{"id":6842,"date":"2022-04-15T22:23:38","date_gmt":"2022-04-16T01:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6842"},"modified":"2022-04-15T22:23:57","modified_gmt":"2022-04-16T01:23:57","slug":"curiosidades-do-trafico-negreiro-viii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/04\/15\/curiosidades-do-trafico-negreiro-viii\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FICO NEGREIRO (VIII)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cVis\u00e3o do Inferno\u201d, o autor da obra descreve que as caldeiras dos engenhos daquela \u00e9poca ferviam em meio \u00e0 escurid\u00e3o da noite brasileira. \u201cAs labaredas, frequentemente comparadas ao fogo do inferno, ou \u00e0 lava incandescente dos vulc\u00f5es, eram alimentados por escravos \u2013 vultos que se movimentavam ao redor de gigantescos tachos de cobre onde borbulhava o caldo de cana a ser depurado para se transformar em a\u00e7\u00facar\u201d.<\/p>\n<p>Em sua vis\u00e3o, Laurentino diz que a\u00e7\u00facar \u00e9 sin\u00f4nimo de escravid\u00e3o. Quem faz relatos mais macabros ainda \u00e9 o padre Andr\u00e9 Jo\u00e3o Antonil que, em companhia do padre Ant\u00f4nio Vieira, o defensor da escravid\u00e3o, chegou \u00e0 Bahia em 1681. Seu livro \u201cCultura e Opul\u00eancia do Brasil por suas Dragas e Minas\u201d, foi publicado em Lisboa, em 1711.<\/p>\n<p>Em um trecho do livro, Antonil escreve que, junto \u00e0 casa da moenda, que chamam casa do engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, c\u00e1rcere de fogo e fumo perp\u00e9tuo e viva imagem dos vulc\u00f5es Ves\u00favio e Etna(&#8230;)<\/p>\n<p>Prossegue relatando que nos engenhos reais, costumava haver seis fornalhas, e nelas outros tantos escravos assistentes, que chamam metedores de lenha. \u201cO alimento do fogo \u00e9 a lenha, e s\u00f3 no Brasil, com a imensid\u00e3o dos matos que tem, podia fartar como fartou por tantos anos, e fartar\u00e1 nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas s\u00e3o as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cNunca consideramos este tr\u00e1fico il\u00edcito, Na Am\u00e9rica, todo escr\u00fapulo \u00e9 fora de prop\u00f3sito\u201d \u2013 Luis Brand\u00e3o, reitor do col\u00e9gio jesu\u00edta de Luanda, mas a Igreja produziu um grande santo que foi o padre Pedro Claver, natural de Catalunha, nascido em 26 de junho de 1580. Passou mais de 40 anos de sua vida visitando os navios negreiros que atracavam no porto de Cartagena das \u00cdndias, Col\u00f4mbia. Levava conforto espiritual e material aos cativos.<\/p>\n<p>Os escravos sempre chegavam desidratados e desnutridos, sem condi\u00e7\u00f5es de se manter em p\u00e9. Claver descia aos por\u00f5es escuros, f\u00e9tidos, sem ventila\u00e7\u00e3o e, durante dias, se dedicava a cuidar dos mais fracos para curar suas feridas, dar comida e agasalhos. Ele fez um voto de ser escravos dos et\u00edopes, aethiopum semper servus. Era nome gen\u00e9rico usado para designar os africanos nessa \u00e9poca. \u201cPedro Claver \u00e9 o santo que mais me impressionou depois da pr\u00f3pria vida de Cristo\u201d \u2013 declarou o papa Le\u00e3o XIII, ao canoniz\u00e1-lo em 1888, ano da assinatura da Lei \u00c1urea. Ele hoje \u00e9 padroeiro da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>\u201cDurante cerca de 400 anos, padres, bispos, cardeais e ordens religiosas, n\u00e3o apenas apoiaram como participaram do tr\u00e1fico de escravos e lucraram com ele\u201d \u2013 destacou Laurentino, acrescentando que poucos ergueram suas vozes contra o cativeiro dos africanos.<\/p>\n<p><strong>O come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, a Ordem dos Beneditinos tinha mais de mil cativos trabalhando em suas fazendas no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. No Maranh\u00e3o, os frades do Carmo e das Merc\u00eas possu\u00edram escravos at\u00e9 mar\u00e7o de 1887.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0 <\/strong>O bispo do Congo e Angola recebia um ordenado de 600 mil reis por ano da Coroa Portuguesa, que era pago com direitos de exporta\u00e7\u00e3o de escravos. O col\u00e9gio jesu\u00edta de Luanda enviava regularmente cargas de africanos para os col\u00e9gios de Salvador e Olinda que, por sua vez, os revendia para os senhores de engenhos da Bahia e da Zona da Mata de Pernambuco.<\/p>\n<p>O padre Ant\u00f4nio Vieira atribu\u00eda o com\u00e9rcio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio porque, segundo ele, tirados da barb\u00e1rie e do paganismo na \u00c1frica, os cativos teriam a gra\u00e7a de serem salvos pelo catolicismo no Brasil. N\u00e3o consigo entender essas irmandades de apego a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. Falta de consci\u00eancia ou conhecimento hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>Este \u00e9 o maior e mais universal milagre de quantos faz cada dia e tem feito por seus devotos a Senhora do Ros\u00e1rio \u2013 dizia o padre Vieira em suas homilias para uma irmandade de escravos de um engenho na Bahia, em 1633. No mesmo serm\u00e3o, afirmava que aos escravos, cabia n\u00e3o apenas aceitar o sofrimento do cativeiro, mas se alegrar com a inestim\u00e1vel oportunidade que tinham de imitar os sofrimentos de Jesus no Calv\u00e1rio. \u201cEm um engenho, s\u00f3is imitadores de Cristo Crucificado\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo fil\u00f3sofos e intelectuais respeitados por suas ideias libert\u00e1rias, caso do brit\u00e2nico John Locke, participaram do tr\u00e1fico escravo. No caso da Igreja Cat\u00f3lica, de acordo com Laurentino, havia uma contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel entre suas pr\u00e1ticas e os ensinamentos de Jesus Cristo que ela pregava, ou seja, a pr\u00f3pria raz\u00e3o da sua exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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