{"id":6275,"date":"2021-10-29T23:49:30","date_gmt":"2021-10-30T02:49:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6275"},"modified":"2021-10-29T23:49:41","modified_gmt":"2021-10-30T02:49:41","slug":"o-angolano-que-extraiu-do-povo-sua-producao-literaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/29\/o-angolano-que-extraiu-do-povo-sua-producao-literaria\/","title":{"rendered":"O ANGOLANO QUE EXTRAIU DO POVO SUA PRODU\u00c7\u00c3O LITER\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p>Uanhenga Xitu, escrito por Washington Santos Nascimento, no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, escutou as tradi\u00e7\u00f5es e costumes de seu povo para dele fazer sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, uma mistura da cultura colonial europeia com o nativo. Em suas obras, consideradas oraturas, procurou angolanizar a literatura, tendo como base o Kimbundu da regi\u00e3o de Icolo-Bengo.<\/p>\n<p>Foi um intelectual que falou para o povo, como os escritores Ant\u00f4nio Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, dentre outros que procuraram visar a valoriza\u00e7\u00e3o da sociedade e da hist\u00f3ria nativa, ou como eles mesmos disseram, \u201cangolizar\u201d Angola. Eles denunciaram as rela\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias e violentas da Angola colonial.<\/p>\n<p>Xitu nasceu em 24 de agosto de 1924, em Calomboloca a 100 quil\u00f4metros da capital Luanda, por ele chamada de \u201cManana\u201d. Faleceu em 2014 depois de ter transitado em outros pa\u00edses como Fran\u00e7a, Portugal, Alemanha e tamb\u00e9m no Brasil. Al\u00e9m dos portugueses, a regi\u00e3o onde nasceu foi marcada pela presen\u00e7a de mission\u00e1rios metodistas estrangeiros, sobretudo norte-americanos.<\/p>\n<p>Washington afirma que o impacto das miss\u00f5es n\u00e3o limitou apenas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de centros religioso, convers\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para as l\u00ednguas africanas, mas tamb\u00e9m criaram planta\u00e7\u00f5es de novos produtos agr\u00edcolas, ensinaram of\u00edcios e promoveram a alfabetiza\u00e7\u00e3o do tipo colonial.<\/p>\n<p>Em Angola, as estradas de ferro (linha Benguela) foram elementos essenciais de coloniza\u00e7\u00e3o e penetra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica portuguesa no interior que permitiram o desenvolvimento das cidades de Malange, Nova Lisboa, Silva Porto e S\u00e1 de Bandeira, bem como dos portos de Lobito e Mo\u00e7amedes.<\/p>\n<p>Como seu primo Adriano Sebasti\u00e3o, desde cedo Xitu passou a estudar nas escolas mission\u00e1rias metodistas da regi\u00e3o, segundo ele, por serem mais acolhedoras e se preocuparem com a escolariza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais, mais que as miss\u00f5es cat\u00f3licas.<\/p>\n<p>Ressalta Washington que a percep\u00e7\u00e3o de uma realidade segregadora provocada pelas a\u00e7\u00f5es do colonialismo portugu\u00eas, incentivou Xitu a entrar na resist\u00eancia, mesmo tendo uma situa\u00e7\u00e3o social melhor que a maioria da popula\u00e7\u00e3o. \u201cMe meti na pol\u00edtica por causa da crueldade do colonialismo\u201d. Com a Pol\u00edcia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), entre 1945-1969, a viol\u00eancia era norma na capital praticada pelos delegados de postos.<\/p>\n<p>Em Luanda, Xitu foi preso no dia 29 de mar\u00e7o de 1959 pela PIDE acusado de participar de atividades pol\u00edticas consideradas subversivas e atentat\u00f3rias \u00e0 integridade do regime colonial. Fez parte do chamado \u201cprocesso dos 50\u201d. Na \u00e9poca estava casado e contava com 11 filhos. A sobreviv\u00eancia de sua esposa teve a ajuda de alguns portugueses progressistas membros das igrejas cat\u00f3lica e protestante.<\/p>\n<p>Cumpriu parte de sua pena na pris\u00e3o do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1962-1970. Foi membro do Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA). Ele se considerava um \u201cmais velho\u201d que propriamente escritor. Disse que, cada um de n\u00f3s, \u201cos mais velhos\u201d, resume em si a mem\u00f3ria de centenas de anos.