{"id":6231,"date":"2021-10-16T01:43:13","date_gmt":"2021-10-16T04:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6231"},"modified":"2021-10-16T01:43:35","modified_gmt":"2021-10-16T04:43:35","slug":"as-divindades-e-os-orixas-de-soyinka-no-passado-e-presente-africano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/16\/as-divindades-e-os-orixas-de-soyinka-no-passado-e-presente-africano\/","title":{"rendered":"AS DIVINDADES E OS ORIX\u00c1S DE SOYINKA NO PASSADO E PRESENTE AFRICANO"},"content":{"rendered":"<p>Wole Soyinka \u00e9 um poeta e escritor nigeriano que pautou sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no passado e presente (o colonial e o p\u00f3s-colonial) do seu povo africano, fazendo alus\u00f5es \u00e0s divindades e aos deuses orix\u00e1s no universo ioruba.<\/p>\n<p>Quem interpreta o acad\u00eamico no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d \u00e9 a professora de Letras, Divanize Carbonieri. Soyinka nasceu em Abeokuta, na Nig\u00e9ria, em 1934. Seus pais eram anglicanos que viviam num enclave de cultura europeia e religi\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>No entanto, havia uma certa mistura entre as l\u00ednguas, costumes e cren\u00e7as, como assinala Divanize. Era um mundo crist\u00e3o que n\u00e3o abandonou as matrizes nativas. Na Universidade de Leeds, na Inglaterra, concluiu seus estudos em literatura inglesa. Ele se esfor\u00e7ou para adquirir conhecimento acad\u00eamico a partir da cosmologia e mitologia iorubas.<\/p>\n<p>Eliana Lima Reis que estudou sua inf\u00e2ncia, diz que o discurso de Soyinka parte de uma perspectiva dupla quando fala de dentro da sua cultura. mas tamb\u00e9m de fora.<\/p>\n<p>O professor An\u00edbal Quijano, que descreve sobre colonialidade do poder, afirma que a coloniza\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas e de outras partes do mundo pelos europeus, instituiu a divis\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em ra\u00e7as que foram hierarquizadas numa estrutura de poder que ainda permanece.<\/p>\n<p>\u201cAs ra\u00e7as consideradas inferiores s\u00e3o atribu\u00eddas as formas de trabalho pior remuneradas\u201d&#8230; Para Divanize, o escritor Soyinka pode ser classificado como um autor p\u00f3s-colonial. Ele sofreu percal\u00e7os na Nig\u00e9ria. Foi preso em 1967 por dois anos porque, na Guerra de Biafra,\u00a0 tentou negociar um acordo de paz. Mesmo depois de solto, manteve seu pensamento cr\u00edtico contra os governos de regimes ditatoriais.<\/p>\n<p>Em 1986 foi o primeiro africano a receber o Pr\u00eamio de Literatura. Continuou sendo perseguido e deixou o pa\u00eds nos anos 90, no governo de Sani Abacha. Divanize faz uma alus\u00e3o da po\u00e9tica de Soyinka com o fen\u00f4meno Abiku (crian\u00e7a-esp\u00edrito) na cultura ioruba.<\/p>\n<p>Abiku \u00e9 um esp\u00edrito que n\u00e3o quer permanecer na terra. Ele vai e volta do outro mundo, em busca do esp\u00edrito das crian\u00e7as. As m\u00e3es que sofrem abortos constantes e v\u00ea seus filhos morrerem (natimortos) ou na inf\u00e2ncia sofrem com a a\u00e7\u00e3o de Abiku. Para det\u00ea-lo, as pessoas fazem rituais no sentido de que Abiku permane\u00e7a na casa e nela se ambiente, n\u00e3o levando mais crian\u00e7a consigo para outra vida.<\/p>\n<p>As casas s\u00e3o choupanas miser\u00e1veis cheias de buracos onde entram morcegos e corujas. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele n\u00e3o leva mais ningu\u00e9m do mundo dos vivos. As casas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de pobreza extrema, de exist\u00eancia com paredes de bambu que n\u00e3o suportam o harmattan (vento do deserto do Saara), tanto que s\u00f3 servem para alimentar o fogo.<\/p>\n<p>O eu-l\u00edrico suplica a Abiku que fique, que outra vez n\u00e3o parta procurando buscar nele o afeto pela m\u00e3e e que escolha a esfera dos humanos. Por\u00e9m, Soyinka, com sua po\u00e9tica, apresenta uma vis\u00e3o diferente. Ele trata o Abiku com zombaria e esc\u00e1rnio. Diz que nada pode aprision\u00e1-lo na terra, numa refer\u00eancia \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Soyinka expressa em sua obra que tudo o que as pessoas fizerem para mant\u00ea-lo vivo, na verdade, s\u00f3 servir\u00e1 para assegurar-lhe ainda mais a morte. Ele anseia verdadeiramente pelo mundo que deixou para tr\u00e1s ao nascer. Em sua po\u00e9tica, destaca que, nem mesmo a dor da m\u00e3e \u00e9 capaz de demov\u00ea-lo; ele ser\u00e1 para ela como uma cobra sorrateira que d\u00e1 o bote e morde quando menos se espera, injetando na v\u00edtima um veneno letal. Se a m\u00e3e esperava obter alegria com seu nascimento, isso \u00e9 um aviso de que ele s\u00f3 trar\u00e1 tristeza.<\/p>\n<p>Nos versos de Soyinka, existe a no\u00e7\u00e3o de que o ser humano est\u00e1 diante de algo que n\u00e3o pode controlar racionalmente. O que prevalece, na \u00f3tica de Soyinka, \u00e9 o ponto de vista do mundo dos esp\u00edritos, de onde prov\u00e9m Abiku, e os rituais realizados pelos humanos s\u00e3o in\u00fateis.<\/p>\n<p>Na cosmologia ioruba, a realidade est\u00e1 dividida em tr\u00eas esferas: o mundo dos n\u00e3o-nascidos, o mundo dos mortos ou ancestrais e o mundo dos vivos. Em seu romance The Interpreters (1965), a trama se desenvolve em torno de um grupo de intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos, e que agora se desdobram em cidades nigerianas.<\/p>\n<p>Eles desempenham a fun\u00e7\u00e3o de interpretes entre a cultura ocidental e a cultura nativa africana. \u00c9 uma tradu\u00e7\u00e3o marcada por niilismo e decep\u00e7\u00e3o. A desilus\u00e3o se d\u00e1, principalmente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elite que chegou ao poder ap\u00f3s a descoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que se revelou t\u00e3o ou mais nefasta do que os antigos colonizadores.<\/p>\n<p>Os deuses orix\u00e1s iorubas sempre est\u00e3o presentes em suas obras, retratando Oxal\u00e1, Ogum, Xang\u00f3 e outros. Nesse mundo, Soyinka opta pela personalidade de Ogum que, mesmo errando, se arisca para alcan\u00e7ar a autorrealiza\u00e7\u00e3o. Vamos abordar essa quest\u00e3o no nosso pr\u00f3ximo coment\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wole Soyinka \u00e9 um poeta e escritor nigeriano que pautou sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no passado e presente (o colonial e o p\u00f3s-colonial) do seu povo africano, fazendo alus\u00f5es \u00e0s divindades e aos deuses orix\u00e1s no universo ioruba. Quem interpreta o acad\u00eamico no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d \u00e9 a professora de Letras, Divanize Carbonieri. Soyinka nasceu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6231"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6231"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6232,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6231\/revisions\/6232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}