{"id":6939,"date":"2022-05-14T01:17:35","date_gmt":"2022-05-14T04:17:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6939"},"modified":"2022-05-14T01:18:13","modified_gmt":"2022-05-14T04:18:13","slug":"curiosidades-do-trafego-negreiro-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/05\/14\/curiosidades-do-trafego-negreiro-xx\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FEGO NEGREIRO (XX)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:<\/p>\n<p>A ESCRAVID\u00c3O, A IGREJA E A LEI \u00c1UREA<\/p>\n<p>Treze de maio \u00e9 o Dia da Lei \u00c1urea e, sobre a data, a maioria dos movimentos negros n\u00e3o reconhece. Prefere homenagear Zumbi dos Palmares no 20 de novembro, Dia da Consci\u00eancia Negra. Alega que a princesa Isabel s\u00f3 fez assinar um documento e nada em termos de repara\u00e7\u00e3o dos danos de 350 anos de escravid\u00e3o, o que, em parte, \u00e9 uma verdade. No entanto, ela bem que tentou, mas D. Pedro II sempre foi pressionado pelas oligarquias da cafeicultura e outros setores da economia que se posicionaram contra qualquer tido de indeniza\u00e7\u00e3o. As elites nunca aceitaram repartir e distribuir.<\/p>\n<p>O jornalista e escritor Laurentino Gomes fala muito dessa quest\u00e3o em sua obra \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d em tr\u00eas volumes. No primeiro, em um trecho do seu livro ele tece coment\u00e1rios sobre a Igreja Cat\u00f3lica, a qual sempre tomou partido favor\u00e1vel \u00e0 escravid\u00e3o e, em algumas vezes, seu posicionamento quanto ao tema era d\u00fabio.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 em 1888, \u00e0s v\u00e9speras da assinatura da Lei \u00c1urea, o papa Le\u00e3o XIII condenou a pr\u00e1tica de forma inequ\u00edvoca. S\u00e3o in\u00fameros os exemplos da \u00edntima associa\u00e7\u00e3o que, a partir dessas bulas papais, se estabeleceu entre Igreja, o tr\u00e1fico de escravos e o Reino de Portugal. Em 1482, ao final da constru\u00e7\u00e3o do Castelo de S\u00e3o Jorge da Mina, atualmente Gana, destinado ao com\u00e9rcio de cativos, o papa Sisto IV concedeu indulg\u00eancia plen\u00e1ria a todos os crist\u00f5es que ali falecessem a servi\u00e7o da coroa portuguesa\u201d.<\/p>\n<p>Laurentino comenta mais na frente que, o simples fato de morrer no castelo do tr\u00e1fico negreiro lhes garantia o total perd\u00e3o dos pecados e a garantia da vida eterna. Descreve o autor que na \u00c1frica, as institui\u00e7\u00f5es religiosas possu\u00edam e comercializavam escravos com a mesma naturalidade de qualquer outra empresa ou associa\u00e7\u00e3o dedicada ao tr\u00e1fico. Em Angola, por exemplo, os jesu\u00edtas tinham, em 1558, mais de 10 mil escravos trabalhando em seus quinhentos s\u00edtios e fazendas, de acordo com o relat\u00f3rio do governador Jo\u00e3o Fernandes Vieira enviado \u00e0 coroa portuguesa.<\/p>\n<p>Segundo o historiador Roquinaldo Ferreira, no come\u00e7o do s\u00e9culo XVII, a Companhia de Jesus era a maior propriet\u00e1ria de escravos de Angola. Da mesma forma, institui\u00e7\u00f5es religiosas ganhavam muito dinheiro vendendo escravos para o Brasil. Um outro res\u00edduo da tr\u00e1gica hist\u00f3ria da Igreja relacionada \u00e0 escravid\u00e3o africana \u00e9 o preconceito racial. Conforme a historiadora Larissa Viana, a Ordem dos Carmelitas Descal\u00e7os Teresianos, estabelecida em Olinda, em 1686, manteve a mais rigorosa e persistente contra pessoas de alguma descend\u00eancia africana, mesmo que long\u00ednquo.<\/p>\n<p>Como pregava o padre Ant\u00f4nio Vieira, os pardos eram quase sempre malcriados e foram banidos do col\u00e9gio porque as fam\u00edlias brancas n\u00e3o toleravam ver seus filhos ao lado de pessoas de vil e obscura origem, de costumes corrompidos e com audaciosa soberba. Acrescentava que por esta raz\u00e3o, nesta costa do Brasil, j\u00e1 lhes est\u00e1 totalmente fechado o ingresso ao sacerd\u00f3cio e aos claustros religiosos e a qualquer fun\u00e7\u00e3o governativa.<\/p>\n<p>De acordo com o autor das obras \u201cEscravid\u00e3o\u201d, \u201ca pureza de sangue do seminarista tinha de ser provado por meio de inqu\u00e9rito judicial para apurar se pais e av\u00f3s de ambos os lados estavam isentos das tais m\u00e1culas raciais, ou \u201csangue defeituoso\u201d, e a\u00ed estavam tamb\u00e9m inclu\u00eddos os judeus. Os estatutos da Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco, de Mariana (MG), determinavam que todo candidato \u00e0 confraria teria de ser de nascimento branco leg\u00edtimo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo essa quizila toda dos movimentos negros contra a princesa Isabel que sempre foi defensora da aboli\u00e7\u00e3o e concedeu centenas e milhares de cartas de alforrias. Com a Igreja Cat\u00f3lica, existe hoje um sincretismo religioso entre o candombl\u00e9 e o catolicismo, sem ran\u00e7os raciais, talvez por consci\u00eancia pesada pelo que cometeu de maldades no passado.<\/p>\n<p>Contra a Igreja n\u00e3o existe essa renega\u00e7\u00e3o, como contra o 13 de maio. Na \u00e9poca, final do s\u00e9culo XIX, o pr\u00f3prio Ruy Barbosa, ministro da Fazenda, por press\u00e3o dos fazendeiros e empres\u00e1rios em geral, mandou para a fogueira v\u00e1rios documentos para evitar pedidos de indeniza\u00e7\u00e3o por parte dos escravos, que nunca receberam seus direitos por trabalharem s\u00e9culos debaixo da chibata. A escravid\u00e3o no Brasil, na verdade, n\u00e3o acabou, e est\u00e1 a\u00ed mais que vis\u00edvel nos fatos do dia a dia, principalmente com a reforma trabalhistas, que est\u00e1 mais para reforma escravista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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