{"id":6644,"date":"2022-02-05T00:54:52","date_gmt":"2022-02-05T03:54:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6644"},"modified":"2022-02-05T00:55:23","modified_gmt":"2022-02-05T03:55:23","slug":"a-cicatriz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/02\/05\/a-cicatriz\/","title":{"rendered":"&#8220;A CICATRIZ&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO tema da escravid\u00e3o \u00e9 um tabu no continente africano porque \u00e9 evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcan\u00e7asse tanta gente \u2013 disse o arquiteto baiano Zulu Ara\u00fajo, ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares.<\/p>\n<p>Este depoimento est\u00e1 em \u201cEscravid\u00e3o\u201d (primeiro volume), livro de Laurentino Gomes. O cap\u00edtulo \u201cA Cicatriz\u201d \u00e9 um dos mais impactantes onde escancara a escravid\u00e3o africana antes e depois da chegada dos europeus ao continente. Na abertura, o autor levanta a quest\u00e3o da \u201cd\u00edvida social\u201d onde muitos argumentam que a \u201cd\u00edvida\u201d estaria anulada pelo fato dos africanos serem correspons\u00e1veis pelo regime escravagista.<\/p>\n<p>Laurentino destaca que os debates nesse sentido podem ser politicamente perigosos e precisam ser analisados \u00e0 luz da hist\u00f3ria. \u201cHavia, de fato, um grande mercado de escravos na \u00c1frica antes da chegada dos europeus nos s\u00e9culos XV e XVI. Dele participaram reis, chefes e oligarquias locais poderosas, que continuaram a se beneficiar do tr\u00e1fico de cativos para a Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>Com os europeus, esse tr\u00e1fico passou a ser mais intenso entre o final dos s\u00e9culos XVII e in\u00edcio do XVIII quando a venda de escravos passou a ser a principal pauta de exporta\u00e7\u00e3o em detrimento do com\u00e9rcio do ouro, do marfim, da pimenta, algod\u00e3o e outros produtos. Em troca, os reinos e chefes recebia armas, muni\u00e7\u00f5es para guerrear e bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3432.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6645\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3432.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3432.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3432-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>COMPRA ENTRE FORNECEDORES<\/p>\n<p>Com medo das doen\u00e7as tropicas, raramente os europeus se adentravam pelo interior do continente. Preferiam comprar os cativos que eram oferecidos pelos fornecedores em fortifica\u00e7\u00f5es, feitorias e entrepostos. Uma das exce\u00e7\u00f5es foi Angola, maior de todos os territ\u00f3rios escravagistas da \u00c1frica onde os portugueses procuraram controlar todos os pontos do com\u00e9rcio, da captura ao embarque nos navios.<\/p>\n<p>\u201cSeria, portanto, correto afirmar que africanos escravizaram os pr\u00f3prios africanos ou que negros escravizaram negros\u201d? Laurentino diz que sim, como chineses escravizaram chineses e brancos escravizaram brancos na Europa e na \u00c1sia. Segundo o autor, at\u00e9 o final do s\u00e9culo XVII, a maioria dos cativos no mundo todo era branca.<\/p>\n<p>\u201cA \u00c1frica sempre foi um continente de grande diversidade e riqueza cultural, habitado por diferentes povos, etnias, na\u00e7\u00f5es, linguagens e reinos envolvidos em guerras e disputas territoriais. Como em qualquer outro lugar, na \u00c1frica \u201co escravo era sempre o outro, o diferente, o estrangeiro ou o alien\u00edgena\u201d.<\/p>\n<p>O pesquisador cita como exemplo que o habitante do Imp\u00e9rio Oi\u00f3 (Nig\u00e9ria), escravizado pelos rivais do Reino do Daom\u00e9, era t\u00e3o estrangeiro na \u00c1frica quanto o pr\u00f3prio escravo daometano seria ao chegar ao Brasil. \u201cEmbora a escravid\u00e3o j\u00e1 existisse na \u00c1frica antes dos portugueses, foi a alta demanda dos europeus por m\u00e3o de obra cativa que possibilitou ao neg\u00f3cio negreiro no Atl\u00e2ntico atingir propor\u00e7\u00f5es significativas\u201d Os europeus estimularam a captura de escravos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3433.