{"id":6715,"date":"2022-03-04T23:40:21","date_gmt":"2022-03-05T02:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6715"},"modified":"2022-03-04T23:41:02","modified_gmt":"2022-03-05T02:41:02","slug":"curiosidades-do-trafico-negreiro-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/03\/04\/curiosidades-do-trafico-negreiro-ii\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES DO TR\u00c1FICO NEGREIRO (II)"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3453.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6716\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3453.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3453.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3453-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Aos reis e chefes locais do continente africano, cabia organizar as expedi\u00e7\u00f5es militares para captura dos escravos. Os chefes definiam os pre\u00e7os, controlavam a oferta, faziam alian\u00e7as e fechavam neg\u00f3cios com diferentes interlocutores europeus, em geral, rivais entre si, de modo a evitar o monop\u00f3lio de qualquer pa\u00eds ou grupo de compradores em seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>No vizinho porto de Ajud\u00e1, entre final do s\u00e9culo XVII e o come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII, traficantes europeus tinham de pagar o valor equivalente a 37 ou 38 escravos (cerca de 375 libras esterlinas) por navio negreiro em troca da autoriza\u00e7\u00e3o para ali comprar cativos. As despesas inclu\u00edam ainda impostos, pagamentos para altos funcion\u00e1rios reais e int\u00e9rpretes locais.<\/p>\n<p>Por fim, o pr\u00f3prio rei local tinha a prerrogativa de vender, em primeira m\u00e3o e a pre\u00e7os mais elevados, um determinado n\u00famero de escravos de sua propriedade. S\u00f3, ent\u00e3o, come\u00e7avam as outras negocia\u00e7\u00f5es. De acordo com o historiador, John Russell-Wood, \u201cos participantes africanos do tr\u00e1fico inclu\u00edam os pr\u00edncipes e os mercadores mais ricos e poderosos do continente. A elite africana estava profundamente envolvida com a venda de escravos\u201d.<\/p>\n<p>As d\u00edvidas assumidas em cada etapa dessa rede de suprimentos, segundo Laurentino, eram negociadas em letras de cr\u00e9dito (letras de c\u00e2mbio) a serem quitadas na venda dos escravos. Essas letras eram t\u00e3o comuns que em meados do s\u00e9culo XVIII eram utilizadas como moeda corrente em Benguela (Angola).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3454.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6717\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3454.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3454.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3454-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A ponta mais avan\u00e7ada dessa rede de neg\u00f3cios era o pr\u00f3prio capit\u00e3o do navio negreiro, respons\u00e1vel pela compra dos escravos na costa africana. Al\u00e9m de negociadores, os comandantes desempenhavam algumas fun\u00e7\u00f5es extras na cadeia do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Em Portugal e no Brasil, os investidores do tr\u00e1fico contratavam os capit\u00e3es para cobrar e negociar d\u00edvidas, ou processar na justi\u00e7a os caloteiros situados em regi\u00f5es remotas. Os capit\u00e3es, na verdade, eram donos de parcelas expressivas das cargas que transportavam, conforme assinalou o historiador Roquinaldo Ferreira.<\/p>\n<p>Havia prefer\u00eancia por escravos a partir de determinadas regi\u00f5es. Os angolanos, por exemplo, eram considerados d\u00f3ceis e bons trabalhadores nas lavouras e no servi\u00e7o dom\u00e9stico. Os oriundos da chamada Costa do Ouro, ou da Mina (Gana) eram bons na minera\u00e7\u00e3o. Da Guin\u00e9 chegavam africanos experientes nas atividades pecu\u00e1rias e de pastoreio.<\/p>\n<p>Segundo relato do padre jesu\u00edta Andr\u00e9 Jo\u00e3o Antonil, alguns eram arrogantes e rebeldes. Para o Brasil vieram os congos, ardas, minas, S\u00e3o Tom\u00e9, Angola, Cabo Verde e poucos de Mo\u00e7ambique. Os ardas e minas s\u00e3o robustos. Os de Cabo Verde e S\u00e3o Tom\u00e9, mais fracos. Os de Angola e do Congo, mais capazes de aprender of\u00edcios. Os mulatos s\u00e3o soberbos, viciosos e mais valentes.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3455.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6718\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3455.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3455.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_3455-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do tr\u00e1fico, os europeus tiveram que se adaptar a um padr\u00e3o monet\u00e1rio peculiar na \u00c1frica que usava conchas marinhas como moeda, em lugar de pe\u00e7as de metal ou papel. Uma dela era chamada de zimbo, coletada nas praias da Ilha de Luanda (Angola), sob regime de monop\u00f3lio do rei do Congo. Eram t\u00e3o populares que padres e bispos recebiam sal\u00e1rios e doa\u00e7\u00f5es em zimbos.<\/p>\n<p>Essas conchas eram tamb\u00e9m encontradas nas praias da Bahia. Eram exportadas pelos portos de Salvador e Rio de Janeiro e usadas nas compras de escravos africanos. Eram tantas que provocaram uma desvaloriza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outra moeda-concha muito valorizada na \u00c1frica eram os cauris, esp\u00e9cie de b\u00fazios origin\u00e1rios das Ilhas Maldivas, no Oceano \u00cdndico, mais apreciado no Golfo da Guin\u00e9 do que as similares angolanas. Eram comprados na \u00cdndia por holandeses, franceses, ingleses e portugueses que exportavam para a \u00c1frica.<\/p>\n<p>No auge do tr\u00e1fico, no s\u00e9culo XVIII, holandeses e ingleses importavam cerca de 40 milh\u00f5es de b\u00fazios cauris por ano. Juntos teriam movimentado quatro bilh\u00f5es de conchinhas entre 1700 a 1790. Por volta de 1650, em Alad\u00e1, se podia comprar uma galinha por cerca de dez conchas. Um s\u00e9culo mais tarde, a galinha valia trezentas conchas.<\/p>\n<p>Quase todos pa\u00edses europeus se envolveram no com\u00e9rcio de escravos, mas portugueses e brasileiros foram os maiores ao longo de quase quatro s\u00e9culos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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