{"id":6295,"date":"2021-11-06T00:51:04","date_gmt":"2021-11-06T03:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6295"},"modified":"2021-11-06T00:51:18","modified_gmt":"2021-11-06T03:51:18","slug":"a-trajetoria-de-um-intelectual-africano-que-critica-e-desafia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/11\/06\/a-trajetoria-de-um-intelectual-africano-que-critica-e-desafia\/","title":{"rendered":"A TRAJET\u00d3RIA DE UM INTELECTUAL AFRICANO QUE CRITICA E DESAFIA"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEstamos deixando de ler (legere-escolher) no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objetos de apelos que nos convertem em n\u00fameros, em estat\u00edsticas de mercado\u201d. S\u00e3o palavras do mo\u00e7ambicano Ant\u00f4nio Em\u00edlio Leite Couto (Mia Couto), no 16\u00ba Congresso de Leitura do Brasil, em 2007 \u2013 Campinas.<\/p>\n<p>Quem fala dele no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d \u00e9 T\u00e2nia Macedo, professora de Literaturas Africanas. Ela afirma que Mia Couto foi um intelectual que viveu sob o colonialismo, acompanhou e atuou na transi\u00e7\u00e3o e na independ\u00eancia de seu pa\u00eds e mant\u00e9m uma atitude cr\u00edtica em toda sua trajet\u00f3ria art\u00edstica.<\/p>\n<p>Estudou medicina, foi jornalista, pol\u00edtico e escritor. Com o tempo, deixou a pol\u00edtica para abra\u00e7ar a literatura, sem nunca deixar de criticar os donos do poder e, atrav\u00e9s do seu trabalho, procurou avivar a consci\u00eancia de seus compatriotas para seu papel de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nascido no per\u00edodo colonial (1955), de ascend\u00eancia portuguesa, como lembra T\u00e2nia Macedo, o intelectual mo\u00e7ambicano viveu a Europa dentro de casa e a \u00c1frica na rua com seus colegas negros na cidade de Beira, onde passou a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Couto abandonou o curso de medicina para dedicar-se \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em 1974 era um jornalista estagi\u00e1rio num vespertino, em Maputo. Militou em grupos clandestinos de apoio \u00e0 Frente de Liberta\u00e7\u00e3o. Lutou para a extin\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o colonial ao integrar-se \u00e0 fileiras da Frelimo (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa tarefa, a partir de 1979 e at\u00e9 1981 foi diretor da revista semanal Tempo e, posteriormente, do jornal Not\u00edcias de Maputo (1981\/85. A revista, da qual era diretor, n\u00e3o deixou de expressar fissuras nos discursos hegem\u00f4nicos do partido Frelimo. Na se\u00e7\u00e3o de cartas, s\u00e3o mostradas as quest\u00f5es do cotidiano do povo se chocando contra o discurso do partido.<\/p>\n<p>Em uma entrevista, quando abandonou a milit\u00e2ncia, Mia Couto apontou que aconteceram coisas que lhe traumatizaram, como amigos que foram presos, como Carlos Cardoso. \u201cNos tornamos v\u00edtimas do poder que defendemos. O que era traum\u00e1tico era a falta de l\u00f3gica disso tudo\u201d. Ao abrir uma nova etapa em sua vida, Couto escreve \u201cRaiz de Orvalho\u201d, seu primeiro livro publicado em 1983.<\/p>\n<p>De acordo com T\u00e0nia Macedo, \u00e9 na prosa que Mia Couto torna-se conhecido internacionalmente. \u201cEm seus romances e contos temos o intelectual africano engajado em quest\u00f5es como a nacionalidade, a devasta\u00e7\u00e3o da guerra e a den\u00fancia das condi\u00e7\u00f5es do subalterno, sobretudo as mulheres, os velhos e as crian\u00e7as que se transformaram em temas centrais em sua fic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cA Varanda do Frangipani\u201d (1996), Couto trata da tens\u00e3o entre a tradi\u00e7\u00e3o e os novos tempos. No \u201cO \u00daltimo Voo do Flamingo\u201d (2000) escreve sobre o absurdo da presen\u00e7a