{"id":6599,"date":"2022-01-21T22:21:43","date_gmt":"2022-01-22T01:21:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6599"},"modified":"2022-01-21T22:22:12","modified_gmt":"2022-01-22T01:22:12","slug":"uma-semana-polemica-de-ideias-futuristas-que-terminou-em-racha-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/01\/21\/uma-semana-polemica-de-ideias-futuristas-que-terminou-em-racha-final\/","title":{"rendered":"UMA SEMANA POL\u00caMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (Final)"},"content":{"rendered":"<p>\u201cN\u00d3S N\u00c3O SAB\u00cdAMOS O QUE QUER\u00cdAMOS, MAS SAB\u00cdAMOS O QUE N\u00c3O QUER\u00cdAMOS\u201d \u2013 M\u00e1rio Raul Morais de Andrade, a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um car\u00e1ter revolucion\u00e1rio na d\u00e9cada de 20, com uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais. No dizer de Menotti del Picchia, \u201chouve quem cantasse como galo e latisse como cachorro\u201d. \u201cO que urge fazer: Enforcar o \u00faltimo rei com as tripas do \u00faltimo frade\u201d- charge em \u201cA Lanterna\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu insulto o burgu\u00eas!&#8230; Eu insulto as aristocracias cautelosas&#8230; Morte \u00e0 gordura&#8230; Morte ao burgu\u00eas mensal&#8230; Mas n\u00f3s morremos de fome! &#8230; \u00d3dio e insulto! \u00d3dio e raiva! \u00d3dio e mais \u00f3dio\u201d&#8230; \u2013 trechos do poema \u201cODE AO BURGU\u00caS\u201d, de M\u00e1rio de Andrade.<\/p>\n<p>\u201cEstou farto do lirismo comedido\/do lirismo bem comportado\/do lirismo funcion\u00e1rio p\u00fablico com livro de ponto expediente protocolo e manifesta\u00e7\u00f5es de acordo com o senhor diretor&#8230;\/ Abaixo os puristas&#8230;\/ Quero antes o lirismo dos loucos\/ O lirismo dos b\u00eabados\/ O lirismo dif\u00edcil e pungente dos b\u00eabados\/ O lirismo dos clowns de Shakespeare\/ &#8211; N\u00e3o quero mais saber do lirismo que n\u00e3o \u00e9 liberta\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 \u201cPO\u00c9TICA\u201d, de Manuel Bandeira.<\/p>\n<p>Em \u201cOS SAPOS\u201d, o mesmo Bandeira diz: \u201cEu ronco que aterra\/ Berra o sapo-boi:\/- \u201cMeu pai foi \u00e0 guerra\u201d\/ \u201cN\u00e3o foi\u201d\/ &#8211; \u201cFoi\u201d\/ &#8211; \u201cN\u00e3o foi\u201d. O sapo tanoeiro,\/Parnasiano aguado, diz: \u201cMeu cancioneiro\/ \u00c9 bem martelado&#8230; Urra o sapo-boi:\/ \u201cMeu pai foi rei\u201d\/ &#8211;\u00a0 \u201cFoi!\u201d \u2013 \u201cN\u00e3o foi\u201d&#8230;\u00a0 Poema lido durante o evento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Semana, foram registrados outros fatos importante da nossa hist\u00f3ria, como a funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta do Forte de Copacabana e o Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p>CURIOSIDADES DA SEMANA: Vila-Lobos fez um concerto de casaca e chinelos. M\u00e1rio de Andrade realizou uma breve palestra nas escadarias do Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo sob vaias e xingamentos. Na pol\u00edtica, existia entre os participantes uma mistura de esquerda e direita, como de Pl\u00ednio Salgado que mais tarde se tornou l\u00edder do integralismo fascista. Mesmo sob protestos contra os organizadores, a pianista Guiomar de Morais fez sua apresenta\u00e7\u00e3o. Monteiro Lobato classificou os quadros de Anita Malfatti de caricaturas, de obras distorcidas, sem muita import\u00e2ncia para seu talento.<\/p>\n<p>RUMO A UMA SEMANA DE MUITO BARULHO<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3395.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6600\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3395.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3395.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3395-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Onze anos antes, em 1911, circulou o seman\u00e1rio \u201cO Piralho\u201d (portugu\u00eas macarr\u00f4nico), de Oswald (Di Cavalcante era o desenhista), com um tom humor\u00edstico, que funcionou at\u00e9 1917.