{"id":6257,"date":"2021-10-23T00:16:34","date_gmt":"2021-10-23T03:16:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6257"},"modified":"2021-10-23T00:16:46","modified_gmt":"2021-10-23T03:16:46","slug":"as-culturas-ocidental-e-nativa-na-visao-do-intelectual-soyinka","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/23\/as-culturas-ocidental-e-nativa-na-visao-do-intelectual-soyinka\/","title":{"rendered":"AS CULTURAS OCIDENTAL E NATIVA NA VIS\u00c3O DO INTELECTUAL SOYINKA"},"content":{"rendered":"<p>No livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, no cap\u00edtulo em que a professora Divanize Carbonieri fala do nigeriano Wole Soyinka, s\u00e3o comentadas duas obras importantes do africano, o romance The Interpreters e a pe\u00e7a A Dance of the Forests que tratam do passado ancestral do per\u00edodo colonial e do presente representado na p\u00f3s-independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Seus personagens do presente, na verdade, viveram num passado onde cometeram crimes e erros que agora refletem numa Nig\u00e9ria emancipada, cujas elites negras s\u00e3o t\u00e3o ou mais nefastas que os colonizadores. Os personagens do agora precisam se redimir de seus pecados para que haja uma renova\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O romance The Interpreters (1965) se desenrola em torno de um grupo de jovens intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos e agora atuam em cidades de seu pa\u00eds natal.<\/p>\n<p>Eles desempenham a fun\u00e7\u00e3o de interpretes entre a cultura ocidental, que assimilaram em sua educa\u00e7\u00e3o, e a cultura nativa africana. Como explica Divanize, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o marcada por niilismo e decep\u00e7\u00e3o. A desilus\u00e3o se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elite nativa que chegou ao poder ap\u00f3s a descoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e que se revelou pior que os antigos colonizadores.<\/p>\n<p>O romance descreve narrativas que questionam as consequ\u00eancias do colonialismo, mas tamb\u00e9m os resultados dos movimentos nativos de resist\u00eancia depois que eles chegaram ao poder. N\u00e3o parece existir nenhuma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e pronta para a Nig\u00e9ria, conforme narrativas dos personagens do romance. Eles s\u00e3o tomados por d\u00favidas e incertezas.<\/p>\n<p>O nacionalismo que havia alimentado protagonistas de acontecimentos anteriores, agora se tornou problem\u00e1tico, porque n\u00e3o respondeu \u00e0s expectativas dos africanos. Casos de corrup\u00e7\u00e3o, golpes, guerras \u00e9tnicas, desmandos e estabelecimento de regimes ditatoriais foram alguns dos feitos dos governantes nativos que haviam lutado sob a bandeira da unifica\u00e7\u00e3o nacional e se beneficiado de seus resultados.<\/p>\n<p>No livro, os deuses ou os orix\u00e1s iorubas, s\u00e3o retratados atrav\u00e9s de seus personagens, como na pintura que Kola produz sobre eles, como modelos para dar forma humana a essas entidades divinas. No romance, Soyinka entra no aspecto da apostasia do artista que procura se afastar de uma sociedade corrompida, a qual n\u00e3o tem mais esperan\u00e7a de reformar. No entanto, ele ensina que \u201co artista n\u00e3o deve paralisar suas a\u00e7\u00f5es pelo medo de ser punido pelas for\u00e7as restritivas e autorit\u00e1rias de sua sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Os protagonistas de Soyinka s\u00e3o homens para quem um retorno completo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel nem desej\u00e1vel, pois eles t\u00eam a miss\u00e3o de sair da in\u00e9rcia e construir, na Nig\u00e9ria, uma nova moderna na\u00e7\u00e3o. Entre os deuses orix\u00e1s do universo ioruba, Soyinka prefere Ogum que, mesmo errando, quando foi embebedado por Exu, se arrisca para conseguir a autorrealiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Spyinka, foi a \u00fanica divindade que buscou o caminho do conhecimento e utilizou os recursos da ci\u00eancia para abrir uma passagem atrav\u00e9s do caos primordial para a reuni\u00e3o dos deuses com o homem. Ogum pode ser entendido como um artista porque ele \u00e9 o primeiro ferreiro, o primeiro a forjar suas armas a partir do metal. Ele representa o esp\u00edrito criativo da humanidade.<\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o de Soyinka, Oxal\u00e1 apresenta as qualidades de acomoda\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e da sociedade como um todo. Em Ogum, ele enxerga a energia de a\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que as sociedades sejam transformadas e avancem para seu progresso.<\/p>\n<p>Na pe\u00e7a \u201cA Dance of the Forests\u201d, escrita para celebrar a independ\u00eancia da Nig\u00e9ria, em 1960, a figura do deus Ogum surge novamente para dar forma \u00e0 vis\u00e3o m\u00edtica, est\u00e9tica e pol\u00edtica de Soyinka. Tamb\u00e9m a obra est\u00e1 marcada pela decep\u00e7\u00e3o. O que deveria ser euforia pela independ\u00eancia, o que existe \u00e9 uma \u00eanfase na amarga reavalia\u00e7\u00e3o do passado e de suas continuidades no presente.<\/p>\n<p>Seu car\u00e1ter de desilus\u00e3o se d\u00e1 pela constata\u00e7\u00e3o de que os erros cometidos no passado pela coletividade n\u00e3o serviram de li\u00e7\u00f5es para que o presente da jovem na\u00e7\u00e3o nigeriana fosse mais acertado. O fim da domina\u00e7\u00e3o estrangeira n\u00e3o significa necessariamente que as coisas ser\u00e3o melhores porque os pr\u00f3prios africanos t\u00eam que se haver com a responsabilidade de suas falhas no passado para construir uma realidade mais justa na atualidade.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio da pe\u00e7a \u00e9 uma cidade ioruba que, em s\u00e9culos passados foi governada pelo imperador Mata Kharibu. Um grupo de pessoas invoca a presen\u00e7a de seus ancestrais para fazer parte da Reuni\u00e3o de Todas as Tribos.<\/p>\n<p>Eles esperavam que o Rei da Floresta lhes enviasse figuras \u00e9ticas e de moral que tivessem realizado grandes feitos quando eram vivos. No entanto, o Rei da Floresta manda esp\u00edritos perturbados, v\u00edtimas desse passado glorioso que retornam para confrontar os descendentes de seus malfeitores.<\/p>\n<p>Na cultura ioruba, os vivos s\u00e3o reencarna\u00e7\u00f5es de seus ancestrais. Feitos grandiosos no passado refletem uma vida dignificada no presente. O oposto tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro. Os personagens dos mortos tentam se aproximar dos vivos que lhes fizeram mal em vidas passadas, visando buscar ajuda para obter a repara\u00e7\u00e3o pelo seu sofrimento. Os vivos n\u00e3o est\u00e3o dispostos a dar ouvidos aos ancestrais. Os protagonistas da pe\u00e7a cometem malfeitos no presente, repetindo os mesmos erros do passado. Vida e morte, constru\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o s\u00e3o os temas que est\u00e3o na base da pe\u00e7a de Soyinka.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, no cap\u00edtulo em que a professora Divanize Carbonieri fala do nigeriano Wole Soyinka, s\u00e3o comentadas duas obras importantes do africano, o romance The Interpreters e a pe\u00e7a A Dance of the Forests que tratam do passado ancestral do per\u00edodo colonial e do presente representado na p\u00f3s-independ\u00eancia. 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