{"id":6561,"date":"2022-01-07T22:49:38","date_gmt":"2022-01-08T01:49:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6561"},"modified":"2022-01-07T22:50:00","modified_gmt":"2022-01-08T01:50:00","slug":"uma-semana-polemica-de-ideias-futuristas-que-terminou-em-racha-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/01\/07\/uma-semana-polemica-de-ideias-futuristas-que-terminou-em-racha-i\/","title":{"rendered":"UMA SEMANA POL\u00caMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (I)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3380.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6562\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3380.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3380.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/IMG_3380-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em fevereiro pr\u00f3ximo (de 13 a 18) comemora-se o centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna de 1922. Nosso blog (Encontro com os Livros) vai fazer uma s\u00e9rie de artigos sobre o assunto (pesquisa de Jeremias Mac\u00e1rio) em homenagem ao evento, que foi um divisor de \u00e1guas entre o passado e o novo na hist\u00f3ria das artes, abrangendo todas as linguagens art\u00edsticas. Este \u00e9 o nosso primeiro coment\u00e1rio que segue todas as sextas-feiras.<\/p>\n<p>A Semana de Arte Moderna de 1922 &#8211; uns estudiosos do assunto registram o per\u00edodo de 11 a 18 de fevereiro e outros de 13 a 18 &#8211; est\u00e1 recheada de controv\u00e9rsia, diverg\u00eancias, brigas e separa\u00e7\u00f5es entre grupos idealizadores. Ela nasceu com ideias futuristas da It\u00e1lia atrav\u00e9s de Marinetti (seguidor de Mussolini), com princ\u00edpios libert\u00e1rios nacionalistas visando substituir os velhos estilos e g\u00eaneros do passado parnasiano pelo novo, conforme assinalam cr\u00edticos liter\u00e1rios, como Alfredo Bosi e Jos\u00e9 de Nicola.<\/p>\n<p>No geral ela bebeu da vanguarda europeia antes e depois da I Guerra Mundial e se inspirou em movimentos expressionista, dada\u00edsta e cubista, principalmente. Com os acontecimentos pol\u00edticos ap\u00f3s o evento houve uma divis\u00e3o e alguns enveredaram para o nacionalismo ufanista da direita fascista integralista. A concep\u00e7\u00e3o futurista foi banida pelo pr\u00f3prio Oswald de Andrade, um dos pensadores do movimento.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas principais espet\u00e1culos da Semana, no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo (dias 13, 15 e 17 de fevereiro), que neste ano est\u00e1 comemorando seu centen\u00e1rio, juntamente com a funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta Militar do Forte de Copacabana (depois veio o tenentismo e a Coluna Prestes) e o bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, foram de muita confus\u00e3o, algazarras, vaias, ofensas e cr\u00edticas veladas aos escritores, poetas, pintores e aos artistas participantes.<\/p>\n<p>Os mentores do movimento, Gra\u00e7a Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras (Alfredo Bosi, em \u201cHist\u00f3ria Concisa da Literatura Brasileira\u201d) e Di Cavalcanti (\u201cLiteratura Brasileira, de Jos\u00e9 de Nicola) depois seguiram caminhos diferentes na pol\u00edtica, com o racha no grupo. Por ironia, o encontro contou com forte patroc\u00ednio do setor financeiro paulista, apesar dos escritos liter\u00e1rios (a maior express\u00e3o veio da literatura), focar seus alvos contra os h\u00e1bitos e costumes sociais da burguesia rural e urbana.<\/p>\n<p>RETROSPECTIVA<\/p>\n<p>Para entendermos melhor o que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, devemos fazer uma retrospectiva dos fatos desde a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, a I Guerra Mundial (1914-1918) e as renova\u00e7\u00f5es de pensamentos ocorridas na Europa, especialmente na Fran\u00e7a, Alemanha e It\u00e1lia. Esse turbilh\u00e3o de ideias, como sempre acontece, chegou mais atrasado no Brasil de Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, M\u00e1rio de Andrade e outros.<\/p>\n<p>Em sua cr\u00edtica, Bosi faz uma defini\u00e7\u00e3o do modernismo como um clima est\u00e9tico e psicol\u00f3gico, citando Gra\u00e7a Aranha, o \u00fanico intelectual da velha guarda que passa do pr\u00e9-moderno e adere ao modernismo, mas que permanece com sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de direita. Na realidade, esse movimento traz consigo um novo c\u00f3digo diferente do parnasiano de Olavo Bilac e do simbolismo, como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto.<\/p>\n<p>O escritor Lima Barreto j\u00e1 introduzia em sua literatura tra\u00e7os modernos em seus romances, bem como Monteiro Lobato, um conservador cr\u00edtico ferrenho da Semana, Guilherme de Almeida, Menotti e Oswald de Andrade. No entanto, nem tudo que foi modernista parecia moderno, conforme descrevem os literatos.