<\/p>\n<p>Em 1912, Oswald retornou da Europa com as ideias futuristas de Fillipo Tommaso Marinetti. Nesse ano, escreveu o poema \u201c\u00daltimo Passeio de um Tuberculoso pela Cidade de Bonde\u201d &#8211; versos livres de esc\u00e1rnio ao passado.<\/p>\n<p>Em 1913, o europeu Lasar Segal realizou a primeira mostra expressionista no Brasil, sem sucesso por causa das cr\u00edticas dos conservadores. Monteiro Lobato j\u00e1 achava aquilo horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Em 1914 aconteceu a primeira exposi\u00e7\u00e3o de Anita Malfatti quando da sua volta dos estudos na Alemanha, na Escola de Belas Artes de Berlim. Ela tamb\u00e9m esteve nos Estados Unidos. No ano seguinte ocorreu o modernismo, em Portugal, a partir da revista \u201cOrpheu\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3396.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6601\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3396.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3396.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3396-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a>Em 1916, o sempre irrequieto Oswald escreve \u201cMem\u00f3rias Sentimentais de Jo\u00e3o Miramar\u201d. No ano seguinte, o mesmo conhece M\u00e1rio de Andrade, no Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico e Musical, em S\u00e3o Paulo, onde ele proferiu um discurso, condenando as antigas estruturas. Oswald trabalhava como rep\u00f3rter no \u201cJornal do Com\u00e9rcio\u201d e quando terminou o pronunciamento, disputou no tapa a c\u00f3pia do escrito com outro colega do \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d. Oswald \u00a0\u00a0levou a melhor.<\/p>\n<p>Nesse mesmo ano, M\u00e1rio publicou o livro \u201cH\u00e1 uma Gota de Sangue em Cada Poema\u201d, em que descrevia os horrores da I Guerra Mundial. Menotti del Picchia lan\u00e7a o poema \u201cJuca Mulato\u201d e Guilherme de Almeida \u201cN\u00f3s\u201d. Numa transi\u00e7\u00e3o de estilos, Manuel Bandeira divulga seu livro \u201cAs Cinzas das Horas\u201d. Cassiano Ricardo, \u201cA Frauta de P\u00e3\u201d. Di Cavalcante realiza, em S\u00e3o Paulo, sua exposi\u00e7\u00e3o de caricaturas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3402.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6602\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3402.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3402.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3402-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1917, em 12 de dezembro, Anita Malfatti inaugura, em S\u00e3o Paulo, sua exposi\u00e7\u00e3o de 53 trabalhos, inclusive com suas famosas telas do \u201cHomem Amarelo\u201d, \u201cA Estudante Russa\u201d e o \u201cJapon\u00eas\u201d, as quais criaram grande pol\u00eamica no meio art\u00edstico, tanto que o jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d publicou em sua edi\u00e7\u00e3o de 20 de dezembro, o artigo \u201cParan\u00f3ia ou Manifesta\u00e7\u00e3o\u201d?, assinado por Monteiro Lobato. Foi o mais importante evento cultural do ano.<\/p>\n<p>Lobato chama a mostra de extravag\u00e2ncias de Picasso. Diz que Anita possui qualidades e talento, mas que suas obras s\u00e3o distorcidas pela teoria da arte moderna. No texto classificou seu trabalho de caricatura, numa mistura de futurismo, impressionismo e cubismo. Na verdade, ele cometeu um equ\u00edvoco entre o expressionismo e o impressionismo.<\/p>\n<p>Seu coment\u00e1rio provocou um esc\u00e2ndalo no meio art\u00edstico e fez com que M\u00e1rio, Oswald, Di Cavalcante, Guilherme, Menotti e outros formassem um grupo coeso em defesa de Anita Malfatti.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3391.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6603\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3391.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3391.