{"id":6177,"date":"2021-10-02T00:14:07","date_gmt":"2021-10-02T03:14:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6177"},"modified":"2021-10-02T00:14:16","modified_gmt":"2021-10-02T03:14:16","slug":"ousmane-sembene-e-a-africa-traduzida-em-palavras-e-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/10\/02\/ousmane-sembene-e-a-africa-traduzida-em-palavras-e-imagens\/","title":{"rendered":"&#8220;OUSMANE SEMB\u00c8NE E A \u00c1FRICA TRADUZIDA EM PALAVRAS E IMAGENS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pescador, pedreiro e estivador que se tornou um escritor e cineasta intelectual, soube muito bem retratar, como nenhum outro, as realidades africanas e ultrapassou fronteiras sendo reconhecido internacionalmente por acad\u00eamicos de renome. Atrav\u00e9s da literatura e do cinema, o senegal\u00eas Ousmane Semb\u00e8ne (1923-2007) foi para seu povo africano, n\u00e3o somente do seu pa\u00eds, uma esp\u00e9cie de imagem-despertador do passado, do presente e do futuro.<\/p>\n<p>Quem bem interpretou sua trajet\u00f3ria de vida foi o historiador e professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Santa Catarina, Silvio Marcus de Souza Correia, na obra \u201cIntelectuais das \u00c1fricas.\u00a0 Numa linguagem compreens\u00edvel, ele diz que, \u201cdesde a publica\u00e7\u00e3o do seu primeiro livro, em 1956, at\u00e9 o lan\u00e7amento do seu \u00faltimo filme em 2004, o reconhecimento internacional do seu trabalho fez de Semb\u00e8ne um dos mais importantes intelectuais africanos do s\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n<p>Sobre o termo intelectual, o professor afirma ser algu\u00e9m que reflete sobre quest\u00f5es e dilemas do seu tempo com base em teorias, e cujo trabalho acad\u00eamico ou art\u00edstico tem a capacidade incomum de contribuir para o conhecimento de determinadas realidades sociais.<\/p>\n<p>Se o conceito de intelectual for mesmo esse, foi o que o senegal\u00eas procurou fazer como escritor-cineasta, com \u00e9tica e sem vi\u00e9s religioso ou partid\u00e1rio pol\u00edtico. Semb\u00e8ne fez os africanos acordarem para suas realidades sempre atuando com o passado pr\u00e9-colonial, o presente e o futuro p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p>O autodidata que criou sua consci\u00eancia pol\u00edtica atrav\u00e9s da leitura, Semb\u00e8ne dedicou-se, depois de passar por v\u00e1rios pa\u00edses, como a Fran\u00e7a, \u00e0 arte de escrever romances e novelas e fazer filmes numa \u00e9poca em que escritor e cineasta era reconhecido como intelectual e n\u00e3o raro como ma\u00eetre \u00e0 penser, conforme assinalou o historiador S\u00edlvio Marcus que o considera como \u201cpai do cinema africano\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSua obra foi pr\u00f3diga em temas ligados ao passado colonial e aos dilemas da \u00c1frica contempor\u00e2nea. Assim como sua experi\u00eancia de vida foi mat\u00e9ria prima para muitos romances, novelas e filmes, Ousmane fez da historiografia uma fonte de suma import\u00e2ncia para a sua fic\u00e7\u00e3o\u201d &#8211; diz o professor de Santa Catarina.<\/p>\n<p>Em sua narrativa sobre Semb\u00e8ne, o historiador chega a citar o fil\u00f3sofo Jean Paul Sartre que, em 1949, enfatizou a import\u00e2ncia da negritude enquanto movimento de afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria para africanos, afro-caribenhos e afro-americanos, e tamb\u00e9m o quanto essa literatura era inovadora.<\/p>\n<p>De acordo como o historiador, para alguns, como Semb\u00e8ne, a negritude tinha um valor liter\u00e1rio, por\u00e9m escapava-lhe a realidade social dos trabalhadores negros. N\u00e3o demorou muito para a literatura africana de express\u00e3o francesa ser renovada por uma nova gera\u00e7\u00e3o de escritores.<\/p>\n<p>Semb\u00e8ne foi um desses. Militante marxista, passou por Marselha, na Fran\u00e7a, como estivador, e logo depois criou uma se\u00e7\u00e3o do Movimento de Libera\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9 e do Cabo Verde, em 1959.