{"id":6202,"date":"2021-10-09T00:05:42","date_gmt":"2021-10-09T03:05:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6202"},"modified":"2021-10-09T00:06:36","modified_gmt":"2021-10-09T03:06:36","slug":"um-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/09\/um-revolucionario\/","title":{"rendered":"UM REVOLUCION\u00c1RIO MASSACRADO PELO REGIME DITATORIAL DA NIG\u00c9RIA"},"content":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s do seu afrobeat, com letras revolucion\u00e1rias que questionaram os sistemas colonialistas, bem como o puritanismo das elites africanas crist\u00e3s e isl\u00e2micas, apegadas ao poder, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, o m\u00fasico Fela Kuti foi preso e torturado pelo regime ditatorial nigeriano no governo de Olusegun Odasango, na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>De acordo com o professor Ama\u00edlton Magno Azevedo, que escreveu um cap\u00edtulo sobre Fela Kuti na obra \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d, ele nasceu na Nig\u00e9ria no ano de 1938 e, ao longo da sua carreira at\u00e9 1977, comp\u00f4s uma significativa produ\u00e7\u00e3o musical que o al\u00e7ou \u00e0 cena mundial ao fundar o estilo afrobeat.<\/p>\n<p>O professor organizou o texto em temas chaves, como a \u00c1frica de Fela; o Afrobeat no contexto do Atl\u00e2ntico Negro; Fela, a dan\u00e7a e o corpo negro; Fela, o revolucion\u00e1rio e as quest\u00f5es de g\u00eanero (ele tinha uma vis\u00e3o machista); e Zombie: Uma pedrada no poder.<\/p>\n<p>O africanista cita o escritor Carlos Moore, em seu livro \u201cFela. Esta Puta Vida\u201d onde destaca toda sua hist\u00f3ria, que se transformou em refer\u00eancia est\u00e9tica e pol\u00edtica no contexto da m\u00fasica popular negra do lado de c\u00e1 da margem atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Diz o autor do texto que, se a \u00c1frica viveu d\u00e9cadas perdidas no per\u00edodo p\u00f3s-colonial, em termos social e econ\u00f4mico, a vibra\u00e7\u00e3o cultural das artes negras reposicionou o continente numa dimens\u00e3o de vitalidade e pujan\u00e7a, principalmente quanto as lutas de resist\u00eancia cultural.<\/p>\n<p>Assinala que a obra de Fela sempre esteve inserida na din\u00e2mica de reinven\u00e7\u00e3o da \u00c1frica sob o prisma da descoloniza\u00e7\u00e3o e imersa na ordem do renascimento. Fela viveu nos per\u00edodos colonial e p\u00f3s-colonial. Ele testemunhou essas duas experi\u00eancias. Uma, amarga, sombria e devastadora. A outra vislumbrava um tempo de esperan\u00e7a e renascimento.<\/p>\n<p>Pela sua historiografia, segundo Amailton Magno, a \u00c1frica transitou de uma esperan\u00e7a ut\u00f3pica de renascimento com a meta narrativa da independ\u00eancia para uma realidade de frustra\u00e7\u00f5es e desencantos. Apesar de tudo isso, o estudioso de Fela afirma que a \u00c1frica continua sendo aquilo que Gilberto Gil falou de \u201cterra fundante, terra matriz, terra onde se encravam as ra\u00edzes corporais e \u00e1lmicas da humanidade, reconhecido ber\u00e7o de todos n\u00f3s\u201d. \u00c9 a terra dos mais injusti\u00e7ados do mundo, completa Ama\u00edlton.<\/p>\n<p>Depois de fazer uma descri\u00e7\u00e3o sobre o pan-africanismo e as influ\u00eancias das di\u00e1sporas negras na musicalidade da \u00c1frica, o autor do texto ressalta que desde os anos 20 encontram-se vest\u00edgios de mem\u00f3rias s\u00f4nicas ligadas a jazz, \u00e0s m\u00fasicas r\u00edtmicas do Brasil e Caribe.<\/p>\n<p>\u201cEssas conex\u00f5es guardam tamb\u00e9m um rastro de mem\u00f3rias r\u00edtmicas entre Brasil e Nig\u00e9ria desde a d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo XIX, quando os retornados brasileiros se estabeleceram em Lagos e outros locais. Os iorubas e crioulos nascidos no Brasil formaram uma comunidade e contribu\u00edram na culin\u00e1ria, arquitetura e musicalidade\u201d.<\/p>\n<p>Conta que Fela se inseriu no universo do highlife antes do seu envolvimento no afrobeat. \u201cA vis\u00e3o de Fela se cristalizou num per\u00edodo em que os povos negros da \u00c1frica, Caribe e das Am\u00e9ricas estavam estabelecendo uma alian\u00e7a pol\u00edtica, cultural, art\u00edstica e pessoal sem precedentes. Direitos civis, descoloniza\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia tornaram-se os temas centrais da luta negra na segunda metade do s\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n<p>Durante sua trajet\u00f3ria, Fela incorporou estilos musicais, instrumentos e ideias do discurso nacionalista negro dos Estados Unidos (antes ele passou por Londres). Seu contato com Malcom X tamb\u00e9m contribuiu na configura\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica do afrobeat.