<\/p>\n<p>Xitu come\u00e7ou a escrever em 1945, com 21 anos de idade, mas somente em 1974 conseguiu editar suas primeiras obras, mesmo n\u00e3o sendo um profissional, destacando O Meu Discurso (1974), Mestre Tomada, Bola com Feiti\u00e7o, Manana, Vozes na Zenzala, Maka na Zenzala, Discursos do Mestre Tomada, O Ministro e tantos outros, contribuindo para o processo de angolaniza\u00e7\u00e3o da literatura.<\/p>\n<p>Fora O Ministro, o tempo que aparece em suas obras \u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XX at\u00e9 o in\u00edcio da luta pela independ\u00eancia (1960). Ele preferiu fazer uma an\u00e1lise pol\u00edtica da opress\u00e3o colonial a partir de fatos paralelos. Gostava de dizer que n\u00e3o era um escritor, mas um \u201capanhador\u201d de dados, ouvindo o povo.<\/p>\n<p>De acordo com Washington, seus trabalhos nunca tiveram a pureza da l\u00edngua ou todas as categorias gramaticais do c\u00e2none europeu. Pertencia a uma linhagem antiga de escritur\u00e1rios da senzala&#8230; Leu muito Camilo Castelo Branco, J\u00falio Dinis e E\u00e7a de Queir\u00f3s.<\/p>\n<p>Na cadeia, escreveu muitos livros e dizia que a escrita servia para por suas ideias em ordem, fiel do meu longo cativeiro. Afirmava que, quando estava na pris\u00e3o pensava nos tempos da sua terra, \u201cnaquilo que eu tinha vivido e naquilo que eu tinha escutado da boca dos meus mais velhos\u201d.<\/p>\n<p>Suas obras, segundo ainda Washington, podem ser consideradas como oraturas (literatura oral), produto de um acervo de hist\u00f3rias trazidas da tradi\u00e7\u00e3o oral e registradas sob a forma de escrita. Na apresenta\u00e7\u00e3o de Manana, ele diz que aquele livr\u00e1rio n\u00e3o teria portugu\u00eas caro, n\u00e3o. Portugu\u00eas do liceu, n\u00e3o. Do Dr., n\u00e3o. Do funcion\u00e1rio, n\u00e3o. De escrit\u00f3rio, n\u00e3o. S\u00f3 tem mesmo portugu\u00eas d\u00b4agente, l\u00e1 do bairro, l\u00e1 da senzala, l\u00e1 do quimbo (kimbundu).<\/p>\n<p>Em seus livros existem uma diversidade de temas, mas o principal eixo \u00e9 o tr\u00e2nsito entre a ancestralidade e a modernidade, o rural e o urbano, como em Mestre Tomada, seu trabalho mais conhecido. Al\u00e9m da sua cr\u00edtica \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o colonial, ele denunciava o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o social, exemplo de Os Discursos do Mestre Tomada.<\/p>\n<p>Xitu passava a mensagem de que uma nova Luanda (e Angola), mais justa e democr\u00e1tica deveria ser constru\u00edda pela juventude, a partir da uni\u00e3o entre brancos e negros, urbanos e rurais. Em Mungo, denuncia as rela\u00e7\u00f5es de trabalho extremamente prec\u00e1rias e violentas da Angola colonial. Em O Ministro, faz duras cr\u00edticas aos pol\u00edticos aduladores que se afastam do povo.<\/p>\n<p>O escritor foi tamb\u00e9m um dos principais pesquisadores angolanos a investigar as divindades religiosas tradicionais, sobretudo as ligadas aos kimbundus (Quimbundos)\u00a0 Kimbanda (Quimbanda) era outro personagem dos seus escritos, respons\u00e1vel pelo processo de cura. \u00a0Em seus livros descreve os g\u00eanios da natureza, como as kiandas, kiximbi e kitutas. Um dia perguntaram a ele se acreditava em feiti\u00e7o. Respondeu que n\u00e3o, mas acreditava nas pessoas que acreditavam em feiti\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uanhenga Xitu, escrito por Washington Santos Nascimento, no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, escutou as tradi\u00e7\u00f5es e costumes de seu povo para dele fazer sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, uma mistura da cultura colonial europeia com o nativo. Em suas obras, consideradas oraturas, procurou angolanizar a literatura, tendo como base o Kimbundu da regi\u00e3o de Icolo-Bengo. 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