{"id":6522,"date":"2021-12-24T19:40:26","date_gmt":"2021-12-24T22:40:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6522"},"modified":"2021-12-24T19:40:52","modified_gmt":"2021-12-24T22:40:52","slug":"escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/12\/24\/escravidao\/","title":{"rendered":"&#8220;ESCRAVID\u00c3O&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de tanto preconceito racial, \u00f3dio e intoler\u00e2ncia entre brasileiros, envolvidos numa polariza\u00e7\u00e3o bestial, o jornalista e escritor premiado com os livros 1808, 1822 e 1889, Laurentino Gomes acaba de lan\u00e7ar a trilogia ESCRAVID\u00c2O (o \u00faltimo sai agora em 2022), que durou 350 anos no Brasil, o \u00faltimo pa\u00eds ocidental a decretar a aboli\u00e7\u00e3o. Deve ser lido para se entender a hist\u00f3ria, a vergonha e as agruras do tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3359.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6523\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3359.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3359.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3359-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foram seis anos de pesquisas que inclu\u00edram doze pa\u00edses e tr\u00eas continentes por onde Laurentino passou, al\u00e9m de centenas de entrevistas. O primeiro volume cobre um per\u00edodo de 250 anos, desde o primeiro leil\u00e3o de escravos africanos em Portugal, no dia 8 de agosto de 1444, at\u00e9 a morte de zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.<\/p>\n<p>A obra tamb\u00e9m explica as ra\u00edzes da escravid\u00e3o humana na antiguidade (Gr\u00e9cia antiga, Imp\u00e9rio Romano, Turco-Otomano) e na pr\u00f3pria \u00c1frica antes da chegada dos portugueses; o in\u00edcio do tr\u00e1fico para as Am\u00e9ricas; os n\u00fameros; os bastidores; e os lucros do neg\u00f3cio negreiro. Fala tamb\u00e9m da trajet\u00f3ria do baiano mulato claro Francisco Felix de Souza, o mais rico, famoso e influente mercador de gente na costa africana do Benin.<\/p>\n<p>Outro personagem descrito por Laurentino \u00e9 o do infante Dom Henrique, patrono das grandes navega\u00e7\u00f5es e descobrimentos do s\u00e9culo XV, tido tamb\u00e9m como um dos grandes traficantes no Atl\u00e2ntico. \u00c9 uma hist\u00f3ria de dor que continua com suas marcas em Luanda (Angola), Ajud\u00e1 (Benin), Cidade Velha, em Cabo Verde, Liverpool, na Inglaterra e cais do Velongo (Pequena \u00c1frica), no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os dois \u00faltimos volumes de um trabalho profundo s\u00e3o dedicados aos s\u00e9culos XVIII, auge do tr\u00e1fico de escravos, e ao movimento abolicionista que resultou na lei \u00e1urea de 13 de maio de 1888. Na verdade, os escravos n\u00e3o tiveram a liberdade de verdade porque foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, sem serem indenizados pelos anos de sofrimentos.<\/p>\n<p>Esse fantasma da escravid\u00e3o continua a nos perseguir com o racismo que ainda persiste no Brasil, sem falar na quest\u00e3o social de pobreza entre os negros, onde os \u00edndices de acesso ao emprego, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e outros servi\u00e7os s\u00e3o baixos em rela\u00e7\u00e3o aos brancos.<\/p>\n<p>Laurentino come\u00e7ou sua obra em Ajud\u00e1, na Rep\u00fablica do Benin (n\u00e3o confundir com o Reino do Benin que fica na Nig\u00e9ria), em frente a uma grande gameleira, conversando com Marcelin Norberto, de 92 anos, patriarca da nona gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Souza, dinastia fundada no Reino do Daom\u00e9 (col\u00f4nia francesa at\u00e9 1975).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3363.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6524\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3363.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3363.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/IMG_3363-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao morrer, em 1848, com 94 anos, o baiano Francisco de Souza deixou 53 mulheres vi\u00favas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna de mais de 120 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Ele ganhou do rei Guezo, do Daom\u00e9, o t\u00edtulo de chach\u00e1.\u00a0 Em seu livro-reportagem, o autor narra que, a centenas de metros da casa de Marcelin, ergue-se a antiga Fortaleza de S\u00e3o Jo\u00e3o de Ajud\u00e1, o mais importante entreposto de tr\u00e1fico negreiro portugu\u00eas e brasileiro no Golfo de Benin at\u00e9 metade do s\u00e9culo XIX. A poucos quil\u00f4metros, no litoral, l\u00e1 est\u00e1 a Porta do N\u00e3o Retorno onde come\u00e7ou a Rota dos Escravos. Pela porta de Ajud\u00e1, passaram cerca de um milh\u00e3o de escravos.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica, existem dezenas dessas portas por onde foram embarcados nos navios negreiros mais de 12 milh\u00f5es de africanos que nunca tiveram a oportunidade de retornar \u00e0s suas origens. Desses, estima-se que cinco milh\u00f5es vieram parar no Brasil. Segundo Laurentino, o banco de dados Slave Voyages, cataloga 36 mil viagens dos navios negreiros ao longo dos 350 anos, num total de 188 portos de partida de cativos, sendo que 20 deles responderam por 93% do total do tr\u00e1fico no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 longa e triste que vale a pena ser lida e at\u00e9 relida para que conhe\u00e7amos as origens dos nossos antepassados e sepultemos para sempre o racismo. Paranaense de Maring\u00e1, premiado seis vezes com o Jabuti de Literatura, Laurentino \u00e9 formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paran\u00e1, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo e membro da Academia Paranaense de Letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de tanto preconceito racial, \u00f3dio e intoler\u00e2ncia entre brasileiros, envolvidos numa polariza\u00e7\u00e3o bestial, o jornalista e escritor premiado com os livros 1808, 1822 e 1889, Laurentino Gomes acaba de lan\u00e7ar a trilogia ESCRAVID\u00c2O (o \u00faltimo sai agora em 2022), que durou 350 anos no Brasil, o \u00faltimo pa\u00eds ocidental a decretar a aboli\u00e7\u00e3o. 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