{"id":6860,"date":"2022-04-20T22:56:37","date_gmt":"2022-04-21T01:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6860"},"modified":"2022-04-20T22:57:01","modified_gmt":"2022-04-21T01:57:01","slug":"lembrancas-da-infancia-que-ainda-acontecem-no-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/04\/20\/lembrancas-da-infancia-que-ainda-acontecem-no-presente\/","title":{"rendered":"LEMBRAN\u00c7AS DA INF\u00c2NCIA QUE AINDA ACONTECEM NO PRESENTE"},"content":{"rendered":"<p>Existem fatos que marcam para sempre a inf\u00e2ncia de uma crian\u00e7a, e outros desaparecem da mente, coisas que os psicanalistas Freud e Lacan explicam a partir de estudos do subconsciente que guarda a sete chaves os medos e os fantasmas humanos.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, quando ainda crian\u00e7a, talvez uns quatro ou cinco anos, na cidade de Monte Alegre, hoje Mair\u00ed, no sert\u00e3o da Bahia, nunca me esque\u00e7o de um mission\u00e1rio, se n\u00e3o me engano da ordem dos capuchinhos, por causa da cor marrom da batina, que vociferava palavras de \u201cterror\u201d contra os fi\u00e9is \u201cpecadores\u201d.<\/p>\n<p>Do p\u00falpito nas escadarias da igreja, em frente da pra\u00e7a, ele descrevia ou berrava, com todas as for\u00e7as de seus pulm\u00f5es, o fogo do inferno como se ele estivesse sa\u00eddo de l\u00e1 naquele exato momento. O frade falava das caldeiras e tachos ferventes dos diabos que espetavam as almas pecadoras. Dava para se ouvir os gemidos e o ranger de dentes.<\/p>\n<p>As cenas eram horr\u00edveis, ao ponto de terem me deixado traumatizado por muitos e muitos anos, tanto que ainda recordo delas at\u00e9 hoje. Mesmo com minha pobre inoc\u00eancia de menino, sentia um temor nos rostos dos meus pais e de toda aquela gente, num sil\u00eancio sepulcral que dava para escutar o voar de um mosquito.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o me engano, era festa da padroeira ou do padroeiro do munic\u00edpio, e o p\u00e1roco tinha o costume de convidar uns mission\u00e1rios bem brabos para os serm\u00f5es das novenas noturnas. Sem d\u00favida, esse era de encomenda no quesito transcri\u00e7\u00e3o do inferno, que convertia qualquer pecador, por mais maligno que fosse.<\/p>\n<p>Depois da prega\u00e7\u00e3o de horrores que fazia tremer as carnes, lembro que enormes filas se formaram dentro da Igreja para as confiss\u00f5es. Com aquele inferno pior do que o de Dante, quem se atreveria ficar em \u201cpecado\u201d? Todos ali deviam ter o mesmo pensamento: V\u00e1 que eu morra e vou parar no inferno. A salva\u00e7\u00e3o era confessar e n\u00e3o mais pecar, mas a carne \u00e9 sempre fraca.<\/p>\n<p>N\u00e3o deveria estar escrevendo este texto t\u00e3o macabro, mas \u00e9 que 70 anos depois observo ainda hoje situa\u00e7\u00f5es similares \u00e0queles tempos. N\u00e3o mais por parte da Igreja Cat\u00f3lica, se bem que ainda acontece, mas de certos pastores evang\u00e9licos fan\u00e1ticos e intolerantes que aterrorizam suas comunidades com as figuras de satan\u00e1s, muitas vezes com objetivo para que todos contribuam com o d\u00edzimo.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem mais aquelas miss\u00f5es de antigamente, mas as cren\u00e7as de purgat\u00f3rio, c\u00e9u e inferno, sim. Os mais radicais ainda acreditam que somente sua religi\u00e3o salva, e tenho testemunhos sobre isso. Outros saem por a\u00ed apedrejando terreiros de candombl\u00e9, dizendo que \u00e9 coisa do diabo.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje ainda ocorrem as guerras e as matan\u00e7as de cunho religioso, um sinal de que a humanidade pouco evoluiu e est\u00e1 longe de alcan\u00e7ar a civiliza\u00e7\u00e3o desejada. \u00a0O mal e o bem est\u00e3o sempre se cruzando, e cada um traz no seu \u00edntimo o seu conceito de verdade absoluta, o que n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem fatos que marcam para sempre a inf\u00e2ncia de uma crian\u00e7a, e outros desaparecem da mente, coisas que os psicanalistas Freud e Lacan explicam a partir de estudos do subconsciente que guarda a sete chaves os medos e os fantasmas humanos. 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