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6646\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3433.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3433.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3433-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os historiadores confirmam que os chefes africanos participaram ativamente do com\u00e9rcio, capturando cativos nas regi\u00f5es. H\u00e1 s\u00e9culos, a escravid\u00e3o era uma pr\u00e1tica corrente nas sociedades africanas. Escravos podiam ser encontrados em todas as partes da \u00c1frica, desempenhando todos tipos de atividades.<\/p>\n<p>Para sustentar essa tese, Laurentino cita o historiador John Thornton: \u201cQuando os europeus chegaram \u00e0 \u00c1frica e se ofereceram para compr\u00e1-los, a oferta era aceita. Os cativos n\u00e3o apenas eram numerosos como o mercado j\u00e1 estava muito bem organizado\u201d.<\/p>\n<p>Outro historiador Paul Lovejov, calculou que apenas 45% dos africanos escravizados foram vendidos ou embarcados para outras regi\u00f5es fora do continente. A outra parte permaneceu como cativos na pr\u00f3pria \u00c1frica. No total, seriam mais de 30 milh\u00f5es de escravos, incluindo os que ficaram e os que partiram.<\/p>\n<p>Alberto da Costa e Silva, estudioso no assunto, ressalta que o escravo continuava escravo, mesmo depois de morto. Os xerbros (Serra Leoa) enterrava o cativo com trapos para demonstrar que nada possu\u00eda. As m\u00e3os e os p\u00e9s eram atados por uma corda, cuja ponta deveria sair da cova e amarrar-se a um mour\u00e3o. Antes de sepult\u00e1-lo, o dono lhe dava uma chibatada, para deixar claro que continuava ser senhor do seu esp\u00edrito, e que, no al\u00e9m, deveria ser escravo de seus antepassados.<\/p>\n<p>De acordo com Laurentino, estima-se que, no s\u00e9culo XVIII (auge do tr\u00e1fico) houvesse tantos escravos na \u00c1frica quanto na Am\u00e9rica, entre 3 a 5 milh\u00f5es em cada continente. No s\u00e9culo XIX (redu\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico \u2013 movimentos abolicionistas), a escravid\u00e3o na \u00c1frica aumentava, devido a maior oferta de cativos e queda nos pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Por volta de 1850 (Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s \u2013 fim do tr\u00e1fico no Brasil) havia, na \u00c1frica, mais escravos do que em toda Am\u00e9rica. O fim do tr\u00e1fico negreiro no Atl\u00e2ntico n\u00e3o significou o fim da escravid\u00e3o africana, segundo historiadores. Ter muito escravos na \u00c1frica era a melhor forma de enriquecer e adquirir poder. Na Europa da nobreza, valia a propriedade do solo, o latif\u00fandio. No Brasil, o escravo era uma m\u00e1quina de trabalho para a economia. <a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3434.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6647\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3434.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3434.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_3434-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>OS SACRIF\u00cdCIOS HUMANOS<\/p>\n<p>Uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder na \u00c1frica estava nos sacrif\u00edcios humanos, como nos funerais dos reis, em ritos para aplacar a ira dos deuses, cerim\u00f4nias para pedir chuvas e boas colheitas ou para levar mensagens aos antepassados. Em muitas regi\u00f5es, escravos eram sacrificados e enterrados com o seu dono. Entre os iorub\u00e1s (Nig\u00e9ria) havia o h\u00e1bito de sacrificar um escravo por ano como oferenda ao orix\u00e1 Ogum.