{"id":6995,"date":"2022-06-01T22:33:27","date_gmt":"2022-06-02T01:33:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6995"},"modified":"2022-06-01T22:33:50","modified_gmt":"2022-06-02T01:33:50","slug":"o-rape-nas-prosas-dos-compadres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/06\/01\/o-rape-nas-prosas-dos-compadres\/","title":{"rendered":"O RAP\u00c9 NAS PROSAS DOS COMPADRES"},"content":{"rendered":"<p>Para uma boa prosa e conta\u00e7\u00e3o de causos na varanda de uma casa sertaneja, nada melhor que acompanhadas de uns bules de caf\u00e9 e um rap\u00e9. Quer espirrar? Toma um rap\u00e9 do tabaco bem torrado e temperado, como faziam os mais antigos e o preto velho sentados em seus bancos de madeira na boca da noite, que seja enluarada de deixar o terreiro prateado.<\/p>\n<p>Depois de uma semana de labutas na ro\u00e7a, os compadres vizinhos costumavam se reunir para prosear, falar do tempo, da seca, das hist\u00f3rias de gente que deixou tudo para tr\u00e1s e foi para S\u00e3o Paulo, dos cabras valentes, das rixas de mortes entre fam\u00edlias por causa de terras e das mo\u00e7as perdidas que fugiam com os namorados porque os pais n\u00e3o aceitavam o casamento. Com o r\u00e1dio, a televis\u00e3o e at\u00e9 a internet, em muitas casas, hoje n\u00e3o se encontra mais essa tradi\u00e7\u00e3o da cultura oral.<\/p>\n<p>Eram conversas de varar a madrugada. Algumas comadres apareciam, mas elas batiam os papos de mulher em separado, na sala ou na cozinha. O costume, machista ou n\u00e3o, falava mais alto. Cada rodada de caf\u00e9 era seguida de outra de binga com o rap\u00e9. Um tinha que provar a pitada do outro, e sempre havia aquela que era a melhor. O segredo estava no saber fazer o rap\u00e9, como a do preto velho, com 90 anos que mais escutava que proseava.<\/p>\n<p>Oi compadi Aman\u00e7o, passe ai a binga do seu fumo! Esse tempo t\u00e1 anunciano sequid\u00e3o e j\u00e1 t\u00f4 furano um po\u00e7o pra n\u00e3o fart\u00e1 \u00e1gua pra n\u00f3s. Vamo fazer um adjut\u00f3rio. \u00c9 cumpadi Calixto, a coisa t\u00e1 feia, tudo caro na f\u00eara. Parece fim dos tempos. O mundo t\u00e1 virano um furmigu\u00earo de gente pra l\u00e1 e pra c\u00e1. O outro comentava a mo\u00e7a que fugiu de casa para se amancebar com um sujeito que apareceu nas redondezas. N\u00e3o era gente que prestava.<\/p>\n<p>A prosa come\u00e7ava a ficar animada nos causos de coron\u00e9is, como de Honorato Calunga que foi morto por um jagun\u00e7o vindo de l\u00e1 das bandas das Minas Gerais para se vingar da irm\u00e3 que foi desonrada por ele h\u00e1 muitos anos. Sua m\u00e3e morreu de desgosto e o pai at\u00e9 se matou. Coronel Honorato tinha fama de cruel naquelas bandas nordestinas.<\/p>\n<p>O cabra se acoitou na fazenda e esperou o momento certo para dar o bote com uma espingarda papo amarelo e ainda sangrou o danado no ch\u00e3o. Foi num descuido dos seus capangas quando ele saiu para fazer suas necessidades fisiol\u00f3gicas no mato. Depois caiu no mundo. Ningu\u00e9m teve mais not\u00edcias dele. Contam que o \u201cbicho\u201d tinha parte com o satan\u00e1s e se transformava at\u00e9 num toco quando era perseguido pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Lembro desde menino das est\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o do cavaleiro invis\u00edvel que nas noites sem lua saia de uma cancela da mata. Dava para se ouvir a batida nos mesmos hor\u00e1rios. Descia e sobia a ladeira do Corcunda numa picada s\u00f3, aboiando gado como se estivesse numa comitiva. O compadre do lado garantiu que j\u00e1 viu o tal vaqueiro passar por ele numa sexta-feira treze.<\/p>\n<p>\u00c9 cumpadi Selestino, sabe daquela linda mo\u00e7a que foi assassinada a faca toda vestida de noiva quando j\u00e1 ia pra igreja? Pois \u00e9, cumpadi, tudo por ci\u00fame porque ia se cas\u00e1 com outro. Foi um horror, muito choro e bafaf\u00e1. E o sem vergonha safado do coisa ruin do Ti\u00e3o que dormia com as fias! Teve tr\u00eas fios com as fias. Morreu berrano e espumano como boi no matadoro.<\/p>\n<p>O preto velho, mais calado, com seu cachimbo, contava sempre as hist\u00f3rias de seus av\u00f3s que eram escravos nas planta\u00e7\u00f5es de cana e levaram muitas chibatadas de um tal coronel Carvalho, muito perverso com os negros que ele mandava o capataz castigar no reio at\u00e9 cortar a carne. Amarrava o cativo no mour\u00e3o e jogava sal e vinagre nas feridas do pobre coitado.<\/p>\n<p>O preto velho, com sua sabedoria e conhecimento de quem j\u00e1 viu muito sofrimento do seu povo pela vida, tinha sempre um bom conselho para dar. Sua palavra ponderada, como de um profeta dos acontecimentos, era escutada com aten\u00e7\u00e3o. Previa anos dif\u00edceis para a popula\u00e7\u00e3o urbana e rural e recomendava a todos que preparassem seus esp\u00edritos para n\u00e3o se deixar enganar com a chegada dos anticristos.<\/p>\n<p>Quando a prosa ficava mais baixa, era coisa de mulheres para as comadres n\u00e3o escutarem. Cada um tinha alguma quenga no povoado ou na cidade. Coisa bem escondida, na treita, por dentro da moita. O rap\u00e9 rolava, e o compadre dono da casa dizia que era bom para jogar o catarro para fora.<\/p>\n<p>Ali, naquela irmandade, cada um ajudava o outro quando a seca batia forte de rachar o ch\u00e3o nas lagoas e tanques sem \u00e1gua. Em alguns peda\u00e7os, a terra come\u00e7ava a virar sal. Apareciam as clareiras des\u00e9rticas. O mandacaru e o xique-xique ainda sobreviviam, at\u00e9 nos lajedos e nos pedregulhos. S\u00f3 bem tarde da noite, os compadres se despediam com abra\u00e7os e louvar a Deus.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, o tabaco, do qual se fazia o bom rap\u00e9, o charuto e o cigarro, foi um dos primeiros produtos de exporta\u00e7\u00e3o do Brasil colonial para a Europa e para \u00c1frica. Ao lado do a\u00e7\u00facar, da cacha\u00e7a, peles, o ouro, outras mercadorias e utens\u00edlios, era trocado por escravos na costa africana, principalmente na Nig\u00e9ria, Gana, Benin, Angola, Congo, Guin\u00e9, Cabo Verde e at\u00e9 Madagasc\u00e1r. De l\u00e1 nasceram as religi\u00f5es matrizes do candombl\u00e9, mas ai s\u00e3o outras hist\u00f3rias antropol\u00f3gicas dos nossos antepassados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para uma boa prosa e conta\u00e7\u00e3o de causos na varanda de uma casa sertaneja, nada melhor que acompanhadas de uns bules de caf\u00e9 e um rap\u00e9. Quer espirrar? 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