{"id":6240,"date":"2021-10-20T22:08:09","date_gmt":"2021-10-21T01:08:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6240"},"modified":"2021-10-20T22:08:44","modified_gmt":"2021-10-21T01:08:44","slug":"o-sal-e-a-desertificacao-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/20\/o-sal-e-a-desertificacao-do-nordeste\/","title":{"rendered":"O SAL E A DESERTIFICA\u00c7\u00c3O DO NORDESTE"},"content":{"rendered":"<p>Fotos do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio<a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2524.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6241\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2524.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2524.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2524-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O sertanejo ainda esperan\u00e7oso e crente em n\u00e3o desistir da luta, porque, antes de tudo, \u00e9 um forte, como dizia Euclides da Cunha, mete a m\u00e3o na terra e removendo-a entre os dedos, com a voz embargada, diz, meu filho, essa aqui j\u00e1 est\u00e1 morta pelo sal. N\u00e3o serve mais para plantar. Ao seu redor ainda tem algum peda\u00e7o que com a chuva ainda produz alguma coisa acanhada de milho, feij\u00e3o, ab\u00f3bora e o andu.<\/p>\n<p>A seca secular, ou mesmo milenar, de muitas hist\u00f3rias de fome, de meninos mirrados de p\u00e9s no ch\u00e3o, dos natimortos e dos retirantes para o sul, narrada e decantada pela imprensa, trovadores, repentistas e cancioneiros ainda persiste nas promessas dos governantes pol\u00edticos desde o Brasil Colonial e Imperial. Sempre se pregou que \u00e9 poss\u00edvel conviver com ela, mas tudo se esbarra nos projetos e pol\u00edticas p\u00fablicas de melhoria da vida desse homem, os quais nunca se concretizaram.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2528.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6242\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2528.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2528.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2528-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Autores em seus romances, poetas e cantadores, como Raquel de Queiroz, em \u201cO 13\u201d, Graciliano Ramos, em \u201cVidas Secas\u201d, Ariano Suassuna com seu \u201cAuto da Compadecida\u201d, Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto, em \u201cVida Severina\u201d, Z\u00e9 Ramalho, Geraldo Vandr\u00e9, Elomar, Xangai, Glauber Rocha com seu cinema de canga\u00e7o e tantos outros retrataram essa \u00e1rida sisuda do inclemente rei Sol que impede as sementes de germinarem ou queima o pasto e a lavoura.<\/p>\n<p>O nordestino acredita em mudar seu destino, mas s\u00f3 recebe esmolas e alguns carros-pipas para matar a sua sede e a dos seus animais. Continua trabalhando na terra cansada que est\u00e1 virando deserto e sal. Para piorar, as carvoarias dos gananciosos escravizam seu povo e deixam um rastro de destrui\u00e7\u00e3o na caatinga.\u00a0 Ao inv\u00e9s de \u00e1gua e ajuda para o plantio de sua subsist\u00eancia, recebe sal e amargura. Uns ficam, mas muitos j\u00e1 foram embora para outras paragens.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2539.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6243\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2539.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2539.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2539-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao longo dos tempos, de mais de 500 anos, as secas cruentas, cada uma pior que outra, est\u00e3o registradas em livros, manchetes de jornais e reportagens de TV. Al\u00e9m das estiagens de rachar a terra, os nordestinos ainda foram v\u00edtimas dos coron\u00e9is que tomaram e invadiram suas propriedades com seus jagun\u00e7os de fuzis nas m\u00e3os. As volantes e o canga\u00e7o praticaram suas viol\u00eancias, roubando e estuprando suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Na maior parte do tempo, a paisagem \u00e9 cinzenta entre os enga\u00e7os e baga\u00e7os de espinhos das juremas. Quando batem as \u00e1guas, o colorido faz renovar as almas, mas \u00e9 por pouco tempo. Logo entra outra temporada de aridez anunciando a desertifica\u00e7\u00e3o do Nordeste. A ca\u00e7a que ainda enganava o est\u00f4mago por uns tempos, n\u00e3o existe mais. Nem se ouve mais o canto da juriti, da nambu no final da tarde e nem o piar da perdiz. S\u00f3 o sereno fino faz o orvalho da manh\u00e3. \u00c9 um aviso de que mais cedo ou mais tarde o sertanejo, com l\u00e1grimas nos olhos, tem que bater em retirada do seu torr\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2548.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6244\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2548.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2548.