<\/p>\n<p>\u201cNo s\u00e9culo XVII, o holand\u00eas Pieter de Moraes escreveu que, \u201cna ocasi\u00e3o da morte de um rei na Costa do Ouro (Gana), cada um dos nobres oferecia um escravo para acompanh\u00e1-lo ao seu t\u00famulo\u201d. Antes de descer com o soberano morto, essas pessoas eram decapitadas e tinham seus corpos salpicados de sangue. As cabe\u00e7as ficavam expostas ao redor da cova.<\/p>\n<p>Entre os meios de produ\u00e7\u00e3o de escravos na \u00c1frica, destacavam a guerra, o sequestro ou a captura. Haviam ainda os processos judiciais, em que os condenados de roubo, adult\u00e9rio, pr\u00e1tica de feiti\u00e7aria e outros delitos se tornavam cativos para o resto da vida &#8211; descreve Laurentino.<\/p>\n<p>No caso de dificuldades financeiras, os chamados pe\u00f5es na \u00c1frica (tropas de infantaria na Europa, pedestres em Portugal e trabalhador tempor\u00e1rio no Brasil) podiam se oferecer como escravos tempor\u00e1rios em troca de ajuda e apoio material. Quando em extrema necessidade ou fome, as fam\u00edlias vendiam seus filhos ou parentes como escravos.<\/p>\n<p>Uma das alternativas era a venda como pe\u00f5es, e a liberdade s\u00f3 seria resgatada mais tarde em troca do pagamento das obriga\u00e7\u00f5es. Na impossibilidade de pagar a d\u00edvida, o pe\u00e3o poderia ser transformado em escravo para o resto da vida.<\/p>\n<p>O historiador Alberto da Costa e Silva relata que, em algumas sociedades cada vez que findava um rei ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas m\u00e3es, mulheres, filhos e partid\u00e1rios costumavam ser mortos ou ter seus membros amputados e at\u00e9 os olhos vazados.<\/p>\n<p>Todas essas formas de escravid\u00e3o antes da chegada dos europeus aumentaram em paralelo \u00e0 demanda por cativos na Am\u00e9rica. A Justi\u00e7a preferia condenar o criminoso \u00e0 escravid\u00e3o porque rendia dinheiro, do que sentenci\u00e1-lo \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Com a chegada dos portugueses, o com\u00e9rcio de escravos passou a superar as trocas regionais. Os europeus estimularam a captura e a venda de escravos para transform\u00e1-los em um neg\u00f3cio global, \u201cnuma escala at\u00e9 ent\u00e3o nunca vista\u201d, envolvendo a \u00c1frica, Europa, Am\u00e9rica e parte da \u00c1sia.<\/p>\n<p>\u201cA partir de 1650, a venda de seres humanos se tornou a principal atividade econ\u00f4mica na costa da \u00c1frica. No final do s\u00e9culo XVIII j\u00e1 respondia por 90% da pauta de exporta\u00e7\u00f5es do continente, nos c\u00e1lculos do historiador nigeriano Joseph Inikori.<\/p>\n<p>A implos\u00e3o, segundo Laurentino, dos antigos mercados regionais seguiu-se um ciclo intermin\u00e1vel de conflitos, guerras end\u00eamicas e desordens sociais, estimulados pela importa\u00e7\u00e3o de armas de fogo, muni\u00e7\u00f5es e bebidas alco\u00f3licas. As armas alimentavam as guerras que, por sua vez, sustentavam a captura e a escravid\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas vendidas para os navios negreiros.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cA Cicatriz\u201d, o autor fala dos reinos africanos rivais que eram os maiores fornecedores de escravos\u00a0 na metade do s\u00e9culo XVII, como os de Hueda e Alad\u00e1, situados na atual fronteira do Benin com a Nig\u00e9ria. O reino do Daom\u00e9 consolidou-se como principal na virada do mesmo s\u00e9culo para o XVIII. Uma das consequ\u00eancias disso foi a redu\u00e7\u00e3o populacional na \u00c1frica, compensada com a poligamia existente em algumas regi\u00f5es, como Angola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO tema da escravid\u00e3o \u00e9 um tabu no continente africano porque \u00e9 evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcan\u00e7asse tanta gente \u2013 disse o arquiteto baiano Zulu Ara\u00fajo, ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares. 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