<\/p>\n<p>Lima Barreto e Gra\u00e7a de Aranha pertenciam a camadas sociais bem diferentes (o primeiro de origem pobre), mas tinham forte sentimento nacional ao ponto de palmilharem juntos a revolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos anos 20 e 30. Em sua vis\u00e3o, Bosi pondera que, se por modernismo entende-se ruptura com os c\u00f3digos liter\u00e1rios do primeiro vint\u00eanio, a rigor n\u00e3o houve escritor pr\u00e9-modernista.<\/p>\n<p>Antes da Semana j\u00e1 havia exemplos de inconformismo cultural atrav\u00e9s da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e0s estruturas das velhas gera\u00e7\u00f5es nos primeiros vinte anos do s\u00e9culo XX. Portanto, dentro desses c\u00f3digos liter\u00e1rios podem ser considerados de pr\u00e9-modernistas Euclides da Cunha, Jo\u00e3o Ribeiro, Lima Barreto e Gra\u00e7a de Aranha.<\/p>\n<p>Na verdade, como exemplifica Bosi, existia sim um esp\u00edrito modernista no ar por meio de inova\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que mais tarde iriam polarizar, a exemplo de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, S\u00e9rgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, dentre outros.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos da I Guerra Mundial, os ventos desses ideais j\u00e1 sopravam. Na Europa, a literatura dava sinais de crise. Em Paris, Oswald conheceu o futurismo de Marinetti, em 1909. Este acabou aderindo ao fascismo de Mussolini. Em 1912 aconteceu o manifesto \u201cFunda\u00e7\u00e3o no Figaro\u201d e Paul Fort lan\u00e7ava seus versos livres.<\/p>\n<p>No Brasil, Manuel Bandeira plantou as primeiras sementes do modernismo. Ronald de Carvalho ajudou, em 1915, fundar a revista de vanguarda portuguesa \u201cOrpfeu\u201d que propagou a poesia de Fernando de Pessoa e S\u00e1 Carneiro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Trist\u00e3o de Ata\u00edde e Gra\u00e7a de Aranha conheceram as vanguardas europeias simbolizadas na poesia de S\u00e9rgio Milliet. Mesmo com cr\u00edticas e pol\u00eamicas, o termo futurismo, visto como barbarismo, come\u00e7a a circular nos jornais brasileiros por volta de 1914. Antes disso, em 1910, na Bahia, foi publicado um folheto sobre o manifesto de Marinetti, exclu\u00eddo durante a Semana de Arte Moderna. Outro fato que marcou essas mudan\u00e7as foi o artigo de Ernesto Bertarelli sobre as li\u00e7\u00f5es do futurismo, no jornal \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>Essas inova\u00e7\u00f5es simbolistas de versos livres eram muito contestadas, mas come\u00e7avam a aparecer at\u00e9 no meio sertanista de Corn\u00e9lio Pires, Paulo Set\u00fabal e Catulo da Paix\u00e3o Cearense. Como diz Bosi, era um h\u00edbrido de culto ao popular e ao nacional.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es, surgidas na Europa atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es, terminaram desaguando no encontro da Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo da burguesia culta paulista e carioca, que mudou o quadro liter\u00e1rio, o carro-chefe do evento junto com as artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Antes da Semana, por\u00e9m, o fato mais importante que movimentou a cultura paulista foi a exposi\u00e7\u00e3o de Anita Malfatti, em 1917. Apesar de criticada, sua mostra de pinturas, com tra\u00e7os expressionista e cubista, serviu de guia para as novas tend\u00eancias. O evento de S\u00e3o Paulo recebeu uma cr\u00edtica virulenta de Monteiro Lobato (conservador), com o artigo \u201cParanoia ou Manifesta\u00e7\u00e3o\u201d?, publicado no jornal \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>Os trabalhos de Anita (estudou artes pl\u00e1sticas na Alemanha) tiveram o apoio de solidariedade de Oswald, Menotti del Picchia e M\u00e1rio de Andrade contra as cr\u00edticas de Lobato. Em sua bagagem da Europa, ela trazia novos elementos pl\u00e1sticos da Alemanha e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em sua obra de \u201cLiteratura Brasileira\u201d, Alfredo Bosi descreve que de 1917 a 1922, um grupo jovem e atuante no meio liter\u00e1rio paulista bebeu das po\u00e9ticas do p\u00f3s-guerra, mas, mesmo assim, ainda mantinha o tradicionalismo provinciano brasileiro.<\/p>\n<p>Ainda em 1917, M\u00e1rio de Andrade estreou na literatura com \u201cH\u00e1 uma Gota de Sangue em Cada Poema\u201d sobre a I Guerra. Na \u00e9poca, Bandeira considerou os versos ruins, dizendo que tinham resqu\u00edcios condoreiros. Oswald lan\u00e7a \u201cOs Condenados\u201d, um romance ainda de estilo h\u00edbrido na an\u00e1lise de Bosi.<\/p>\n<p>Menotti, um dos mais ativos da Semana, publica os livros de \u201cPoemas do V\u00edcio e da Virtude\u201d (1913), ainda parnasiano, Juca Mulato\u201d (poemeto regionalista), \u201cMois\u00e9s\u201d (poema b\u00edblico) e as \u201cM\u00e1scaras\u201d (1917), com v\u00edcios do decadentismo. As obras foram bem aceitas pelo p\u00fablico. Em 1922, ele escreve o romance \u201cO Homem e a Morte\u201d que narra as aventuras de um artista paulista com um estilo entre o rom\u00e2ntico e o impressionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fevereiro pr\u00f3ximo (de 13 a 18) comemora-se o centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna de 1922. 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