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3391-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1918, Guilherme de Almeida escreve \u201cMessidor\u201d e Manuel Bandeira aparece com \u201cCarnaval\u201d, muito aceito pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em 1920, o grupo descobre um jovem escultor de Roma, Victor Brecheret, que apresentou a maquete do \u201cMonumento \u00e0s Bandeiras\u201d. Segundo M\u00e1rio, ele foi o criador do estado de esp\u00edrito dos modernistas.<\/p>\n<p>Em 1921, o grupo mais unido ideologicamente lan\u00e7ou, em 9 de janeiro, o \u201cManifesto do Trianon\u201d em homenagem a Menotti del Picchia quando lan\u00e7ou o livro \u201cAs M\u00e1scaras\u201d. Na ocasi\u00e3o, Oswald aproveitou para criticar os passadistas e defender a arte moderna, chamada de futurista. Conclamou o pessoal para novas lutas.<\/p>\n<p>Em agosto, M\u00e1rio faz sete artigos \u201cMestres do Passado\u201d, chamando os parnasianos de malditos pela forma como escrevia. Em novembro ocorreu a exposi\u00e7\u00e3o \u201cFantoches da Meia Noite\u201d, de Di Cavalcante, e nela conhece Gra\u00e7a Aranha que retornava da Europa. Na conversa entre os dois nasce a ideia da Semana da Arte Moderna de 1922.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3392.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6604\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3392.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3392.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3392-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nas edi\u00e7\u00f5es de 29 de janeiro de 1922, o \u201c O Correio\u201d e \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d noticiam a organiza\u00e7\u00e3o do evento. O historiador do modernismo, M\u00e1rio da Silva Brito chega a citar que a iniciativa do movimento se deveu a Gra\u00e7a Aranha.<\/p>\n<p>OS ESPET\u00c1CULOS E AS DIVERG\u00caNCIAS<\/p>\n<p>Muitos outros jornais divulgaram o evento, anunciando que o primeiro espet\u00e1culo da Semana de Arte Moderna estava previsto para 13 de fevereiro. Gra\u00e7a Aranha se incumbiu de proferir a confer\u00eancia \u201cA Emo\u00e7\u00e3o Est\u00e9tica na Arte Moderna\u201d onde fala de paisagens invertidas e interpreta\u00e7\u00f5es desvairadas. De acordo com cr\u00edticos, a palestra de Gra\u00e7a foi confusa e declarat\u00f3ria, cujo p\u00fablico pouco entendeu.<\/p>\n<p>Nesse dia, as pinturas e esculturas expostas provocaram espanto e rep\u00fadio do p\u00fablico visitante, no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. Os artistas mais visados foram Victor Brecheret e Anita Malfatti, mas houve irrita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contra a literatura.<\/p>\n<p>Ainda nesse espet\u00e1culo houve apresenta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica de Ernani Braga que fez uma s\u00e1tira a Chopin. Por causa disso, a pianista Guiomar Novaes protestou contra os organizadores. Na mesma noitada houve uma palestra de Ronald de Carvalho sobre \u201cA Pintura e a Escultura Moderna no Brasil\u201d, tr\u00eas solos de piano de Ernani Braga, tr\u00eas dan\u00e7as africanas de Vila-Lobos e poesias de Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida. Nesse clima de irrever\u00eancia, ocorreram protestos contra a Semana.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3394.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6605\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3394.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3394.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3394-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No segundo espet\u00e1culo, muita algazarra no dia 15 de fevereiro. Mesmo com uma carta de rep\u00fadio ao evento, publicada em \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, a pianista Guiomar Novaes fez sua apresenta\u00e7\u00e3o. Menotti del Picchia falou sobre \u201cArte e Est\u00e9tica\u201d, com ilustra\u00e7\u00e3o de textos de Oswald de Andrade, M\u00e1rio de Andrade e Pl\u00ednio Salgado que anos mais tarde aderiu ao ver-amarelismo integralista. A cada apresenta\u00e7\u00e3o, muitas vaias e latidos. Ronald de Carvalho leu o poema \u201cSapos\u201d, de Manuel Bandeira, numa cr\u00edtica ao estilo parnasiano.