{"id":6764,"date":"2022-03-18T23:09:45","date_gmt":"2022-03-19T02:09:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6764"},"modified":"2022-03-18T23:10:07","modified_gmt":"2022-03-19T02:10:07","slug":"curiosidades-do-trafico-negreiro-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/03\/18\/curiosidades-do-trafico-negreiro-iv\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FICO NEGREIRO (IV)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:<\/p>\n<p>Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que \u201ca primeira provid\u00eancia consistia em retirar, com v\u00e1rios dias de anteced\u00eancia, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que n\u00e3o houvesse marcas vis\u00edveis na pele. A segunda era lav\u00e1-los com esponja e sab\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com \u00f3leo de dend\u00ea, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.<\/p>\n<p>O leil\u00e3o era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Por\u00e9m, haviam expedi\u00e7\u00f5es previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no s\u00e9culo XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisi\u00e7\u00e3o de um determinado n\u00famero de cativos, que eram desembarcados \u00e0s escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).<\/p>\n<p>Na maior parte, nos s\u00e9culos anteriores, as transa\u00e7\u00f5es eram feitas na base da oferta p\u00fablica, semelhante ao das feiras agropecu\u00e1rias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga. \u00a0Na chegada aos portos brasileiros, o capit\u00e3o do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alf\u00e2ndega e submeter-se \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Diversas epidemias ocorridas no Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regi\u00f5es da \u00c1frica onde havia doen\u00e7as, como var\u00edola, mal\u00e1ria ou febre amarela. Os leil\u00f5es come\u00e7avam pela \u201cprimeira escolha\u201d onde os compradores mais ricos tinham a prefer\u00eancia de arrematar os mais jovens, fortes e saud\u00e1veis, por pre\u00e7os mais elevados.<\/p>\n<p>Os mais idosos, doentes e portadores de alguma defici\u00eancia f\u00edsica eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquida\u00e7\u00e3o de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Sa\u00fade e do Santo Cristo.<\/p>\n<p>No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos m\u00ednimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar bra\u00e7os e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observa\u00e7\u00e3o mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>As senzalas brasileiras, na defini\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Cl\u00f3vis Moura, eram um conjunto habitacional de constru\u00e7\u00e3o r\u00fastica, sem janelas, constru\u00eddo de taipa e coberto de palha. Num espa\u00e7o curto, ficavam homens, mulheres e crian\u00e7as, na maioria sem v\u00ednculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.<\/p>\n<p>Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cub\u00edculos at\u00e9 de manh\u00e3, quando seriam libertados para o in\u00edcio do trabalho.\u00a0 Segundo historiadores, a defini\u00e7\u00e3o de senzala teria sido dada pelos pr\u00f3prios escravos, derivada do quimbundo, l\u00edngua de Angola.<\/p>\n<p>Torturas e atrocidades<\/p>\n<p>A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na Am\u00e9rica era de torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesu\u00edta Manuel Ribeiro Rocha, mission\u00e1rio na Bahia em meados do s\u00e9culo XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Rec\u00f4ncavo Baiano tinham o h\u00e1bito deliberado de surrar os escravos.<\/p>\n<p>O holand\u00eas Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horr\u00edveis, como de um negro que faminto furtou dois p\u00e3es de a\u00e7\u00facar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarr\u00e1-lo de bru\u00e7os a uma t\u00e1bua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holand\u00eas, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.<\/p>\n<p>Em 1700, a Justi\u00e7a mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutila\u00e7\u00f5es e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar den\u00fancias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na \u00e9poca, D. Jo\u00e3o de Lancastre, recusou acatar as determina\u00e7\u00f5es do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria \u00e0 quebra da disciplina na rela\u00e7\u00e3o entre escravos e senhores. As leis eram in\u00fateis num pa\u00eds ermo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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