{"id":6695,"date":"2022-02-25T22:50:52","date_gmt":"2022-02-26T01:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6695"},"modified":"2022-02-25T22:51:16","modified_gmt":"2022-02-26T01:51:16","slug":"curiosidades-no-trafico-de-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/02\/25\/curiosidades-no-trafico-de-escravos\/","title":{"rendered":"CURIOSIDADES NO TR\u00c1FICO DE ESCRAVOS"},"content":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Vamos aqui destacar algumas delas:<\/p>\n<p>No auge do tr\u00e1fico, por volta de 1780, os cativos eram capturados e comprados ao longo do litoral africano, numa extens\u00e3o de quase seis mil quil\u00f4metros de cumprimento por mil de largura, da atual fronteira da Maurit\u00e2nia com o Senegal at\u00e9 o sul de Angola. Nas d\u00e9cadas seguintes, essa faixa costeira se estenderia por outros quatro mil quil\u00f4metros, com a inclus\u00e3o de Mo\u00e7ambique no roteiro do Brasil.<\/p>\n<p>O banco de dados Slave Voyages registra que havia um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano. Vinte deles respondiam sozinhos por 93% de todo tr\u00e1fico no Oceano Atl\u00e2ntico. At\u00e9 in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, o tr\u00e1fico era o maior e o mais internacional de todos os neg\u00f3cios do mundo.<\/p>\n<p>A rede de interesses envolvia agentes comerciais e controles cont\u00e1beis das transa\u00e7\u00f5es, uma estrutura de fornecimento de \u00e1gua e comida, e at\u00e9 institui\u00e7\u00f5es religiosas para batizar e catequizar os escravos. Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de cr\u00e9dito, empresas de transportes que forneciam navios, apoio log\u00edstico, al\u00e9m de um complicado esquema burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Na economia escravagista, havia at\u00e9 um neg\u00f3cio paralelo t\u00e3o transgressor que nunca recebeu destaque na hist\u00f3ria, que era a reprodu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de cativos, com objetivo de vender as crian\u00e7as, como se comercializa animais. Ocorreram experi\u00eancias conduzidas em Portugal, Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas aconteceu no Pal\u00e1cio Ducal de Vila Vi\u00e7osa, sede dos duques de Bragan\u00e7a a partir do fim da Uni\u00e3o Ib\u00e9rica, em 1640, com a ascens\u00e3o de D. Jo\u00e3o IV ao poder. Havia um centro de reprodu\u00e7\u00e3o de escravos.<\/p>\n<p>Sobre as compara\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os, Laurentino cita que o tr\u00e1fico era uma atividade altamente organizada, sistem\u00e1tica, complexa e t\u00e3o arriscada quanto lucrativa para seus investidores. Alimentava uma vasta rede de compradores, vendedores e fornecedores de servi\u00e7os, produtos e suprimentos ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Entre as mercadorias brasileiras mais valorizadas no tr\u00e1fico estavam a cacha\u00e7a, tabaco, couro, cavalos, farinha de mandioca, milho, a\u00e7\u00facar, carnes e peixes secos e salgados, al\u00e9m de ouro e diamante contrabandeados. Um historiador calculou que a cacha\u00e7a foi respons\u00e1vel pela aquisi\u00e7\u00e3o de 25% de todos escravos traficados da \u00c1frica para o Brasil entre 1710 a 1830. Somados, a cacha\u00e7a e o tabaco, serviram para adquirir 48%, quase a metade de dois milh\u00f5es e 27 mil cativos que chegaram vivos ao Brasil entre 1701 e 1810, segundo Luiz Filipe de Alencastro.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a coroa portuguesa proibiu o uso da cacha\u00e7a na compra de escravos, para n\u00e3o prejudicar a concorr\u00eancia dos vinhos produzidos em Portugal. Nada adiantou porque passaram a fazer neg\u00f3cios clandestinos, principalmente em Angola.<\/p>\n<p>Uma devassa feita pelo governo portugu\u00eas descobriu que o governador de Angola, Jo\u00e3o da Silva e Sousa, era dono de quatro navios que levavam escravos de Angola para o Brasil e, na volta, iam carregados com pipas de cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio negreiro chegou a tal ponto que os traficantes da Bahia tinham sua pr\u00f3pria irmandade e seu santo de devo\u00e7\u00e3o, que era S\u00e3o Jos\u00e9, cuja imagem podia ser vista na pequena igreja de Santo Ant\u00f4nio da Barra, em Salvador. Vamos ter mais curiosidades nas pr\u00f3ximas postagens da Coluna de Livros.<\/p>\n<p>,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de Laurentino Gomes, \u201cESCRAVID\u00c3O\u201d mostra muitas curiosidades do tr\u00e1fico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravid\u00e3o no Brasil. 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