<\/p>\n<p>Muitas vaias, latidos e xingamentos nas apresenta\u00e7\u00f5es, mas, mesmo assim, M\u00e1rio de Andrade, das escadarias do teatro, fez um discurso e leu trechos de \u201cA Escrava que N\u00e3o \u00e9 Isaura\u201d. Numa breve palestra, destacou a express\u00e3o das artes pl\u00e1sticas, justificando as cria\u00e7\u00f5es dos pintores futuristas.<\/p>\n<p>Vinte anos mais tarde, em 1942, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, M\u00e1rio confessa em entrevista que foi muita coragem fazer aquele pronunciamento nas escadarias do teatro porque s\u00f3 recebeu ofensas e protestos. No entanto, destaca que o movimento n\u00e3o foi apenas art\u00edstico, como tamb\u00e9m pol\u00edtico e social.<\/p>\n<p>Menotti comentou que os conservadores iam enforcar os modernistas com vaias. \u201cNossa est\u00e9tica \u00e9 de rea\u00e7\u00e3o. Aceitamos o termo guerra por ser um desafio. Abomino a escola de Marinetti com seu dogmatismo e liturgia. No Brasil n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o l\u00f3gica e social para o futurismo ortodoxo\u201d. Em um trecho do seu discurso, exalta o novo. \u201cQueremos idealismo, luz, ar, e que o rufo de um autom\u00f3vel espante da poesia o \u00faltimo deus hom\u00e9rico que ficou anacronicamente a dormir&#8230;\u201d Disse que o grupo pretendia fazer uma arte genuinamente brasileira. No entanto, houve rea\u00e7\u00e3o quando revelou a prosa e a poesia modernas declamadas pelos seus autores.<\/p>\n<p>No dia 17 ocorreu o terceiro espet\u00e1culo da Semana, com m\u00fasicas de Vila-Lobos em trajes de casaca e chinelos. Houve pouca lota\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. Mais vaias pela sua irrever\u00eancia, mas ele explicou que o uso dos chinelos foi porque estava com um calo nos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Durante o evento, Oswald leu \u201cOs Condenados\u201d e Agenor Barbosa foi aplaudido com \u201cos P\u00e1ssaros de A\u00e7o\u201d. Nem todos escritores tiveram coragem de enfrentar o barulhento palco do Teatro Municipal.<\/p>\n<p>Com foco na realidade brasileira, finalmente foi realizada a Semana que renovava a mentalidade nacional e brigava pela autonomia art\u00edstica e liter\u00e1ria. A Semana foi patrocinada pelo setor financeiro, com maior cobertura do \u201cCorreio Paulistano\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3397.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6606\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3397.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3397.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3397-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>REA\u00c7\u00d5ES DOS JORNAIS<\/p>\n<p>Sobre as atividades, a \u201cFolha da Noite\u201d, de S\u00e3o Paulo, em sua edi\u00e7\u00e3o do dia 16\/02, trouxe uma mat\u00e9ria classificando a Semana de mal, um fracasso, atraso mental e uma droga. Antes disso, no dia 30 de janeiro, A Gazeta j\u00e1 noticiava sobre o evento como um sarau futurista de esc\u00e2ndalo art\u00edstico e revolucion\u00e1rio. Tratava a arte nova como extravag\u00e2ncia e criticava Marinetti.<\/p>\n<p>O movimento teve seu lado pol\u00edtico de ataque \u00e0 aristocracia. Di Cavalcanti disse ter sugerido a Semana a Paulo Prado, comentando que seria um esc\u00e2ndalo. M\u00e1rio de Andrade defendia a livre m\u00e9trica e a rima, pois, segundo ele, a preocupa\u00e7\u00e3o com essas regras prejudica a naturalidade de liberdade do lirismo objetivado.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram s\u00f3 contesta\u00e7\u00f5es, no dia 18\/02, \u201cO Correio\u201d fez um coment\u00e1rio criticando os indiv\u00edduos que simplesmente ladravam e cacarejavam. Elogiou aqueles que aplaudiram com calor os libertadores da arte.<\/p>\n<p>O jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, numa mat\u00e9ria sobre a Semana, em sua edi\u00e7\u00e3o do dia 29 de janeiro, fez men\u00e7\u00e3o a Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, \u00c1lvaro Carvalho, Oswald, Menotti, Renato Almeida, Luis Aranha, M\u00e1rio Raul de Morais Andrade, Ribeiro Couto, Agenor Barbosa, Moacir de Abreu, Rodrigues de Almeida, Afonso Schmidt (adepto do grupo Zumbi) e S\u00e9rgio Milliet que participaram do evento.