<\/p>\n<p>No mesmo ano participou do segundo congresso de escritores e artistas negros, em Roma. No<strong> ano seguinte publicou seu romance <\/strong>Les Bouts de Bois de Dieu e renunciou sua nacionalidade francesa saindo do Partido Comunista e outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para se entregar totalmente \u00e0 arte.<\/p>\n<p>Em 1961, o senegal\u00eas partiu para Moscou para estudar cinema. Depois de sua temporada na R\u00fassia, Semb\u00e9ne visitou alguns pa\u00edses africanos e se radicou em seu pa\u00eds para criar, em Dacar, a Filmes Domirey. Segundo S\u00edlvio, o escritor-cineasta acreditava no poder de transforma\u00e7\u00e3o por meio da literatura. Por\u00e9m, ele se convenceu de que o cinema tinha um maior alcance do que a literatura entre aquela gente com quem simpatizava.<\/p>\n<p>O senegal\u00eas levou para as telas algumas novelas e romances de sua autoria, como L\u00e1 Noire de&#8230; em 1966, exibido na Fran\u00e7a e no Senegal, onde recebeu, respectivamente, o pr\u00eamio Jean Vigo e o grande pr\u00eamio do Festival Mundial de Artes Negras. Foi o primeiro longa-metragem de um cineasta da \u00c1frica Subsaariana.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes ele foi membro e presidente de v\u00e1rios juris de festivais da s\u00e9tima arte, inclusive no Rio de Janeiro. Em 1968 filmou sua novela intitulada Mandato, agraciado com o pr\u00eamio especial no festival de Veneza. Em 1988, o senegal\u00eas realizou um dos seus mais importantes filmes de longa, o Camp de Thiaroye, coroando seu trabalho de cineasta aos 65 anos.<\/p>\n<p>Para Semb\u00e8ne, tanto a palavra como a imagem deveriam servir \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do discurso neo-colonial que tanto fez uso de palavras e imagens. Como assinala Silvio, para o senegal\u00eas, a literatura tinha a miss\u00e3o de fazer os leitores refletir sobre suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e lhes mostrar que \u00e9 poss\u00edvel melhor\u00e1-las. Seus romances quase sempre tinham um personagem principal capaz de refletir sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e de buscar alternativas com impacto social.<\/p>\n<p>\u201cAssim como na literatura, o cinema lhe oferecia a oportunidade de formular um contradiscurso, uma nova linguagem para mostrar uma outra \u00c1frica, diferente daquela folcl\u00f3rica. As imagens de uma \u00c1frica ex\u00f3tica era produto de um imagin\u00e1rio ainda colonial\u201d \u2013 escreve S\u00edlvio sobre o cineasta.<\/p>\n<p>Semb\u00e8ne chegou a afirmar, certa vez, que os filmes projetados nas telas africanas nada tinham a ver com os africanos. Dizia que o trabalhador africano carece de imagens reveladoras de uma realidade encoberta ou distorcida pelo colonialismo.<\/p>\n<p>S\u00edlvio Marcus destacou que, mesmo que seus personagens sejam suas cria\u00e7\u00f5es, muitas delas foram inspiradas em pessoas que ele conheceu ao longo da vida como pescador, pedreiro, estivador, soldado, imigrante, sindicalista, escritor e cineasta.<\/p>\n<p>Em seus filmes, ele mostrava como essas pessoas viviam, como puderam resistir e como morreram. Fazia quest\u00f5es para o passado a partir do seu presente. Para ele, o real hist\u00f3rico era mat\u00e9ria para transformar em arte. \u201cEu sou por um cinema militante. Eu acredito que \u00e9 poss\u00edvel realizar filmes que sirvam de ponto de partida a debates\u201d- declarava Semb\u00e8ne.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pescador, pedreiro e estivador que se tornou um escritor e cineasta intelectual, soube muito bem retratar, como nenhum outro, as realidades africanas e ultrapassou fronteiras sendo reconhecido internacionalmente por acad\u00eamicos de renome. Atrav\u00e9s da literatura e do cinema, o senegal\u00eas Ousmane Semb\u00e8ne (1923-2007) foi para seu povo africano, n\u00e3o somente do seu pa\u00eds, uma esp\u00e9cie [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6177"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6177"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6178,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6177\/revisions\/6178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}