{"id":6528,"date":"2021-12-27T23:57:25","date_gmt":"2021-12-28T02:57:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6528"},"modified":"2021-12-27T23:57:47","modified_gmt":"2021-12-28T02:57:47","slug":"nao-gosto-de-final-de-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/12\/27\/nao-gosto-de-final-de-ano\/","title":{"rendered":"N\u00c3O GOSTO DE FINAL DE ANO"},"content":{"rendered":"<p>A televis\u00e3o anuncia a ceia de Natal com peru, chester, nozes, ameixas, castanhas, lentilhas para dar sorte, produtos importados e vinhos na farta mesa. Os pre\u00e7os subiram, mas isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a para a elite. Do outro lado, o pobre deve imaginar que a sua \u201cceia\u201d \u00e9 feita de feij\u00e3o com arroz quando ele \u00e9 um dos felizardos das doa\u00e7\u00f5es da cesta b\u00e1sica. O barraco, na maioria, fica l\u00e1 na encosta da periferia ou no alto do morro, sem nenhum sistema de saneamento. As crian\u00e7as correm de p\u00e9s no ch\u00e3o em pleno esgoto a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Nas lojas e shoppings, os movimentos de compras de presentes superam todos os anos, evidenciando um consumismo exagerado. Milh\u00f5es nem passam por l\u00e1 porque s\u00e3o malvistos. Alguns meninos e meninas ganham uns brinquedos doados, e assim a cena se repte todos os anos. Algu\u00e9m diz que a cesta significa tamb\u00e9m uma esperan\u00e7a, mas que esperan\u00e7a, se n\u00e3o lhe \u00e9 oferecido a instru\u00e7\u00e3o e o emprego? Se n\u00e3o lhe \u00e9 dado uma alternativa, uma sa\u00edda?<\/p>\n<p>Por isso que n\u00e3o gosto desse final de ano de Natal t\u00e3o desigual, e da queima de fogos de artif\u00edcios que brilham nos c\u00e9us, desse estampido dos champanhes, dos comes e bebes luxuosos e dos u\u00edsques festejantes. L\u00e1 fora, nas marquises e viadutos, os moradores de rua dormem ao relento, e o n\u00famero deles s\u00f3 faz crescer.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto desse Natal, nem desse final de ano porque n\u00e3o aguento mais ouvir bord\u00f5es de amor e paz, de Feliz Natal e Ano Novo, de que as coisas v\u00e3o melhorar, como se ao amanhecer, em quest\u00f5es de horas, a vida tomasse outra forma. Nisso tudo, existe mais falsidade que sinceridade. Dizem por a\u00ed que nesse per\u00edodo a pessoa fica mais sens\u00edvel, mas no amanh\u00e3 se volta a ser uma multid\u00e3o invis\u00edvel.<\/p>\n<p>O solst\u00edcio de inverno do hemisf\u00e9rio Norte, quando o sol faz os dias mais longos, virou Natal dos anos 300 da era crist\u00e3 imperial dos romanos, institu\u00eddo por Julius I. Era uma antiga festa pag\u00e3 dos celtas e dos druidas. Era tamb\u00e9m festa de Mitra, o deus persa da luz e do Hanukkah entre os judeus.<\/p>\n<p>O cristianismo escolheu uma data mais pr\u00f3xima \u00e0s cren\u00e7as de todas religi\u00f5es para atrair mais seguidores, mas queria que esse Natal fosse de todos os irm\u00e3os da fome. Assim nasceu o Natal, \u201cnatale domini\u201d, e S\u00e3o Francisco criou o pres\u00e9pio de um Deus Menino de olhos azuis, numa manjedoura cercada de animais e dos reis magos.<\/p>\n<p>O Papai Noel veio l\u00e1 dos gelados pa\u00edses n\u00f3rdicos com seu tren\u00f3 que s\u00f3 passava na casa dos ricos, como at\u00e9 hoje. Os pobres miser\u00e1veis nem t\u00eam acesso a um shopping ou a uma loja de consumo. De um lado, as reuni\u00f5es do clima onde os reis assinam pap\u00e9is para reduzir o aquecimento global. Do outro, o incentivo consumista do capital guloso para crescer o tal do PIB (Produto Interno Bruto), cujo bolo nunca \u00e9 dividido entre os mais pobres. Ainda continua sendo o Natal do esbanjamento para alguns, e frustra\u00e7\u00e3o para muitos, mesmo com as campanhas de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse Natal s\u00f3 me faz lembrar daquele menino retra\u00eddo ao p\u00e9 do fog\u00e3o a lenha, ao lado da m\u00e3e cozinhando um feij\u00e3o sem carne. O pai que vive de bicos foi \u00e0 rua logo cedo para tentar ganhar uns trocados, para fazer umas comprinhas. Desiludido e sem nada, passou no boteco e encheu a cara de pinga. Chegou tarde \u00e0 noite revoltado por sua condi\u00e7\u00e3o social e quebrou tudo.<\/p>\n<p>Na confus\u00e3o, a pol\u00edcia passou e levou aquele homem para a cadeia, e l\u00e1 deram-lhe umas bordoadas. Sem dinheiro e sem emprego, a fam\u00edlia foi despejada do casebre porque n\u00e3o pode pagar o aluguel e passou a engrossar a lista dos moradores de rua. O menino daquela triste noite nunca mais gostou desse Natal, nem eu.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os bilion\u00e1rios em foguetes potentes festejam passeio no espa\u00e7o para, das alturas, ver uma parte do universo cheio de estrelas, e l\u00e1 embaixo a terra azul a navegar com seus oito bilh\u00f5es de habitantes, dos quais, quase um bilh\u00e3o vivendo em extrema pobreza. Nela est\u00e1 o Brasil isolado viajando na contram\u00e3o, detentor de t\u00edtulos negativos na educa\u00e7\u00e3o e um dos maiores \u00edndices de desigualdade humana e social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A televis\u00e3o anuncia a ceia de Natal com peru, chester, nozes, ameixas, castanhas, lentilhas para dar sorte, produtos importados e vinhos na farta mesa. Os pre\u00e7os subiram, mas isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a para a elite. 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