{"id":6587,"date":"2022-01-17T23:42:38","date_gmt":"2022-01-18T02:42:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6587"},"modified":"2022-01-17T23:43:01","modified_gmt":"2022-01-18T02:43:01","slug":"os-currais-dos-banqueiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/01\/17\/os-currais-dos-banqueiros\/","title":{"rendered":"OS CURRAIS DOS BANQUEIROS"},"content":{"rendered":"<p>Minha tens\u00e3o aumenta quando tenho que ir a uma ag\u00eancia banc\u00e1ria para resolver um problema, que seja um simples saque de um dinheirinho. \u00c0s vezes, fico adiando o compromisso, mas n\u00e3o tem como se escapar da tortura. Quando chegou no centro, olho para todos os lados da pra\u00e7a e s\u00f3 vejo filas amontoadas no Bradesco, na Caixa Econ\u00f4mica Federal e no Banco do Brasil. Aquilo vai me deixando mais desesperado e come\u00e7o a suar.<\/p>\n<p>Acho que estou com transtorno de p\u00e2nico e trauma de banco, se esse \u00e9 o termo correto na psicologia. A primeira batalha \u00e9 ultrapassar aquela porta girat\u00f3ria que muitas vezes emperra. Depois de vencer a fila, introduzo, meio tremulo, o cart\u00e3o no caixa eletr\u00f4nico e recebo uma resposta na tela de que n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer a leitura. Passo para outro e acontece o mesmo. \u00c0quela altura, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel controlar a irrita\u00e7\u00e3o. Continuo tentando at\u00e9 conseguir. Ufa, que al\u00edvio!<\/p>\n<p>Olho para os lados e s\u00f3 vejo filas de pessoas de todas as idades, mais de idosos, naquele curral apertado dos banqueiros. Dia desse fui resolver uns \u201cpipinos\u201d e contei quatro filas, uma para o caixa eletr\u00f4nico, outra para pagamentos em caixas presenciais, outra para prova de vida (o vivo tem que provar que est\u00e1 vivo) e uma \u00faltima para pedidos de empr\u00e9stimos, portabilidades e refinanciamento de d\u00edvidas. Ah, ia me esquecendo! Tem ainda a fila da senha.<\/p>\n<p>Quando tenho que ir para essa \u201cguerra de nervos\u201d sempre levo comigo um livro para passar o tempo, mas fixo a aten\u00e7\u00e3o na leitura e os ouvidos atentos para as conversas de sofrimentos, queixas, malandragens de gente que quer levar vantagem em tudo (furar a fila) e brigas contra os vigias que ficam ali naqueles currais procurando orientar os clientes, ou pacientes, como queiram.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o coisas estranhas de comadres com comadres, compadres com compadres ou entre um compadre e uma comadre. O papo gira em torno de doen\u00e7as, de vizinhos chatos, da situa\u00e7\u00e3o de pobreza no pa\u00eds, fake news sobre determinados fatos, informa\u00e7\u00f5es deturpadas e outras coisas curiosas que rendem uma boa cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Tem aquele que se faz de \u201cinocente\u201d e vai entrando no meio da fila. N\u00e3o meu senhor e minha senhora, a fila \u00e9 l\u00e1 atr\u00e1s. Ah sim, desculpe. Uma vez dessa ouvi um di\u00e1logo engra\u00e7ado de um senhor a respeito de uma mulher, dessa \u201csabida astuciosa\u201d que queria furar a fila.<\/p>\n<p>&#8211; Veja s\u00f3, um dia estou aqui, nesse mesmo lugar, e a\u00ed me aparece uma senhora, j\u00e1 meio idosa, n\u00e3o sei de onde, dizendo que estava sentada naquelas poltronas e entrou em minha frente \u2013 contava o senhor para uma comadre. Discuti com ela e disse que estava mentindo. A dona n\u00e3o gostou, e ainda me desatacou me chamando de ignorante, que tive uma professora \u00e9gua. Respondi que realmente era uma \u00e9gua igual a ela.<\/p>\n<p>Quando chegou minha vez, at\u00e9 que fiquei um pouco mais calmo, mas s\u00f3 estava come\u00e7ando minha cruzada rumo a Jerusal\u00e9m para combater os turcos, ou os mouros \u201cinfi\u00e9is\u201d. O atendente mandou que eu procurasse um determinado funcion\u00e1rio do setor espec\u00edfico para meu caso, que me devolveu de volta como se fosse um pacote imprest\u00e1vel para o mesmo lugar.<\/p>\n<p>Afinal de contas quem vai me atender?\u00a0 Pergunto, j\u00e1 meio alterado. Aguenta cora\u00e7\u00e3o! Meu p\u00e2nico e meu trauma se elevam! O cara liga novamente para o colega, e s\u00f3 ent\u00e3o, fui recebido. Era quase meio dia, e a barriga j\u00e1 dava sinais de ronco. Era fome mesmo! S\u00f3 chegando mais gente e os currais mais cheios que antes.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, um mo\u00e7o meio forte, sujeito mulato, tipo com jeito acostumado de passar rasteira nos outros, que queria ser atendido na frente de todos, discutia com o guarda, dizendo que estava passando mal. Meu senhor, se est\u00e1 passando mal, vou chamar o Samu \u2013 respondeu o vigia.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei no que deu a conversa. Finalmente, quando j\u00e1 ia embora, naquele sufoco danado de espera, um senhor, visivelmente nervoso, batia na porta de vidro, gritando que queria falar com o gerente. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei no que deu a discuss\u00e3o, ou confus\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o coisas dos currais feitos pelos banqueiros financistas gananciosos que fecharam ag\u00eancias, demitiram banc\u00e1rios, reduziram o hor\u00e1rio de atendimento e espremeram as pessoas numa s\u00f3 unidade. Quando algu\u00e9m se revolta e parte para a viol\u00eancia &#8211; toda paci\u00eancia e submiss\u00e3o t\u00eam o seu limite &#8211; chamam a pol\u00edcia e leva o indiv\u00edduo no cambur\u00e3o. \u00c9 a cara do Brasil, de um povo marcado como gado em curral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha tens\u00e3o aumenta quando tenho que ir a uma ag\u00eancia banc\u00e1ria para resolver um problema, que seja um simples saque de um dinheirinho. \u00c0s vezes, fico adiando o compromisso, mas n\u00e3o tem como se escapar da tortura. 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