{"id":6785,"date":"2022-03-25T22:26:23","date_gmt":"2022-03-26T01:26:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6785"},"modified":"2022-03-25T22:26:46","modified_gmt":"2022-03-26T01:26:46","slug":"curiosidades-do-trafico-negreiro-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/03\/25\/curiosidades-do-trafico-negreiro-v\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FICO NEGREIRO (V)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:<\/p>\n<p>Conta o historiador Laurentino que existiam algumas leis de puni\u00e7\u00e3o para quem torturasse ou matasse um escravo, sem motivos, mas elas n\u00e3o funcionavam.<\/p>\n<p>O autor narra que, em 1737, por ter matado dois cativos e um negro alforriado, um dos quais foi deixado pendurado pelos test\u00edculos em um gancho de ferro at\u00e9 expirar, Pedro Pais Machado, senhor de engenho de Capanema, na Bahia, foi preso, por\u00e9m, logo libertado.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XVIII, Garcia D\u00b4\u00c1vila Pereira Arag\u00e3o, herdeiro da Casa da Torre, uma das maiores propriedades rurais da col\u00f4nia na \u00e9poca, e um dos homens mais ricos da Bahia, foi denunciado \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o por uma s\u00e9rie de atos de sadismo e extravag\u00e2ncias f\u00edsicas e sexuais contra suas escravas. Apesar das evid\u00eancias, foi absolvido pelo tribunal.<\/p>\n<p>De acordo com a classifica\u00e7\u00e3o feita em 1938 pelo historiador Artur Ramos, havia tr\u00eas categorias de castigo de escravos no Brasil. A primeira era a dos instrumentos de captura (correntes e colares de ferro, algemas, machos e peias). A m\u00e1scara de folha de flandres era usada para impedir o escravo de comer cana, rapadura ou engolir pepitas de pedras preciosas.<\/p>\n<p>A segunda categoria eram as torturas. Uma das modalidades era o \u201canjinho\u201d, instrumento de supl\u00edcio de origem medieval. Torniquetes introduzidos nos dedos dos escravos produziam dores atrozes. A terceira eram as surras com palmat\u00f3ria e o bacalhau (chicote de cabo curto com cinco pontas de couro retorcido).<\/p>\n<p>Para identificar escravos fugitivos, utilizavam-se marcas gravadas a ferro quente com a letra F, al\u00e9m do libambo, uma argola de ferro que era presa ao pesco\u00e7o do cativo. Na pr\u00e1tica, tr\u00eas instrumentos eram aplicados com mais regularidade, como o chicote, o tronco e os grilh\u00f5es. A puni\u00e7\u00e3o mais comum era o a\u00e7oite nas costas ou nas n\u00e1degas.<\/p>\n<p>Ora, o mais hil\u00e1rio \u00e9 que no come\u00e7o do s\u00e9culo XVII, o jesu\u00edta italiano Jorge Benci, que viveu 17 anos na Bahia, recomendava que as chibatadas n\u00e3o ultrapassassem o n\u00famero de 40 por dia, para n\u00e3o machucar o escravo. \u201cTrinta ou quarenta hoje, e outras tantas daqui a dois dias. Daqui a outros dois dias, outros tantos\u201d.<\/p>\n<p>Apesar dessas recomenda\u00e7\u00f5es do jesu\u00edta, ao inv\u00e9s de condenar qualquer tipo de castigo, narram viajantes que havia puni\u00e7\u00f5es absurdas de 200, 300 e at\u00e9 600 a\u00e7oites. Essa quantidade deixava as costas do escravo em carne viva. O risco de morte por infec\u00e7\u00e3o e gangrena era alto. Para evitar isso, banhava-se o escravo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta.<\/p>\n<p>Outros tipos de torturas inclu\u00edam enfiar ti\u00e7\u00f5es de brasa incandescente na boca dos cativos, e a aplica\u00e7\u00e3o do lacre (cera derretida sobre as feridas). Por tudo isso, existia uma elevada taxa de suic\u00eddios.<\/p>\n<p>Nos manuais dos jesu\u00edtas (eles pr\u00f3prios donos de milhares de escravos e ind\u00edgenas) sobre a administra\u00e7\u00e3o de escravos no Brasil, havia recomenda\u00e7\u00f5es de natureza psicol\u00f3gicas sobre como aplicar as puni\u00e7\u00f5es aos infratores.<\/p>\n<p>O padre Manuel Ribeiro Rocha, por exemplo, aconselhava que houvesse um certo tempo entre a suposta falta e o castigo, para serenar os \u00e2nimos. Dizia que o castigo n\u00e3o deveria ser ministrado com c\u00f3lera e furor, e sim, com brandura e caridade. Ele orientava o uso da palmat\u00f3ria, cip\u00f3s e pris\u00e3o. O Manuel recomendava ainda que os senhores n\u00e3o permitissem que os feitores dessem coices na barriga das mulheres gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>Destaca o autor da obra que o cativeiro separava pais e filhos, maridos e mulheres, fam\u00edlias e comunidades inteiras que, na \u00c1frica, tinham convivido e compartilhado os mesmos costumes e cren\u00e7as por muitas gera\u00e7\u00f5es. \u201cA escravid\u00e3o n\u00e3o apenas divide; ela tamb\u00e9m une o que divide\u201d \u2013 observou o soci\u00f3logo franc\u00eas Roger Bastide, um dos grandes estudiosos da cultura africana no Brasil.<\/p>\n<p>Segundo Laurentino, ainda durante a viagem, v\u00ednculos se formavam entre os pr\u00f3prios africanos. Os sofrimentos compartilhados forjavam amizades entre cativos de diferentes regi\u00f5es, etnias e linhagens, algumas das quais eram at\u00e9 rivais entre si na \u00c1frica. Esses novos companheiros de travessia do oceano eram chamados de \u201cmalungos\u201d, do quimbundo (Angola) correntes de ferro. Sempre existiam la\u00e7os de solidariedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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