<\/p>\n<p>Nessa lista faltaram C\u00e2ndido Motta Filho, Armando Pamplona (cineasta), Pl\u00ednio Salgado, Rubens Borba de Morais, Tacito de Almeida e outros. Os nomes de Rodrigues e Moacir desapareceram no decorrer das campanhas pol\u00eamicas.<\/p>\n<p>O PAU BRASIL, ANTROPOFAGIA E DESDOBRAMENTOS<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Semana foram surgindo outros acontecimentos relacionados ao evento. Em 18 de mar\u00e7o, Oswald publicou no jornal \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d v\u00e1rios artigos que resultaram no livro \u201cPau Brasil\u201d, ilustrado pela artista Tarsila do Amaral. Propunha uma literatura vinculada \u00e0 realidade brasileira (redescoberta do Brasil). Pregava o uso da l\u00edngua sem arca\u00edsmos e erudi\u00e7\u00e3o, como falamos e somos.<\/p>\n<p>Em 15 de maio, ele lan\u00e7ou a revista \u201cKlaxon\u201d (buzina externa dos autom\u00f3veis) para propagar seu movimento antropof\u00e1gico, com ideias inovadoras e atuais.<\/p>\n<p>Nesse ano de 22 foram registrados fatos importantes da nossa hist\u00f3ria, como a Funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro (congresso de 25 a 27 de mar\u00e7o de 1922), revolta militar do Forte de Copacabana, que depois gerou o tenentismo, em S\u00e3o Paulo (durou um m\u00eas) e se comemorou o Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p>O historiador Nelson Werneck Sodr\u00e9, em \u201cHist\u00f3ria da Literatura Brasileira\u201d narra que dentro do movimento houve muitos atos na disputa pelo poder pol\u00edtico, como as manifesta\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois da Semana, em primeiro de mar\u00e7o, se deu a escolha na presid\u00eancia da Rep\u00fablica para o sucessor de Epit\u00e1cio Pessoa. A vit\u00f3ria foi de Artur Bernardes contra Nilo Pe\u00e7anha. Bernardes decretou estado de s\u00edtio, censura \u00e0 imprensa e interven\u00e7\u00f5es nos estados. Mesmo assim, houve a marcha revolucion\u00e1ria dos militares que exigiam o fim da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e1rio, que sempre foi de direita, pequeno burgu\u00eas, ingressou no Partido Democr\u00e1tico, em 1926. Ele conta que naquela \u00e9poca, ap\u00f3s o movimento festeiro da Semana, tudo come\u00e7ou a estourar em intrigas entre casais de artistas, amigos e fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O movimento, segundo M\u00e1rio, teve o car\u00e1ter an\u00e1rquico, moderno, original, de consci\u00eancia nacional e pol\u00eamico, mas tamb\u00e9m o sentido destruidor quando se partiu para o radicalismo. Tinha muito a ver com os tempos atuais.<\/p>\n<p>Os revoltosos do tenentismo, entre 1923\/24, v\u00e3o para o interior onde se encontram com as tropas vindas do Rio Grande do Sul, comandadas por Luis Carlos Prestes que formou a Coluna de mil homens e percorreu 24 mil quil\u00f4metros, se internando depois na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Nessa onda de tend\u00eancias, em 1924, na esteira do Pau Brasil e do antropofagismo de Oswald, apareceu o surrealismo com Andr\u00e9 Breton (1896 \u2013 1970), que foi um participante do Dada\u00edsmo de vanguarda no entre guerras. Era mais pr\u00f3ximo do expressionismo, na busca da liberdade, do inconsciente na arte. Prevalece a n\u00e3o raz\u00e3o, com a exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a e o selvagem que existem dentro de n\u00f3s. Foi uma ruptura com Breton, e optava-se pelo revolucion\u00e1rio marxista.<\/p>\n<p>De 1922 a 1930 (rompimento de todas estruturas do passado), e at\u00e9 1945, viveu-se um per\u00edodo \u00e1ureo da fase moderna, tanto que M\u00e1rio descreve como oito anos de orgias intelectuais que a hist\u00f3ria art\u00edstica do pa\u00eds vivenciou.