{"id":6374,"date":"2021-11-20T00:40:13","date_gmt":"2021-11-20T03:40:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6374"},"modified":"2021-11-20T00:40:52","modified_gmt":"2021-11-20T03:40:52","slug":"um-guerrilheiro-que-denunciou-os-esquemas-de-corrupcao-em-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/11\/20\/um-guerrilheiro-que-denunciou-os-esquemas-de-corrupcao-em-angola\/","title":{"rendered":"UM GUERRILHEIRO QUE DENUNCIOU OS ESQUEMAS DE CORRUP\u00c7\u00c3O EM ANGOLA"},"content":{"rendered":"<p>UM PA\u00cdS AFRICANO QUE \u00c9 A CARA DO BRASIL, S\u00d3 QUE NUNCA EXPERIMENTOU O SOCIALISMO. A QUEST\u00c3O EST\u00c1 NO SER HUMANO QUE \u00c9 NEFASTO, DESTRUIDOR E MAL\u00c9FICO. TUDO PELO PODER.<\/p>\n<p>As obras \u201cPredadores\u201d, \u201cO C\u00e3o e os Caluandas\u201d, \u201cA Gera\u00e7\u00e3o da Utopia\u201d e \u201cO Desejo de Kianda\u201d, de Artur Carlos Maur\u00edcio Pestana dos Santos, o Pepetela, representam uma forte carga de cr\u00edticas contra os desvios de conduta e os esquemas de corrup\u00e7\u00e3o do governo do Movimento pela Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA) quando o pa\u00eds foi emancipado por volta de 1975, e depois a partir da transi\u00e7\u00e3o do socialismo para o capitalismo.<\/p>\n<p>Quem faz coment\u00e1rios sobre Pepetela no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d \u00e9 o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, S\u00edlvio de Almeida Carvalho Filho, que mapeia toda trajet\u00f3ria de um guerrilheiro que participou da luta pela independ\u00eancia e depois se desligou do poder para se dedicar \u00e0 literatura da den\u00fancia na \u00e1rea pol\u00edtica e social contra os malfeitos do novo governo \u201csocialista\u201d que propunha dar voz aos trabalhadores e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais pobre.<\/p>\n<p>N\u00e3o abandonou seu pa\u00eds<\/p>\n<p>Pepetela, branco num pa\u00eds majoritariamente de negros, nasceu em 1941 ao sul de Angola, na cidade de Benguela, em uma fam\u00edlia pequeno-burguesa. Depois da emancipa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o abandonou sua terra como fez a maior parte dos portugueses e descendentes.<\/p>\n<p>Como assinalou o professor S\u00edlvio, sempre repudiou o racismo em Angola, como fez no livro \u201cO C\u00e3o e os Caluandas\u201d, no qual ressaltava que os cachorros, ao guardar as casas dos colonos mordiam os negros, rosnavam nos mulatos, lambiam as m\u00e3os dos brancos ou portavam o v\u00edrus do \u00f3dio ao negro, da desconfian\u00e7a ao mulato, do respeito ao branco.<\/p>\n<p>Desde cedo, o angolano se manifestou interessado pelas quest\u00f5es sociais brasileiras, especialmente pelas obras de Jorge Amado. Ainda jovem encantou-se com a leitura de um livro do anarquista Proudhhon, e depois entrou em contato com o pensamento de Marx e seus seguidores.<\/p>\n<p>Em Argel, no Centro de Estudos Angolanos, escreveu os di\u00e1logos da hist\u00f3ria em quadrinhos (primeira hist\u00f3ria em quadrinhos de Angola), intitulada \u201cContra a Escravid\u00e3o: Pela Liberdade\u201d. Publicada em 1967, a obra foi muito apreciada pelos guerrilheiros e nas escolas mantidas pelo MPLA. Em 1969, retoma sua verve liter\u00e1ria escrevendo em Argel seu primeiro livro \u201cMuana Pu\u00f3\u201d, lan\u00e7ado em 1978.<\/p>\n<p>Conforme conta S\u00edlvio de Almeida, enquanto participava da luta armada, n\u00e3o deixou de escrever romances, como \u201cMayombe\u201d, entre 1970 e 71, em Cabinda, e \u201cAs Aventuras de Ngunga\u201d, em 1972. Foi membro do Estado-Maior da Frente Centro das For\u00e7as Armadas Populares de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (FAPLA). Com uma grave hepatite, retornou a Luanda em novembro de 1975, no momento da independ\u00eancia do pa\u00eds. Recuperado, foi para Lubango dar aulas.