{"id":6739,"date":"2022-03-11T22:12:09","date_gmt":"2022-03-12T01:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6739"},"modified":"2022-03-11T22:12:34","modified_gmt":"2022-03-12T01:12:34","slug":"curiosidades-do-trafico-negreiro-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/03\/11\/curiosidades-do-trafico-negreiro-iii\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FICO NEGREIRO (III)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:<\/p>\n<p>O padr\u00e3o das viagens foi mudado ao longo dos tempos, conforme demonstra o autor em sua obra. \u201cNo caso de Portugal, de in\u00edcio, todos os navios sa\u00edam de Lisboa ou de Algarve, recolhiam escravos na \u00c1frica e retornavam aos portos portugueses, onde os cativos eram redistribu\u00eddos para diferentes destinos, na Am\u00e9rica, nas Ilhas Atl\u00e2nticas (Madeira, Cabo Verde) ou mesmo na Europa\u201d.<\/p>\n<p>Aos poucos, o neg\u00f3cio foi se transferindo para o Brasil. A partir do s\u00e9culo XVIII, nove em cada dez expedi\u00e7\u00f5es negreiras eram organizadas para o Brasil. Uma s\u00e9rie hist\u00f3rica de viagens de navios atracados em Luanda (Angola), entre 1736 e 1770, mostra que 41% saiam do Rio de Janeiro, 22% de Pernambuco e a mesma percentagem da Bahia. Apenas 15% de Portugal.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, os brasileiros tinham dom\u00ednio quase absoluto sobre o tr\u00e1fico de escravos. O Rio de Janeiro, principal centro organizador, respondeu sozinho pelo transporte de 1,5 milh\u00e3o de escravos, seguido de Salvador com 1,4 milh\u00e3o, e Liverpool (Inglaterra) com 1,3 milh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO dom\u00ednio brasileiro era t\u00e3o acentuado que o arcebispo da Bahia, criado em 1776, tinha jurisdi\u00e7\u00e3o sobre as dioceses de Olinda, Rio de Janeiro e bispados do Congo, Angola e S\u00e3o Tom\u00e9, englobando a Costa da Mina (Gana).<\/p>\n<p>Haviam os roubos de cargas, os chamados piratas. O capit\u00e3o John Hawkins, s\u00f3cio da rainha Elizabeth I, roubou uma carga de seis embarca\u00e7\u00f5es portuguesas que estavam prontas para zarpar rumo a Cabo Verde. Na d\u00e9cada de 1820, os jornais do Rio de Janeiro registraram dezesseis ataques de piratas a navios negreiros, a maior parte deles praticados por cors\u00e1rios norte-americanos\u201d.<\/p>\n<p>Em 1660, foi criada em Londres, a Company of Royal Adventures of England Trading with Africa, renomeada depois para Royal African Company ( RAC), para ter o monop\u00f3lio do tr\u00e1fico negreiro por mil anos. Na lista de investidores inclu\u00eda quatro membros da fam\u00edlia real e da nobreza brit\u00e2nica, entre eles o pr\u00f3prio rei Charles II.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo sobre \u201cos lucros do tr\u00e1fico\u201d, Laurentino fala de como eram feitos os embarques e desembarques dos cativos. Diz que, enquanto os capturados aguardavam os embarques, os africanos estavam sujeitos a ser contaminados por uma infinidade de doen\u00e7as end\u00eamicas na costa da \u00c1frica, como mal\u00e1ria, febre amarela e a temida var\u00edola, sem contar a disenteria e at\u00e9 o escorbuto. Por isso, o objetivo do capit\u00e3o era fazer a carga e partir rapidamente.<\/p>\n<p>Conta o autor do livro que entre 1827 e 1830, navios brasileiros que faziam o tr\u00e1fico a partir do Rio de Janeiro, demoravam por volta de cinco meses na costa da \u00c1frica antes de completar a carga. No s\u00e9culo XVII, a m\u00e9dia para as embarca\u00e7\u00f5es da Companhia Holandesa das \u00cdndias Ocidentais era de cem dias. Quando tinha muita espera, capit\u00e3es compravam e vendiam escravos entre si.<\/p>\n<p>Ao longo da costa africana, os europeus constru\u00edram fortifica\u00e7\u00f5es, castelos e feitorias onde os escravos eram estocados nos por\u00f5es \u00e0 espera da chegada dos navios. Muitos desses fortes e castelos existem at\u00e9 hoje e se tornaram atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas em pa\u00edses como Senegal, Gana, Benin, Nig\u00e9ria e Angola. S\u00f3 em Gana s\u00e3o mais de sessenta dessas constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda sobre as empresas do tr\u00e1fico, Laurentino cita, al\u00e9m da famosa Royal African Company (RAC), as francesas Companhia do Senegal e da Guin\u00e9; a Companhia Holandesa das \u00cdndias Ocidentais e v\u00e1rias iniciativas da Coroa Portuguesa, como a Companhia Geral de Com\u00e9rcio do Brasil, fundada em 1649, e a Companhia de Com\u00e9rcio do Maranh\u00e3o, de 1682.<\/p>\n<p>Sobre a RAC brit\u00e2nica, a mando da empresa, o cors\u00e1rio Robert Holmes atacou as Ilhas de Cabo Verde e ocupou o Cape Coast Castle, no litoral de Gana, que se encontrava nas m\u00e3os dos holandeses. Depois cruzou o Atl\u00e2ntico e tomou a Ilha de Nova Amsterd\u00e3, situada na foz do rio Hudson, renomeada como Nova York, hoje a meca do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XVII, tr\u00eas quartos do faturamento da RAC vinham do fornecimento de cativos para as col\u00f4nias inglesas no Caribe e na Am\u00e9rica do Norte. Os brit\u00e2nicos se consolidaram como os maiores traficantes do s\u00e9culo seguinte, ou seja, XVIII.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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