{"id":683,"date":"2014-12-09T22:05:56","date_gmt":"2014-12-10T01:05:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=683"},"modified":"2014-12-09T22:06:39","modified_gmt":"2014-12-10T01:06:39","slug":"itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/12\/09\/itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-2\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA E COMENTA ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p><strong>CINEMA DE FLUXO<\/strong><\/p>\n<p>No dia 28 deste m\u00eas de dezembro o cinema completa 119 anos e uma trajet\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o de linguagem lastreada na narrativa dram\u00e1tica e na encena\u00e7\u00e3o, esta \u00faltima herdada do teatro, via a express\u00e3o francesa\u00a0<em>mise en sc\u00e8ne<\/em>. Tanto a narrativa dram\u00e1tica como sua encena\u00e7\u00e3o s\u00e3o planejadas, \u00e0s vezes minuciosamente, \u00e0s vezes deixando brechas para o acaso como nos document\u00e1rios. Assim ou assado, uma linguagem, ou uma postura hist\u00f3rica dessa linguagem, voltada para articula\u00e7\u00f5es racionais (pensamento, organiza\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o, clareza), apesar de ter como objetivo nuclear a gera\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Atualmente uma nova atitude com rela\u00e7\u00e3o a essa linguagem est\u00e1 florescendo em v\u00e1rias partes do mundo, inclusive e com muito \u00e2nimo na Am\u00e9rica Latina, sob a denomina\u00e7\u00e3o Cinema de Fluxo. Essa tend\u00eancia est\u00e9tica privilegia a imagem e o som em estado puro, a imagem como imagem e o som como som, significante e significado amalgamados, conte\u00fado e forma unificados, e n\u00e3o como ve\u00edculos de enredos e tramas. O pensamento dial\u00e9tico do cinema narrativo \u00e9 substitu\u00eddo pela contempla\u00e7\u00e3o (ou convive com ela, como \u00e9 o caso do atual est\u00e1gio dessa tend\u00eancia). A dial\u00e9tica cede espa\u00e7o \u00e0 fenomenologia, \u00e0 reflex\u00e3o a partir diretamente do que estamos vendo ou ouvindo, dos fen\u00f4menos que chegam \u00e0 nossa consci\u00eancia atrav\u00e9s dos sentidos e n\u00e3o dos mecanismos do racioc\u00ednio.<\/p>\n<p><!--more-->O desenvolvimento da narrativa a partir do conflito cede lugar a um fluxo de sons e imagens sem o encadeamento, sem o jogo de causa\/efeito que formulam as narrativas aristot\u00e9licas, a sensa\u00e7\u00e3o do ver e ouvir \u00e9 mais importante que o sentido racional forjado pela narra\u00e7\u00e3o, pela atra\u00e7\u00e3o\/rejei\u00e7\u00e3o (Eisenstein) entre as partes do relato. Trata-se de um novo paradigma. Desde algum tempo, talvez desde o in\u00edcio do cinema, experi\u00eancias nessa perspectiva foram realizadas. A diferen\u00e7a para o que est\u00e1 acontecendo atualmente \u00e9 que se trata de um movimento amplo, envolvendo cineastas de todas as latitudes e uma razo\u00e1vel aceita\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, que v\u00ea nesses filmes com linhas argumentais t\u00eanues, sem grandes confronta\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas ou de a\u00e7\u00e3o, sem a rigidez l\u00f3gica das artes narrativas, a possibilidade de um novo tipo de prazer cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios trabalhos acad\u00eamicos sobre o assunto, \u00e9 uma esp\u00e9cie de moda nas teses e disserta\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias. Alguns apontam o despertar dessa tend\u00eancia nas d\u00e9cadas 1980 e 1990, quando aconteceu na linguagem do cinema um \u201cmomento maneirista\u201d (conceito herdado das artes pl\u00e1sticas, significando o envelhecimento de uma linguagem e a ang\u00fastia de grandes artistas que, sem conseguir renov\u00e1-la, repetem seus c\u00e2nones). A \u201cfadiga da mat\u00e9ria\u201d que atingiu a linguagem audiovisual naquela \u00e9poca (li em algum lugar \u201cfadiga da alma\u201d) levou muitos cineastas a repensar a sintaxe f\u00edlmica, a fun\u00e7\u00e3o das imagens e sons no relato. As novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o potencializaram esse repensar.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica destaca alguns cineastas que surfam essa onda, como o chin\u00eas Hou Hsiao-Hsien, de\u00a0<em>Caf\u00e9 Lumi\u00e8re\u00a0<\/em>(2003) e\u00a0<em>A Viagem do Bal\u00e3o Vermelho\u00a0<\/em>(2007), e suas cenas estendidas, sua concentra\u00e7\u00e3o nos detalhes, a plasticidade incessante da luz \u2014 e a quase inexist\u00eancia de uma hist\u00f3ria, ou a fin\u00edssima sutileza de uma poss\u00edvel hist\u00f3ria sendo levada na flui\u00e7\u00e3o de muitas e outras informa\u00e7\u00f5es visuais e auditivas, de situa\u00e7\u00f5es aparentemente irrelevantes, dando a impress\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 come\u00e7o ou fim. Outros cineastas, como a francesa Claire Denis (<em>O intruso<\/em>, 2004) e o estadunidense Gus Van Sant (<em>Gerry<\/em>, 2002) s\u00e3o apontados como destaques. Na Am\u00e9rica Latina, o trabalho mais em evid\u00eancia \u00e9 o da argentina Lucrecia Martel, principalmente por\u00a0<em>A mulher sem cabe\u00e7a<\/em>\u00a0(<em>La mujer sin cabeza<\/em>, 2008), onde v\u00e1rios g\u00eaneros se insinuam se anunciam e n\u00e3o se concretizam em torno de uma mulher que perde contato com a realidade.\u00a0Tamb\u00e9m o do chileno Jos\u00e9 Luis Torres Leiva (<em>Verano<\/em>, 2011), e o da brasileira J\u00falia Murat (<em>Hist\u00f3rias que s\u00f3 existem quando lembradas<\/em>,<em>\u00a0<\/em>2011).<\/p>\n<p>O cinema de fluxo, no atual est\u00e1gio, muitas vezes se organiza como narrativa tradicional, em tr\u00eas atos, plano e contraplano, dentro e fora de campo, para desarticular-se progressivamente sobre o pr\u00f3prio leito, como um riacho que vai encontrando pedras, curvas, empo\u00e7amentos, revela\u00e7\u00f5es, epifanias. \u00c0s vezes entrega-se inteiro ao sensorial, como o recente\u00a0<em>Brasil S\/A<\/em>, de Marcelo Pedroso. Um cinema de planos longos e lentos, de detalhes observados com calma, de c\u00e2meras lambendo a vida sem pressa, colhendo fragmentos da realidade, essencialmente sensual e reflexivo, indiferente ao deus Cronos, indiferente \u00e0 \u201cfor\u00e7a da gravidade\u201d da narrativa tradicional, sem giros e sem cl\u00edmax, direcionado para um entendimento direto do olhar, do aprender a sentir a imagem em si mesma, buscando distanciar-se do discurso, do decurso e do percurso. Uma boa novidade.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CINEMA DE FLUXO No dia 28 deste m\u00eas de dezembro o cinema completa 119 anos e uma trajet\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o de linguagem lastreada na narrativa dram\u00e1tica e na encena\u00e7\u00e3o, esta \u00faltima herdada do teatro, via a express\u00e3o francesa\u00a0mise en sc\u00e8ne. 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