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1983 a 2008 lecionou Sociologia Geral e a Urbana na Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Gradativamente tornou-se em o mais importante literato angolano em virtude da editora\u00e7\u00e3o de 24 livros. Al\u00e9m da sua luta no MPLA, participou tamb\u00e9m da repress\u00e3o \u00e0 Revolta Nitista, em 1977. Ele contava que, quando era crian\u00e7a lhe obrigavam ir \u00e0 missa, e agora ir \u00e0 reuni\u00e3o da c\u00e9lula do partido.<\/p>\n<p>Como disse o professor S\u00edlvio, ao longo da sua vida, passou a perceber que a maior parte da cr\u00edtica na agremia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, muitas vezes, quando atingia as c\u00fapulas do poder, acomodava-se \u00e0 linha oficialmente estabelecida, sem rupturas. Afastou-se do partido, e um dos motivos foi a consolida\u00e7\u00e3o de um novo staff no poder, ligado ao novo presidente Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, mais afeito \u00e0 sociedade de mercado.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico Silvio de Almeida afirma que sua literatura confirma que o MPLA, frente \u00e0s amea\u00e7as externas e internas, constituiu num regime autorit\u00e1rio, tornando-se um Partido-Estado, concentrando todo poder em sua m\u00e3o. \u201cEssa capacidade de cr\u00edtica \u00e0s pr\u00e1ticas sociais e pol\u00edticas angolanas encontrava-se presente em \u201cO C\u00e3o e as Caluandas\u201d (1978\/84)&#8230; Com o abandono dos ideais socialistas pela c\u00fapula governamental e com a cont\u00ednua expans\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o e do autoritarismo, seu ju\u00edzo vai se tornando mais mordaz, como se expressa nos livros \u201cA Gera\u00e7\u00e3o da Utopia\u201d (1992), \u201cO Desejo de Kianda\u201d (1995) e \u201cPredadores\u201d (2005).<\/p>\n<p>Ainda um guerrilheiro, em 1969, Pepetela dizia que a rebeldia supunha realizar transforma\u00e7\u00f5es profundas das estruturas econ\u00f4micas e sociais para formar o homem novo. Supunha um governo dos trabalhadores que conduziria o Estado: \u201cQue maravilhoso ser\u00e1 o mundo quando os que constroem, comandarem!\u201d.<\/p>\n<p>No enredo de \u201cYaka\u201d, escrito em 1983, atrav\u00e9s de um personagem contestador, asseverava que \u201ca propriedade suja, emporcalhada, torna os homens piores que bichos. A propriedade \u00e9 o roubo, afirmava Proudhon, \u00e9 isso. Mas \u00e9 mais. Basta a miragem da propriedade para um homem decente se tornar prepotente, um tirano. Ou ainda: O mal era a propriedade(&#8230;) mesmo pequena torna o indiv\u00edduo escravo dela\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1970, destacava que certos quadros do MPLA aplicavam uma s\u00e9rie de r\u00f3tulos \u00e0queles que n\u00e3o tinham exatamente a mesma opini\u00e3o. Esse rotulismo, segundo ele, era resultado duma pregui\u00e7a intelectual&#8230; ou falta de cultura, predominante em v\u00e1rios guerrilheiros. Dez anos ap\u00f3s a independ\u00eancia, em \u201cO C\u00e3o e os Caluandas\u201d escrevia em tom ir\u00f4nico que o Estado angolano, ao se declarar \u201csocialista\u201d utilizou essa qualifica\u00e7\u00e3o de forma leviana nos discursos&#8230;<\/p>\n<p>Pepetela observava em seus textos que a propaganda ideol\u00f3gica homogeneizava enunciados de forma superficial, n\u00e3o estimulando um pensamento socialista aut\u00eantico e criativo, sendo um desservi\u00e7o \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o realmente prolet\u00e1ria. Ele denunciava os fingimentos das falas, mais preocupadas com r\u00f3tulos socializantes do que com o seu conte\u00fado, demonstrando o reverso do prescrito pelo ideal marxista.