<\/p>\n<p>MANIFESTOS PELOS ESTADOS<\/p>\n<p>Ainda no rastro da Semana surgiu uma onda de manifestos pelos estados no per\u00edodo de 1925 a 1930. O Nordeste, por exemplo, criou o Centro Regionalista (edi\u00e7\u00e3o de uma revista), em Recife, por volta de 1926. Grandes escritores, como Jos\u00e9 Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jos\u00e9 Am\u00e9rico, Jorge Amado e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto s\u00e3o inclu\u00eddos por cr\u00edticos liter\u00e1rios como regionalistas.<\/p>\n<p>Em Minas Gerais, em 27 de janeiro de 1928 foi editada a revista \u201cVerde Cataguazes\u201d, com cinco edi\u00e7\u00f5es. No rio de Janeiro, (1924), a revista \u201cEst\u00e9tica\u201d. Em S\u00e3o Paulo, em 1926, a \u201cTerra Roxa e outras Terras\u201d onde M\u00e1rio Raul de Morais Andrade (1893 &#8211; 1945), formado em piano no Conservat\u00f3rio Musical de S\u00e3o Paulo, professor e diretor do Departamento Cultural de S\u00e3o Paulo, era um dos colaboradores.<\/p>\n<p>Nesse tempo, Oswald cria o \u201cManifesto Antropof\u00e1gico\u201d atrav\u00e9s da Revista de Antropofagia em duas fases, a primeira com 10 edi\u00e7\u00f5es, entre maio de 1928 e fevereiro de 1929 (dire\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Machado). Na segunda etapa, a revista circulou nas p\u00e1ginas do \u201cDi\u00e1rio de S\u00e3o Paulo\u201d, com 16 n\u00fameros, de mar\u00e7o a agosto do mesmo ano, com Geraldo Ferraz.<\/p>\n<p>A primeira revista foi uma miscel\u00e2nea ideol\u00f3gica de Oswald, Alc\u00e2ntara Machado e M\u00e1rio de Andrade. Nela foi publicado o primeiro cap\u00edtulo do livro \u201cMacuna\u00edma\u201d. No terceiro n\u00famero apareceu o poema \u201cNo Meio do Caminho, de Carlos Drummond, incluindo ainda artigos de Pl\u00ednio e desenhos de Tarsila, na l\u00edngua tupi e poesias de Guilherme de Almeida. Na segunda fase da revista houve uma ruptura com M\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ficaram na linha antropof\u00e1gica, Oswald, Raul Bopp, Geraldo Ferraz, Tarsila e Patr\u00edcia Galv\u00e3o, a Pagu. Dou outro lado, M\u00e1rio, Alc\u00e2ntara, Gra\u00e7a Aranha, Guilherme de Almeida, Menotti e Pl\u00ednio Salgado. Os antropof\u00e1gicos foram taxados de Pregui\u00e7osos no Mapa Mundi do Brasil.<\/p>\n<p>Numa nova etapa do \u201cPau Brasil\u201d, o movimento visava valorizar o \u00edndio e defender a nossa l\u00edngua fosse falada pelo povo, bem como que nossa hist\u00f3ria fosse repensada. A origem do Pau Brasil surgiu da tela de Tarsila do Amaral, presenteada ao marido Oswald em seu anivers\u00e1rio de 1928. Oswald e Raul Bopp batizaram o quadro de Abaporu \u2013 homem que come, na linguagem ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o era dar uma resposta ao \u201cverde-amarelismo\u201d do \u201cGrupo Anta\u201d de Pl\u00ednio Salgado que lan\u00e7ou as sementes do nacionalismo ufanista e fascista juntamente com Menotti, Guilherme e Cassiano Ricardo. Se debatiam o nacionalismo cr\u00edtico das esquerdas contra o ufanismo exagerado de extrema direita, xen\u00f3foba e chauvinista. Oswald, M\u00e1rio, Manuel Bandeira, Ant\u00f4nio de Alc\u00e2ntara Machado, Menotti, Cassiano, Guilherme de Almeida e Pl\u00ednio \u00e0quela altura n\u00e3o se entendiam mais.<\/p>\n<p>Era o verde-amarelismo ufanista e integralista de Pl\u00ednio contra o nacionalismo afrancesado de Oswald que atacava os advers\u00e1rios em sua coluna \u201cFeira das Quintas\u201d, no \u201cJornal do Com\u00e9rcio\u201d<\/p>\n<p>Na verdade, foi um per\u00edodo f\u00e9rtil em manifestos e lan\u00e7amento de revistas, mas em 1929 houve a quebradeira da Bolsa de Valores, \u00faltimo ano da Velha Rep\u00fablica, com a Revolu\u00e7\u00e3o de 30.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00d3S N\u00c3O SAB\u00cdAMOS O QUE QUER\u00cdAMOS, MAS SAB\u00cdAMOS O QUE N\u00c3O QUER\u00cdAMOS\u201d \u2013 M\u00e1rio Raul Morais de Andrade, a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um car\u00e1ter revolucion\u00e1rio na d\u00e9cada de 20, com uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais. 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