3o da exist\u00eancia do Daom\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, como descreve Laurentino em sua obra, o Daom\u00e9 estava longe de dominar sozinho o tr\u00e1fico de escravos na Costa da Mina (Golfo de Benin e regi\u00e3o da Nig\u00e9ria). Agaja e seus sucessores eram vulner\u00e1veis aos ataques de um reino ainda mais forte que o seu, o de Oi\u00f3, situado a noroeste, no interior do continente, no territ\u00f3rio da atual Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p>Os guerreiros de Oi\u00f3 eram ex\u00edmios cavaleiros que, partindo do interior, conseguiam chegar ao litoral na \u00e9poca das secas. No tempo das chuvas, o charco impedia o avan\u00e7o dos animais. Entre 1726\/27, Oi\u00f3 destruiu v\u00e1rios vilarejos no campo do Daom\u00e9.<\/p>\n<p>Em 1730, Agaja foi obrigado a fechar um acordo pelo qual concordava em pagar tributos e permitir que as caravanas de escravos dos advers\u00e1rios cruzassem seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Laurentino narra que Daom\u00e9 e Oi\u00f3 se tornaram t\u00e3o eficientes no neg\u00f3cio negreiro que essa regi\u00e3o logo se transformou na segunda maior fornecedora de cativos para a Am\u00e9rica, atr\u00e1s apenas de Angola e Congo.<\/p>\n<p>A demanda dos europeus (Portugal, Espanha, Fran\u00e7a, Inglaterra e o Brasil, na Am\u00e9rica do Sul) por escravos era grande no s\u00e9culo XVIII. Os reinos de Daom\u00e9 e Oi\u00f3 n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de suprir toda procura. Foi ent\u00e3o que os reis passaram a promover novas guerras contra os vizinhos, com o objetivo de vender prisioneiros aos traficantes. \u201cO com\u00e9rcio de escravos dependia essencialmente da viol\u00eancia\u201d \u2013 escreveu Robin Law.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia dessas razias, foram embarcados para o Brasil milhares de negros escravizados falantes de l\u00ednguas jejes (hulas, huedas, aves, adjas, aizos, mahis e outras etnias). Juntos vieram tamb\u00e9m falantes de l\u00ednguas iorub\u00e1s( egbas, egbados, saves e anag\u00f4s), povos que viviam sob a influ\u00eancia do reino de Oi\u00f3.<\/p>\n<p>Essas na\u00e7\u00f5es se concentraram na Bahia que s\u00e3o os jejes e os iorub\u00e1s, identificados como nag\u00f4s, que forneceram o modelo organizacional de formas rituais e de associativismo religioso que resultaram no candombl\u00e9 na Bahia, no xang\u00f3 de Pernambuco e no tambor de mina no Maranh\u00e3o &#8211; destacou o historiador Luis Nicolau Par\u00e9s.<\/p>\n<p>Para Laurentino, deve-se aos africanos escravizados dessa regi\u00e3o a principal influ\u00eancia no desenvolvimento de religi\u00f5es de matriz africana no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo volume da trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a hist\u00f3ria do rei Agaja, de Daom\u00e9 que, com seus ex\u00e9rcitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Alad\u00e1, pertencente ao soberano Huffon que fugiu \u00e0s pressas para uma ilha. 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