{"id":6968,"date":"2022-05-24T23:19:39","date_gmt":"2022-05-25T02:19:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6968"},"modified":"2022-05-24T23:20:34","modified_gmt":"2022-05-25T02:20:34","slug":"fiado-so-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/05\/24\/fiado-so-amanha\/","title":{"rendered":"&#8220;FIADO S\u00d3 AMANH\u00c3&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o do meu amigo e companheiro jornalista de longas jornadas Chico Ribeiro Neto<\/p>\n<p>Curto e grosso, esse \u00e9 o melhor cartaz sobre fiado que conhe\u00e7o e que ainda hoje figura nas paredes e balc\u00f5es de muitos bares e lojas. N\u00e3o h\u00e1 mensagem mais direta nem mais esperta: \u201cFiado s\u00f3 amanh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas formas de se enfrentar o fiado. Muitas vezes n\u00e3o adianta simplesmente dizer N\u00e3o, tem que pendurar alguma mensagem pra ver se desencoraja o cara. Gosto muito de um antigo cartaz onde havia dois comerciantes. Um dizia \u201cEu vendi a dinheiro\u201d e era gordo, com charuto na boca, todo feliz, a porta do cofre estufada de tanto dinheiro. Ao lado dele um cara esqu\u00e1lido, prateleiras vazias, ratos passeando pelo cofre que estava vazio, e a frase: \u201cEu vendi fiado\u201d.<\/p>\n<p>Emprestar dinheiro tamb\u00e9m \u00e9 igual a vender fiado. No interior havia um ditado para dizer de algu\u00e9m que emprestou dinheiro a um cara que \u00e9 mau pagador: \u201cAmarrou o dinheiro no cabo do veado\u201d. Como o veado \u00e9 muito veloz, ele n\u00e3o vai recuperar esse dinheiro nunca.<\/p>\n<p>Existe a t\u00e1tica do pequeno empr\u00e9stimo. Havia um rep\u00f3rter numa Reda\u00e7\u00e3o de um jornal local de Salvador que sempre pedia dez reais emprestados a algum colega. Nunca era mais, sempre dez. Como a Reda\u00e7\u00e3o tinha umas 60 pessoas, quando ele voltava ao primeiro o cara j\u00e1 tinha esquecido. Nesse rod\u00edzio do fiado ele sempre se dava bem. Al\u00e9m do mais, quem \u00e9 que vai cobrar dez reais de um colega? Acaba mesmo esquecendo.<\/p>\n<p>E tem gente que sabe pedir dinheiro emprestado. N\u00e3o precisa contar hist\u00f3ria de que a sogra morreu, o carro quebrou ou precisa completar o dinheiro pra comprar um rem\u00e9dio. Ele puxa uma conversa bem amena com voc\u00ea e no meio da prosa d\u00e1 a facada com a naturalidade de quem pergunta as horas: \u201cMe empreste dez reais a\u00ed\u201d. Dif\u00edcil negar.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 bares onde existe o \u201cprego\u201d, um pequeno vergalh\u00e3o ponteagudo, fixado numa base de metal, onde se enfiam os \u201cvales\u201d depois de assinados pelos consumidores. Quando o cara paga, o dono do bar vai l\u00e1, arranca o vale do prego e d\u00e1 para o cliente devedor rasgar. Muitos se recusam a aceitar o valor do vale (\u201cn\u00e3o foram oito cervejas, foram somente cinco\u201d), mas \u00e9 por isso que o dono pede pro consumidor assinar o vale, para n\u00e3o haver d\u00favida. No dia seguinte o cara sempre acha que bebeu menos.<\/p>\n<p>Existe uma boa hist\u00f3ria do \u201cprego\u201d, contada pelo cronista e bo\u00eamio Jos\u00e9 Carlos Oliveira (1934-1986), Carlinhos Oliveira, \u201co mais ecum\u00eanico dos ateus\u201d, como ele se definia. Ele estava num famoso bar do Rio de Janeiro, j\u00e1 era madrugada, quando chegaram cinco assaltantes. Carlinhos, que estava perto do balc\u00e3o, quatro amigos e o portugu\u00eas dono do bar foram rendidos por quatro bandidos enquanto outro raspava o caixa. De repente Carlinhos, m\u00e3os ao alto, disse para o bandido que o rendia: \u201cO prego\u201d. O cara entendeu, deu um sorriso c\u00famplice, foi at\u00e9 o prego, arrancou todos os vales e os colocou no bolso, para desespero do portugu\u00eas, que xingava Carlinhos entredentes \u2013 \u201cfilho da puta\u201d \u2013 pois tinha uma certeza: o cronista fazia aquilo por interesse pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Outro cartaz interessante sobre o fiado diz assim:<\/p>\n<p>\u201cNota de falecimento: Faleceu neste estabelecimento o Dr. FIADO, deixando a vi\u00fava \u2013 DONA CONTA \u2013 e seus tr\u00eas filhos: CALOTE, PENDURADO e DEPOIS EU PAGO. A fam\u00edlia pede que n\u00e3o mandem FLORES, mandem dinheiro. O FIADO \u00e9 muito PROCURADO, mas aqui n\u00e3o ser\u00e1 ENCONTRADO\u201d.<\/p>\n<p>Outros cartazes sobre fiado:<\/p>\n<p>\u201cFiado \u00e9 igual a barba; se n\u00e3o cortar, s\u00f3 cresce\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO fiado \u00e9 assim: eu vendo, voc\u00ea acha bom! Eu cobro, voc\u00ea acha ruim!\u201d<\/p>\n<p>\u201cA gente s\u00f3 vende fiado para a Rainha da Inglaterra\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFiado: s\u00f3 para maior de 99 anos acompanhado dos av\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFiado, nem a cunhado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFiado, nem \u00e1gua\u201d.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuem d\u00e1 fiado, d\u00e1 dado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPorco fiado, todo o ano grunhe\u201d.<\/p>\n<p>Um dos cartazes admir\u00e1veis sobre fiado \u00e9 este:<\/p>\n<p>\u201cCAMPANHA FIADO N\u00c3O:<\/p>\n<p>N\u00e3o vendo FIADO pra ajudar voc\u00ea a ficar bem&#8230; Percebi que quando vendo fiado nos dias de pagar adoece algu\u00e9m, um parente morre, quebra o carro, o beneficio \u00e9 cortado, o sal\u00e1rio atrasa, \u00e1gua e luz t\u00e1 cortada. Ent\u00e3o, pra n\u00e3o acontecer esse tipo de coisa n\u00e3o venderei fiado, porque n\u00e3o quero prejudicar voc\u00ea, j\u00e1 que toda vez que vendo acontecem v\u00e1rias trag\u00e9dias. Portanto, pra evitar eu destruir sua vida, fiado n\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em\u00a0<a href=\"http:\/\/leiamaisba.com.br\/\">leiamaisba.com.br<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o do meu amigo e companheiro jornalista de longas jornadas Chico Ribeiro Neto Curto e grosso, esse \u00e9 o melhor cartaz sobre fiado que conhe\u00e7o e que ainda hoje figura nas paredes e balc\u00f5es de muitos bares e lojas. N\u00e3o h\u00e1 mensagem mais direta nem mais esperta: \u201cFiado s\u00f3 amanh\u00e3\u201d. 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