{"id":6468,"date":"2021-12-11T00:02:32","date_gmt":"2021-12-11T03:02:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6468"},"modified":"2021-12-11T00:03:16","modified_gmt":"2021-12-11T03:03:16","slug":"o-racismo-e-a-dominacao-colonial-na-visao-de-frantz-fanon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/12\/11\/o-racismo-e-a-dominacao-colonial-na-visao-de-frantz-fanon\/","title":{"rendered":"O RACISMO E A DOMINA\u00c7\u00c3O COLONIAL NA VIS\u00c3O DE FRANTZ FANON"},"content":{"rendered":"<p>No livro \u201cPele Negra, M\u00e1scaras Brancas\u201d (1951), do psiquiatra martiniquense Frantz Fanon, o racismo n\u00e3o \u00e9 visto como algo espec\u00edfico de certas sociedades, como costumava analisar \u00e0 \u00e9poca. Na obra, o autor examina o racismo dos franceses.<\/p>\n<p>De acordo com o professor Muryatan Barbosa, em \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, Fanon chega \u00e0 conclus\u00e3o de que, na verdade, existe uma ess\u00eancia racista, que pode se apresentar na apar\u00eancia de formas diversas. Isso ocorre, ainda conforme o autor, porque os processos de racializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o sist\u00eamicos. \u201cEles prenderiam tanto negros quanto brancos em uma l\u00f3gica bin\u00e1ria e manique\u00edsta\u201d.<\/p>\n<p>Ao abordar a quest\u00e3o natural da inferioridade de uns negros em rela\u00e7\u00e3o a outros brancos, para Fanon, o racismo nega a dial\u00e9tica do Eu e do Outro, que seria a base da vida \u00e9tica. \u201cA consequ\u00eancia disso \u00e9 que todo processo de desumaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel\u201d. Ele entende que o racismo \u00e9 fruto do colonialismo.<\/p>\n<p>\u201cSe h\u00e1 um complexo de inferioridade, este surge ap\u00f3s um processo duplo: econ\u00f4mico, inicialmente; em seguida, pela interioriza\u00e7\u00e3o, ou melhor, epidermiza\u00e7\u00e3o dessa inferioridade\u201d \u2013 destaca Fanon.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do professor Barbosa, em 1952, o Partido Comunista Franc\u00eas ainda possu\u00eda uma posi\u00e7\u00e3o d\u00fabia quanto a quest\u00e3o colonial francesa, sem defender abertamente a necessidade das descoloniza\u00e7\u00f5es africanas. Diante desse aspecto, muitos intelectuais negros sa\u00edram do partido, como Aim\u00e9 C\u00e9saire, em 1956.<\/p>\n<p>Em sua luta revolucion\u00e1ria na liberta\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia, Fanon sempre se colocou contra a explora\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria e a fome. No in\u00edcio da guerra, o psiquiatra tratava cada vez mais pacientes colonialistas e colonizados, que tinham passado por processo de viol\u00eancia extrema, torturados e torturadores, dada a insanidade da insurg\u00eancia francesa.<\/p>\n<p>Em 1956 escreveu uma carta p\u00fablica se demitindo do hospital argelino onde trabalhava. Isto foi o in\u00edcio de um novo ciclo revolucion\u00e1rio, afastando-se das rela\u00e7\u00f5es com a maior parte da esquerda francesa, que n\u00e3o se posicionava contra o colonialismo.<\/p>\n<p>A partir dali, Fanon buscou s\u00f3 manter rela\u00e7\u00f5es pessoais com os que tinham o mesmo compromisso pol\u00edtico que ele, ou que poderiam ser importantes para divulgar a revolu\u00e7\u00e3o argelina no exterior. Em 1957 se entregou de vez \u00e0 Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FLN), como ministro da Informa\u00e7\u00e3o e representante do Governo Provis\u00f3rio Argelino no Exterior.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ele e outras lideran\u00e7as, entre 1958 e 1959, foram secundarizados pelo grupo hegem\u00f4nico do primeiro presidente argelino Bem Bella. Nesses anos, exerceu com afinco a fun\u00e7\u00e3o de editor do jornal El Moudjahid.<\/p>\n<p>No I Congresso dos Escritores e Artistas Negros, em Paris (1956), Fanou escreveu o texto Racismo e Cultura onde defendeu uma quest\u00e3o primordial: o racismo deve ser entendido desde uma abordagem sist\u00eamica e hist\u00f3rica. \u201cEle \u00e9 parte integrante de uma condi\u00e7\u00e3o de hierarquiza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, perseguida de maneira implac\u00e1vel, visando um trabalho de escraviza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, ou mesmo biol\u00f3gica, de um grupo populacional sobre outro\u201d.<\/p>\n<p>Em seu entendimento, o elemento mais vis\u00edvel do racismo est\u00e1 na opress\u00e3o sistematizada de um povo. \u201cEle \u00e9 a norma desta sociedade e desta cultura que busca inferiorizar e desumanizar povos subalternizados\u201d. Em seus ensaios, Fanon afirmou que o racismo \u00e9 pr\u00f3prio de um processo de opress\u00e3o, de desumaniza\u00e7\u00e3o e de hierarquiza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica num sistema determinado. O colonialismo \u00e9 uma das formas dessa opress\u00e3o, mas n\u00e3o a \u00fanica.<\/p>\n<p>Em um trecho de seus textos, ele chegou a dizer que a opress\u00e3o militar e econ\u00f4mica precede, possibilita e legitima o racismo. Fanon aponta duas caracter\u00edsticas de racismo, a capacidade de introje\u00e7\u00e3o e naturaliza\u00e7\u00e3o, bem como, por ser funcional. Nesse caso, o racismo precisa estar sempre se remodelando. Antes justificava-se com argumentos biol\u00f3gicos. Nos tempos atuais s\u00e3o justificativas mais sofisticadas, como culturais e ou psicol\u00f3gicas atribu\u00eddas aos grupos inferiorizados \u2013 assinala o escritor.<\/p>\n<p>Fanon faz um paralelismo entre as sociedades coloniais e racista. Para ele, ambas s\u00e3o fruto de um mesmo processo de subjuga\u00e7\u00e3o de alguns grupos populacionais sobre outros. Os termos usados por ele seriam parte de um mesmo processo de domina\u00e7\u00e3o que possuiria um mesmo car\u00e1ter \u00a0estrutural, num sistema determinado, que nasce com o colonialismo, mas n\u00e3o morre com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No livro \u201cPele Negra, M\u00e1scaras Brancas\u201d (1951), do psiquiatra martiniquense Frantz Fanon, o racismo n\u00e3o \u00e9 visto como algo espec\u00edfico de certas sociedades, como costumava analisar \u00e0 \u00e9poca. Na obra, o autor examina o racismo dos franceses. 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