{"id":669,"date":"2014-11-26T20:43:11","date_gmt":"2014-11-26T23:43:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=669"},"modified":"2014-11-26T20:43:17","modified_gmt":"2014-11-26T23:43:17","slug":"itamar-indica-e-comenta-orlando-senna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/11\/26\/itamar-indica-e-comenta-orlando-senna\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA E COMENTA ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p><strong>SOCIEDADE DO ESPET\u00c1CULO<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de sociedade do espet\u00e1culo apareceu pela primeira vez em 1967, quando o anarquista franc\u00eas Guy Debord publicou seu livro\u00a0<em>La soci\u00e9t\u00e9 du spectacle<\/em>, estudo cr\u00edtico sobre capitalismo, consumo e sociedade. Temas como a desilus\u00e3o capitalista, nega\u00e7\u00e3o da vida real e forma-mercadoria est\u00e3o nesse livro, um dos textos paradigm\u00e1ticos das manifesta\u00e7\u00f5es de Maio de 68 em Paris. Pode-se dizer que \u00e9 um estudo, mais que pioneiro, prof\u00e9tico. O comportamento empresarial, pol\u00edtico e psicossocial que determina o que conhecemos hoje como sociedade do espet\u00e1culo s\u00f3 teve in\u00edcio consciente a partir dos anos 1970, desenvolvendo-se na d\u00e9cada seguinte e fixando seus padr\u00f5es nas d\u00e9cadas 1990 e 2000.<\/p>\n<p>Na base dessa compreens\u00e3o e dessa pr\u00e1tica do ser para ser visto e n\u00e3o do ser por existir est\u00e1 o simulacro, a imagem e\/ou o som da coisa no lugar da coisa em si, a sacraliza\u00e7\u00e3o da imita\u00e7\u00e3o, a virtualidade, a exist\u00eancia passada a limpo atrav\u00e9s das m\u00e1quinas, a troca do sangue-suor-e-l\u00e1grimas da vida vivida pela magia das fic\u00e7\u00f5es, das telinhas e tel\u00f5es. A meta mais perseguida pelas novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a realidade virtual, a cria\u00e7\u00e3o de ambientes cibern\u00e9ticos \u201crealistas\u201d (com aspas porque na verdade s\u00e3o ilus\u00f3rios) onde as pessoas podem interagir com as coisas, e no futuro com outras pessoas, utilizando todos os sentidos. Na pr\u00e1tica temos a populariza\u00e7\u00e3o do 3D (terceira dimens\u00e3o), o sexo virtual, o anonimato nas redes sociais onde voc\u00ea pode se mostrar ao mundo com a cara que desejar, postando outras caras ou modificando, embelezando, a pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Uma vertente importante no contexto espetacular \u00e9 a cultura do narcisismo, desde as transforma\u00e7\u00f5es do corpo nas m\u00e1quinas, nas telas (<em>fotoshop<\/em>), at\u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do corpo real: a onda mundial das tatuagens e\u00a0<em>piercings<\/em>, a radicaliza\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>body modification<\/em>\u00a0(modifica\u00e7\u00e3o corporal), dos peitos e bundas siliconados, da implanta\u00e7\u00e3o de membranas entre os dedos ou de chifres de pl\u00e1stico na cabe\u00e7a. De maneira geral, a medicina n\u00e3o \u00e9 contra essa pr\u00e1tica, a cada dia aumenta o n\u00famero de m\u00e9dicos dedicados a essas cirurgias duplamente invasivas (na mat\u00e9ria da carne e no imaterial da alma), essas altera\u00e7\u00f5es da natureza. Claro que o ser humano sempre fez pequenas altera\u00e7\u00f5es corporais, vide as escarifica\u00e7\u00f5es dos povos africanos, as tatuagens tribais e a maquiagem. Mas de um costume culturalmente restrito, arcaico e grupal, de car\u00e1ter defensivo (assustar animais e pessoas hostis), passamos a uma moda universal e vaidosa, no sentido do destaque pessoal.<\/p>\n<p><!