dos capacetes azuis da ONU em territ\u00f3rios africanos, especialmente Mo\u00e7ambique. Em \u201cA Confiss\u00e3o da Leoa\u201d (2012) fala sobre a opress\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>\u201cPode-se afirmar que a maneira po\u00e9tica de abordar a dolorosa realidade mo\u00e7ambicana \u00e9 um dos tra\u00e7os da escrita de Mia Couto e estava presente na primeira narrativa do autor \u201cTerra Son\u00e2mbula\u201d (1992)\u201d. A obra faz um relato da guerra entre a Renamo (Resist\u00eancia Nacional Mo\u00e7ambicana) e o governo da Frelimo, com cr\u00edticas \u00e0s autoridades do governo e a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre as cren\u00e7as ancestrais e a moderniza\u00e7\u00e3o dos costumes.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Mia Couto, segundo T\u00e2nia, n\u00e3o afasta o papel do intelectual africano participante, ou seja, daquele que reflete, discute e atua sobre as quest\u00f5es que percorrem a vida de seu pa\u00eds, como as formas de inscri\u00e7\u00e3o do poder. Em 2003 surpreende seu p\u00fablico com o volume \u201cO Pa\u00eds do Queixa Andar\u201d ao reunir em livro 53 das cr\u00f4nicas publicadas na imprensa durante os anos de 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Nesses textos, \u201cA Porta\u201d, com a f\u00f3rmula \u201cera uma vez\u201d, ele faz um relato sobre o porteiro que s\u00f3 deixa passar pela porta o estrangeiro com a carteira recheada de dinheiro. \u201cEnquanto a quest\u00e3o das etnias, das cores e origens dos mo\u00e7ambicanos foram fatores de divis\u00e3o sobre a nacionalidade, o pa\u00eds estar\u00e1 exposto \u00e0 voracidade estrangeira\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cE se Obama Fosse Africano\u201d? Mia Couto coloca em discuss\u00e3o os problemas mo\u00e7ambicanos e africanos, como em \u201cOs Sete Sapatos Sujos\u201d. Ele prop\u00f5e falar do futuro de Mo\u00e7ambique fazendo uma esp\u00e9cie de balan\u00e7o de atitudes negativas e como a sua erradica\u00e7\u00e3o propiciaria a entrada para a modernidade. Esses sapatos sujos devem ser deixados na soleira da porta dos tempos novos.<\/p>\n<p>Mia Couta destaca em \u201cE se Obama Fosse Africano\u201d? Mia Couta levanta a hip\u00f3tese sobre o que ocorreria se Obama fosse candidato a presidente em um pa\u00eds africano. Ele diz que seria deflagrada a den\u00fancia do autoritarismo e da trucul\u00eancia das elites do continente. Deixa claro que todos os entraves a um Obama africano n\u00e3o seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governa\u00e7\u00e3o fonte de enriquecimento sem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>Se ganhasse as elei\u00e7\u00f5es, Obama teria que sentar-se \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que em certos pa\u00edses africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado \u2013 a vontade do povo expressa nos votos.<\/p>\n<p>Mia Couto defende que o texto liter\u00e1rio deve estar a servi\u00e7o dos direitos humanos e da democracia. Nesse aspecto ele se aproxima do nigeriano Wole Soyinka quando em Cuba, no ano de 2001, disse que s\u00f3 existem duas categorias de cultura: a que lisonjeia e sustenta o poder e a cultura herege, que critica e desafia. No entanto, muitos intelectuais africanos se submergiram ao afropessimismo, ou escolheram o caminho da di\u00e1spora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEstamos deixando de ler (legere-escolher) no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objetos de apelos que nos convertem em n\u00fameros, em estat\u00edsticas de mercado\u201d. S\u00e3o palavras do mo\u00e7ambicano Ant\u00f4nio Em\u00edlio Leite Couto (Mia Couto), no 16\u00ba Congresso de Leitura do Brasil, em 2007 \u2013 Campinas. 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