{"id":6236,"date":"2021-10-19T23:30:05","date_gmt":"2021-10-20T02:30:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6236"},"modified":"2021-10-19T23:30:35","modified_gmt":"2021-10-20T02:30:35","slug":"a-fome-e-os-ossos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/19\/a-fome-e-os-ossos\/","title":{"rendered":"A FOME E OS OSSOS"},"content":{"rendered":"<p>Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num dep\u00f3sito insalubre e num caminh\u00e3o estacionado correram o mundo. Esse \u00e9 o nosso pa\u00eds do slogan de P\u00e1tria Amada, ou P\u00e1tria Esfomeada?<\/p>\n<p>O bispo do santu\u00e1rio de Nossa Senhora Aparecida a chamou de P\u00e1tria Armada. Ele me fez lembrar as falas de D. Helder C\u00e2mara quando sempre clamou por justi\u00e7a social, dizendo que isso n\u00e3o \u00e9 comunismo. Como sentir orgulho de ser brasileiro quando milh\u00f5es passam fome e catam restos de comida no lixo? Tudo nos faz voltar aos tempos do romance \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d, de Victor Hugo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de ser de esquerda ou de direita. No s\u00e9culo XVI a falta de trabalho penalizou toda Europa Ocidental. Houve uma invas\u00e3o dos indigentes, e os reis decretavam leis proibindo a mendic\u00e2ncia e a vagabundagem. Os mendigos eram marcados com ferro em brasa. Qual dos dois era o pior? A fome roendo no est\u00f4mago, ou o ferro? Nem precisa responder.<\/p>\n<p>Em nosso Brasil de hoje, conforme pesquisas do IBGE, mais de 20 milh\u00f5es de brasileiros passam 24 horas sem ter o que comer por alguns dias. Dependem de uma cesta b\u00e1sica das campanhas de doa\u00e7\u00f5es. Nem todos conseguem mais ajudar porque as fam\u00edlias est\u00e3o endividas com a alta da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com as pesquisas, 24 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam certeza de como v\u00e3o se alimentar no dia a dia, e j\u00e1 reduziram a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse cen\u00e1rio macabro, n\u00e3o se d\u00e1 mais para se falar em qualidade por causa da substitui\u00e7\u00e3o de um produto por outro mais barato.<\/p>\n<p>Pelas contas do IBGE, 74 milh\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o mergulhados na incerteza se v\u00e3o ingressar na pen\u00faria. Ronda aquele clima de ansiedade e at\u00e9 depress\u00e3o quando se houve os notici\u00e1rios na m\u00eddia quanto a escalda nos pre\u00e7os dos alimentos, e a possibilidade de amanh\u00e3 fazer parte do contingente dos mais de 14 milh\u00f5es de desempregados.<\/p>\n<p>Com a vacina\u00e7\u00e3o acelerando e o n\u00famero de mortes e casos reduzindo, talvez agora o maior medo seja a fome, principalmente dos milh\u00f5es que recebem um ou dois sal\u00e1rios m\u00ednimos e t\u00eam fam\u00edlia para sustentar. Estamos no pa\u00eds do medo, vivendo num presente de pobreza sem futuro.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 ser desanimador e exagero demasiado, mas quem hoje ainda come um peda\u00e7o de carne misturada com feij\u00e3o e arroz pode amanh\u00e3 estar catando osso e pelancas num carro fedorento, ou num t\u00fanel de lixo, servindo de imagem para registrar a degrada\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O desespero pode levar o povo faminto a invas\u00f5es em estabelecimentos, a chamada convuls\u00e3o social, se bem que o brasileiro n\u00e3o chega a se rebelar a esse ponto. As leis dos reis v\u00e3o proibir a mendic\u00e2ncia e ferrar com brasa os mendigos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num dep\u00f3sito insalubre e num caminh\u00e3o estacionado correram o mundo. Esse \u00e9 o nosso pa\u00eds do slogan de P\u00e1tria Amada, ou P\u00e1tria Esfomeada? 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