--more-->Outra vertente \u00e9 a espetaculariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, aspecto que me levou a escrever essas mal tra\u00e7adas, ainda impregnado pela trucul\u00eancia da recente campanha eleitoral brasileira, onde os candidatos atuaram como personagens de uma pe\u00e7a indecisa entre o\u00a0<em>Sonho de uma noite de ver\u00e3o\u00a0<\/em>de Shakespeare e\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=A_Resist%C3%ADvel_Ascens%C3%A3o_de_Arturo_Ui&amp;action=edit&amp;redlink=1\"><em>A resist\u00edvel ascens\u00e3o de Arturo Ui<\/em><\/a>\u00a0de Brecht. Tudo bem ensaiado e sincronizado por um enxame de diretores, redatores, figurinistas, cenaristas, maquiadores e cabeleleiros. Mas a imagem n\u00e3o \u00e9 tudo, existe tamb\u00e9m a fala e a\u00ed o bicho pegou. Quando ouvi um senador, l\u00edder do partido derrotado, esbravejar que n\u00e3o queria di\u00e1logo (em resposta a um convite da candidata eleita) n\u00e3o acreditei, inclusive porque nem o orador acreditava no que dizia, j\u00e1 que \u00e9 um pol\u00edtico e a sustenta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da pol\u00edtica \u00e9 o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Na sociedade do espet\u00e1culo a verdade n\u00e3o tem import\u00e2ncia, o que vale s\u00e3o as vers\u00f5es, as vis\u00f5es que podem ser criadas e recriadas. No centro desse holocausto da veracidade, ponteiam e brilham as grandes corpora\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, as que t\u00eam maior interesse e maiores ganhos com as simula\u00e7\u00f5es. O melhor exemplo recente tamb\u00e9m vem da campanha mencionada, quando uma revista estampou na capa, na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o, que a presidente e candidata \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula eram coniventes com a corrup\u00e7\u00e3o. A acusa\u00e7\u00e3o, sem provas, baseava-se em uma frase de um delator premiado (que delata para ter sua pena reduzida). A revista disse que estava praticando a liberdade de express\u00e3o. Ou seja, a sociedade do espet\u00e1culo est\u00e1 incluindo, cada vez mais, a mentira como manifesta\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o. Que tempos vir\u00e3o?<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio;<\/p>\n<p>Em que pese a credibilidade de Orlando, pe\u00e7o permiss\u00e3o e ouso ponderar: nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, uma das mais espetaculosas de quantas j\u00e1 realizadas no Brasil, de meter vergonha em conservadores e revolucion\u00e1rios (se \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel), assistimos boque abertos, nos programas eleitorais exibidos na TV, um jogo de marketing e dos marqueteiros exaltando os feitos extraordin\u00e1rios de cada um dos personagens, dos candidatos, uma ode ao individualismo, um verdadeiro culto \u00e0s personalidades, um espet\u00e1culo de extremo mal gosto.<\/p>\n<p>No final do \u00faltimo par\u00e1grafo Orlando fala de acusa\u00e7\u00f5es, sem provas \u00e0 Candidata Dilma e ao expreseidente Lula, por parte de uma revista, concluindo, \u201cOu seja, a sociedade do espet\u00e1culo est\u00e1 incluindo, cada vez mais, a mentira como manifesta\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o\u201d. No meu entendimento a revista apenas cumpriu, ap\u00f3s a atividade investigativa, outro dever garantido aos \u00f3rg\u00e3os de imprensa, o de informar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre os acontecimentos, independente de qual seja o momento, em tempos de elei\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. Acho mais grave ainda, o fato ocorrido nas hostes do Governo Federal, quando o IBGE deixou de informar dados importantes a cerca da Economia brasileira antes das elei\u00e7\u00f5es, passando a faz\u00ea-los ap\u00f3s a apura\u00e7\u00e3o do resultado do pleito eleitoral. Assim, concordo com Orlando quando pergunta \u201cQue temos vir\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Bras\u00edlia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOCIEDADE DO ESPET\u00c1CULO O conceito de sociedade do espet\u00e1culo apareceu pela primeira vez em 1967, quando o anarquista franc\u00eas Guy Debord publicou seu livro\u00a0La soci\u00e9t\u00e9 du spectacle, estudo cr\u00edtico sobre capitalismo, consumo e sociedade. 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