{"id":6505,"date":"2021-12-20T23:43:56","date_gmt":"2021-12-21T02:43:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6505"},"modified":"2021-12-20T23:44:44","modified_gmt":"2021-12-21T02:44:44","slug":"sonho-de-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/12\/20\/sonho-de-pesadelo\/","title":{"rendered":"SONHO DE PESADELO"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes temos a impress\u00e3o que ingerimos um pesado alucin\u00f3geno que faz a cabe\u00e7a ferver como num pesadelo em meio a escombros e monstros alucinados de chifres a nos perseguir. Corremos desesperadamente entre labirintos para fugir dos horrores, e as sa\u00eddas que imaginamos se fecham.<\/p>\n<p>Em algum ponto da agonia de morte, acordamos suados de tanto esfor\u00e7o para nos salvar. Somos uma massa de desumanizados, embora se fale muito em solidariedade e se arrecade cestas b\u00e1sicas para os famintos. Temos um Natal de mesas cheias para poucos, e vazias para uma grande maioria. As festas de fogos coloridos nos finais de ano n\u00e3o me encantam mais. Sou mais os foguet\u00f3rios de S\u00e3o Jo\u00e3o, quando algu\u00e9m se casa ou nasce uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando ainda menino, meu pai dizia para n\u00e3o ficar na ro\u00e7a no cabo da enxada porque aquilo era o maior atraso para o homem. Passados muitos anos, c\u00e1 estou na grande cidade agitada, de multid\u00f5es apressadas que se cruzam indiferentes na luta pela sobreviv\u00eancia. Olho para o alto e s\u00f3 vejo edif\u00edcios. A minha selva de \u00e1rvores \u00e9 de pedras num c\u00e9u sombrio de nuvens raras e sem cores. Com as luzes incandescentes dos postes que deslizam no asfalto e fios embaralhados, n\u00e3o vejo mais a lua dos enamorados. Meu sonho virou um pesadelo.<\/p>\n<p>Cada um tem algum problema para resolver porque as faturas e os boletos das contas chegam todo final de m\u00eas para pagar. O telefone sempre toca do outro lado de algum call center oferecendo um produto. Aquela musiquinha chata nos irrita. Fico estressado e desligo. A grande maioria virou fregu\u00eas cativo do sistema que n\u00e3o perdoa quem sair das regras emanadas l\u00e1 do alto do grande escal\u00e3o das castas.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro arde quando a infla\u00e7\u00e3o aparece nos letreiros das prateleiras dos supermercados e das feiras. Os n\u00fameros sobem nas bombas de combust\u00edveis, milh\u00f5es vagam desempregados, um homem de terno com um livro na m\u00e3o prega o fanatismo na pra\u00e7a e condena aqueles que ele considera de infi\u00e9is, pag\u00e3os e depravados. Acelero meus passos entre camel\u00f4s que gritam para vender suas mercadorias, e nas sinaleiras a fome pede comida.<\/p>\n<p>Meu pai tamb\u00e9m comentava que no final dos tempos (acho que se referia ao ju\u00edzo final), o mundo ia virar um formigueiro de um movimento acelerado de pessoas indo e voltando. Uma mulher caiu na cal\u00e7ada, mas ningu\u00e9m viu. Os letreiros me convidam para entrar. \u00c0s vezes fixo o olhar na labuta do vaiv\u00e9m das formigas em meu quintal, e logo lembro dos dizeres do meu pai.<\/p>\n<p>Basta um toque no buraco para elas se espalharem perdidas e nervosas. At\u00e9 se atacam como no chamado ferom\u00f4nio, mas depois com o tempo se acalmam e voltam ao ritmo de antes para a entrada e sa\u00edda da toca. Refazem os estragos, e o formigueiro volta a funcionar. S\u00e3o incans\u00e1veis trabalhadoras que cortam nossas lavouras, mas a natureza sabe o que faz.<\/p>\n<p>O planeta j\u00e1 deve ter cerca de oito bilh\u00f5es dessas formigas humanas gigantes e, mesmo com bombardeios, pestes, venenos de agrot\u00f3xicos e escassez de alimentos para os mais fracos, o n\u00famero s\u00f3 faz crescer. O que ser\u00e1 quando tiver 15 ou 20 bilh\u00f5es em terras quase des\u00e9rticas? A profecia do meu pai estar\u00e1 se concretizando. A paisagem poder\u00e1 se tornar \u00e1rida na terra dos homens predadores.<\/p>\n<p>Do pesadelo alucin\u00f3geno e dos formigueiros das cidades grandes, a vida \u00e9 real quando se acorda com as ruas e avenidas cheias de neur\u00f4nios enlouquecidos que cada vez mais se odeiam nas redes sociais. Cada um cuida de si, e o outro \u00e9 um concorrente que precisa ser expelido. Vale o levar vantagem em tudo, n\u00e3o importam os m\u00e9todos. Os fins justificam os meios.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria melhor ter ficado na ro\u00e7a no cabo da enxada, ouvindo o cantarolar livre dos p\u00e1ssaros, ou tomando caf\u00e9 no bule torrado no pil\u00e3o numa conversa animada de compadres noite a dentro at\u00e9 o galo cantar, sem pensar no existencialismo e outras filosofias do tipo, ser ou n\u00e3o ser? Quem quer saber do Eu Profundo, ou do saber humanista? Mergulhar em si s\u00f3 se for numa piscina, no rio ou no mar.<\/p>\n<p>Moro hoje isolado num peda\u00e7o gigante de uma terra chamada de Brasil onde se vive um pesadelo coletivo de intoler\u00e2ncias, instigadas por um tamandu\u00e1 faminto sugador de sonhos e esperan\u00e7as. Parece que todos foram contaminados pela droga da destrui\u00e7\u00e3o onde optaram pela separa\u00e7\u00e3o e a divis\u00e3o entre n\u00f3s e eles. Nos chamam de terr\u00e1queos b\u00e1rbaros como c\u00e3es raivosos. Nos olham de longe como se fossem ferozes e contagiosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes temos a impress\u00e3o que ingerimos um pesado alucin\u00f3geno que faz a cabe\u00e7a ferver como num pesadelo em meio a escombros e monstros alucinados de chifres a nos perseguir. Corremos desesperadamente entre labirintos para fugir dos horrores, e as sa\u00eddas que imaginamos se fecham. 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