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2548-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>As narra\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas quase todos os anos, como agora na Bahia onde mais de 100 munic\u00edpios (mais de um milh\u00e3o de pessoas) vivem em estado de emerg\u00eancia, mesmo os que se situam pr\u00f3ximos do Rio S\u00e3o Francisco, o \u201cVelho Chico\u201d, outro castigado pela destrui\u00e7\u00e3o humana, que pode desaparecer ou virar sal (sua foz j\u00e1 \u00e9 salgada). Nas estradas poeirentas ainda corta algum carro-pipa \u2013 a ind\u00fastria da seca e do voto \u2013 que coloca um pouco d\u00b4\u00e1gua em uma ou outra cisterna vazia, mas s\u00f3 poucos s\u00e3o contemplados.<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco foi mais uma ilus\u00e3o perdida no horizonte da pol\u00edtica enganosa. A corrup\u00e7\u00e3o corroeu boa parte das obras em rachaduras e ferrugens. Os canais correm solit\u00e1rios na sequid\u00e3o, e a poucos quil\u00f4metros dali, como em Remanso, s\u00f3 se v\u00ea lata d\u00b4\u00e1gua na cabe\u00e7a, ou crian\u00e7as e mulheres tocando jumentos com carotes e em carro\u00e7as para tentar pegar o precioso l\u00edquido em algum lugar distante.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2564.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6245\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2564.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2564.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2564-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a> \u00a0Como uma piada c\u00ednica de mau gosto, o Governo da Bahia anuncia mais um projeto de transposi\u00e7\u00e3o do \u201cVelho Chico\u201d at\u00e9 a Bacia do Rio Paragua\u00e7u, outro em estado terminal, passando por S\u00e3o Jos\u00e9 do Jacu\u00edpe e outros munic\u00edpios. \u00c9 mais um daqueles programas para ingl\u00eas ver. H\u00e1 muitos anos j\u00e1 ouvi falar nessa \u00e1gua do Salitre (Juazeiro) at\u00e9 S\u00e3o Jos\u00e9 do Jacu\u00edpe. Agora resolveram dar mais uma riscada no mapa de papel amarrotado e sujo de mentiras.<\/p>\n<p>Os homens da tecnologia e da pol\u00edtica prometem que a obra estar\u00e1 conclu\u00edda em dez anos. Talvez meu neto de um ano nem chegue a ver esse canal chegar at\u00e9 a Barragem Pedra do Cavalo. Aqui em Vit\u00f3ria da Conquista, h\u00e1 mais de 15 anos est\u00e3o para construir uma barragem para abastecer em definitivo a cidade. Ainda tem gente que acredita nessa lorota eleitoral.<\/p>\n<p>Por falar no Paragua\u00e7u, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema) vai reduzir em 50% os volumes outorgados em toda sua bacia, mantendo apenas as licen\u00e7as para o consumo humano. A Barragem Pedra do Cavalo est\u00e1 com 28% da sua capacidade de armazenamento contra mais de 50% em outubro do ano passado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2571.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6246\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2571.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2571.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_2571-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Rio Utinga, um dos afluentes do Paragua\u00e7u (nasce em Barra da Estiva e corta 86 munic\u00edpios), est\u00e1 mais seco outra vez e num cen\u00e1rio bem pior que nos outros anos. \u201cA situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dif\u00edcil para n\u00f3s. Na ro\u00e7a perdemos tudo e os bichos est\u00e3o berrando de sede\u201d \u2013 lamenta um morador do povoado S\u00e3o Jos\u00e9, na zona rural de Len\u00e7\u00f3is. O vaqueiro \u00e9 outro personagem nordestino em plena extin\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe mais gado para tocar. Nem as cabras est\u00e3o resistindo, e as pessoas est\u00e3o brigando pela distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua da Barragem Zabumb\u00e3o, como em Paramirim e outros munic\u00edpios vizinhos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, misturada a pedregulhos, a terra nua est\u00e1 cada vez mais salinizada. Ainda existem alguns o\u00e1sis que florescem, mas n\u00e3o mais com aquela cor vi\u00e7osa e f\u00e9rtil de outrora. \u00c9 o pren\u00fancio da desertifica\u00e7\u00e3o do nosso Nordeste que pode se tornar num Saara brasileiro para o tr\u00e2nsito de camelos transportando turistas de outras terras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fotos do jornalista Jeremias Mac\u00e1rio O sertanejo ainda esperan\u00e7oso e crente em n\u00e3o desistir da luta, porque, antes de tudo, \u00e9 um forte, como dizia Euclides da Cunha, mete a m\u00e3o na terra e removendo-a entre os dedos, com a voz embargada, diz, meu filho, essa aqui j\u00e1 est\u00e1 morta pelo sal. 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