<\/p>\n<p>O intelectual angolano criticava certos militantes que se preocupavam apenas em tirar proveito escuso das mudan\u00e7as pol\u00edticas quando da Retifica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Em muitos locais houve jogos sujos, pr\u00f3prios da luta pelo poder, mesmo o mais pequeno poder. Denunciava que houve subordinados que aprovaram um chefe incapaz para n\u00e3o serem depois exigidos nos seus servi\u00e7os. Dizia que os oportunistas conseguiram durante a Retifica\u00e7\u00e3o obter o cart\u00e3o de membro do partido para auferirem vantagens e privil\u00e9gios no aparelho do Estado.<\/p>\n<p>Textos liter\u00e1rios em jornais denunciavam que muitos que compactuaram com o capitalismo, e mesmo com a repress\u00e3o colonial, adotaram o discurso revolucion\u00e1rio, ingressando no governo com intuito de se manter no poder e angariar prest\u00edgio social. Muitos burocratas foram denunciados como revolucion\u00e1rios de \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Em os \u201cPredadores\u201d, comentava que alguns estavam mais interessados em se apossar dos bens deixados pelos portugueses em fuga do pa\u00eds do que preocupados com a implanta\u00e7\u00e3o do socialismo. Pepetela satirizou aqueles que, n\u00e3o tendo uma participa\u00e7\u00e3o na luta pela independ\u00eancia, inventavam um codinome revolucion\u00e1rio s\u00f3 para ter prest\u00edgio pol\u00edtico, caso de Vladimiro Caposso em uma de suas obras.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ferrenha \u00e0 inefici\u00eancia da burocracia apareceu em \u201cO C\u00e3o e os Caluandas\u201d, repetida tamb\u00e9m em \u201cO Desejo de Kianda\u201d. Afirmava que o funcionalismo estatal n\u00e3o trabalhava o bastante e desperdi\u00e7ava meios e mobilizava estruturas por pequenas quest\u00f5es do dia a dia. Confrontava os excessos de reuni\u00f5es e de discursos. Era o mal da \u201creunite\u201d. \u201cO poder burocr\u00e1tico era invis\u00edvel, por\u00e9m poderoso e autorit\u00e1rio. As pr\u00e1ticas burocr\u00e1ticas geravam uma rejei\u00e7\u00e3o popular n\u00e3o apenas aos burocratas, mas ao \u201csocialismo\u201d tal como se institu\u00eda\u201d.<\/p>\n<p>O escritor nunca poupou aqueles que dentro do MPLA se aburguesaram. Em 1977, o pr\u00f3prio Comit\u00ea Central admitiu que setores da pequena burguesia, aproveitando-se da falta de quadros dentro do Movimento, tentavam aumentar seus privil\u00e9gios apoderando-se dos cargos de lideran\u00e7a no aparelho estatal. Existia, na verdade, uma mera troca de senhores.<\/p>\n<p>Entre 1978 e 1984, Pepetela condenava a ostenta\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios peculiares ao colonialismo por parte de autoridades nacionais e de diretores de f\u00e1bricas estatais, assim como regalias no setor habitacional, usufru\u00eddas por altos funcion\u00e1rios partid\u00e1rios. Havia uma corrup\u00e7\u00e3o generalizada que contaminou toda camada social.<\/p>\n<p>Deplorou o patrimonialismo e o clientelismo angolano, quando a burocracia, atrav\u00e9s de pistol\u00f5es, reservava para si os bens escassos numa sociedade subdesenvolvida e sofrida pelos efeitos da guerra. Denunciou a obten\u00e7\u00e3o de cargos p\u00fablicos, n\u00e3o pela compet\u00eancia, mas por meio de afinidades pessoais com os l\u00edderes pol\u00edticos. Declarava que o Estado foi capturado por uma burocracia corrupta que n\u00e3o concorria para uma boa gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Mesmo com a transi\u00e7\u00e3o do \u201csocialismo\u201d para uma economia liberal de mercado, iniciada em 1985, e do abandono formal do marxismo-leninismo no Terceiro Congresso do MPLA, em 1991, toda sujeira se perpetuou no governo, conforme relata Pepetela em seus livros. Angola foi classificada por organismos internacionais com um dos pa\u00edses mais corruptos da \u00c1frica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UM PA\u00cdS AFRICANO QUE \u00c9 A CARA DO BRASIL, S\u00d3 QUE NUNCA EXPERIMENTOU O SOCIALISMO. A QUEST\u00c3O EST\u00c1 NO SER HUMANO QUE \u00c9 NEFASTO, DESTRUIDOR E MAL\u00c9FICO. TUDO PELO PODER. 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