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa experi\u00eancia, ele modifica sua forma de pensar, nascendo dali uma nova consci\u00eancia sobre si, os negros e a \u00c1frica. A partir dali ele passou a adotar atitudes mais combativas, descolonizada e ativista. Suas bandas adquiriram um tom pol\u00edtico e contestador.<\/p>\n<p>\u201cInspirada na vida dos injusti\u00e7ados, do gueto e contra as institui\u00e7\u00f5es do status quo, o afrabeat surgiu da necessidade de recomposi\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria da \u00c1frica, do seu renascimento, da supera\u00e7\u00e3o do passado colonialista e do esquecimento no p\u00f3s-independ\u00eancia. A ret\u00f3rica de Fela pr\u00f3-negra atraia inclusive setores pol\u00edticos com inclina\u00e7\u00f5es marxistas que desprezavam as conven\u00e7\u00f5es estabelecidas\u201d.<\/p>\n<p>Alguns trechos do texto de Ama\u00edlton em \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d sobre Fela: \u201cEle fez do afrobeat um instrumento cr\u00edtico da pilhagem da \u00c1frica. Desejou encarar a \u201cdimens\u00e3o tr\u00e1gica da \u00c1frica\u201d, dilacerada pela contradi\u00e7\u00e3o em negar uma heran\u00e7a de submiss\u00e3o e afirmar um novo destino, como assim sugerem o repert\u00f3rio das letras, que se transformavam em \u201cpedras atiradas nas classes dominantes\u201d. Nelas revelam-se a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica de cr\u00edtica ao Estado p\u00f3s-colonial, de repulsa ao imperialismo euro-americano e de apoio aos ideais pan-africanistas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSeu canto \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. \u00c9 improviso, \u00e9 canto anasalado, \u00e9 um canto negro. Gilberto Gil fala dessa maneira de cantar em que se busca uma \u201cexcel\u00eancia da alma, numa emiss\u00e3o mais natural, mais malemolente, mais negro mesmo\u201d.\u00a0 O m\u00fasico revolucion\u00e1rio, segundo ainda Ama\u00edlton esbarrava numa vis\u00e3o torpe quando refletia sobre o universo feminino. Dizia ele acreditar na superioridade masculina e na obriga\u00e7\u00e3o da mulher em se conformar com sua inferioridade f\u00edsica\u201d. No final da sua carreira ele n\u00e3o adotava mais esse conceito machista.<\/p>\n<p>Seu disco Zombie foi uma pedrada no poder que, conforme Fela, era violento e devastador. As letras expressavam uma encorpada cr\u00edtica ao governo ditatorial da \u00e9poca (1976). Para protestar contra o II Festival Mundial de Artes Negras, na Nig\u00e9ria, em 1977, Fela criou o dele em sua Rep\u00fablica Kalakuta, que foi cruelmente atacada por mil soldados que estupraram v\u00e1rias mulheres (27) de Fela, feriram sua m\u00e3e e destru\u00edram seus acervos.<\/p>\n<p>Fela foi preso e torturado pela ira do general presidente Olusegun Obasango. Sua Rep\u00fablica foi totalmente destru\u00edda. Ele foi um m\u00fasico popular e querido na Nig\u00e9ria e no continente. \u201cSempre clamou por democracia, desejou ser candidato a presidente da Rep\u00fablica; sem, no entanto, ter conseguido o direito de disputar elei\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDesejou justi\u00e7a e felicidade para a \u00c1frica, mesmo sabendo das dificuldades enfrentadas com pris\u00f5es e torturas. A repress\u00e3o sofrida por Fela n\u00e3o foi praticada pela coloniza\u00e7\u00e3o e sim por um poder negro\u201d. Depois de tudo isso, transformou-se num homem solit\u00e1rio, desconfiado e sisudo. No final da sua vida passou a recorrer a pr\u00e1ticas de misticismo, como forma de autoprote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s do seu afrobeat, com letras revolucion\u00e1rias que questionaram os sistemas colonialistas, bem como o puritanismo das elites africanas crist\u00e3s e isl\u00e2micas, apegadas ao poder, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, o m\u00fasico Fela Kuti foi preso e torturado pelo regime ditatorial nigeriano no governo de Olusegun Odasango, na d\u00e9cada de 70. De acordo com o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6202"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6202"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6202\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6204,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6202\/revisions\/6204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}