{"id":6029,"date":"2021-08-31T23:03:54","date_gmt":"2021-09-01T02:03:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6029"},"modified":"2021-08-31T23:04:22","modified_gmt":"2021-09-01T02:04:22","slug":"saudades-dos-tempos-quando-era-residente-universitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/08\/31\/saudades-dos-tempos-quando-era-residente-universitario\/","title":{"rendered":"SAUDADES DOS TEMPOS QUANDO ERA RESIDENTE UNIVERSIT\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<p>Eram os anos iniciais da d\u00e9cada de 1970, e o regime ditatorial com o general M\u00e9dici era de chumbo e tirania. A duras penas frequentava a Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia-Ufba (terminei a gradua\u00e7\u00e3o em 1973). Nos primeiros meses de 1970 lutava aguerridamente para conseguir uma vaga na Resid\u00eancia Universit\u00e1ria, mas meu pai, um roceiro, n\u00e3o tinha documentos exigidos pela reitoria que provasse ser pobre necessitado. Quest\u00e3o da maldita burocracia!<\/p>\n<p>Para sobreviver, vivia de bicos (quando arranjava) morando num pardieiro ali no Politeama (centro), comendo p\u00e3o tr\u00eas vezes ao dia, misturado com mel Karo feito do milho. A barriga roncava e pedia socorro quando passava nas portas dos restaurantes. Da cal\u00e7ada olhava l\u00e1 dentro as pessoas realizando suas refei\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes enganava o est\u00f4mago quando um amigo trazia do restaurante universit\u00e1rio uma comida dentro de uma lata vazia de Nestl\u00e9.<\/p>\n<p>Basta de lamento. Meu foco era mesmo morar na resid\u00eancia universit\u00e1ria, destinada aos estudantes carentes, e eu era um deles, mas o processo estava emperrado. Lembro que todos dias passava no Departamento da UFBA que administrava as tr\u00eas resid\u00eancias, localizado na Rua Jo\u00e3o das Botas, no Canela. A ansiedade era grande e todos os dias revisava a lista dos aprovados, que fica no balc\u00e3o. Para ter certeza, olhava duas e at\u00e9 tr\u00eas vezes para certificar seu meu nome n\u00e3o estava inclu\u00eddo, e nada.<\/p>\n<p>Fotos arquivo &#8220;A Tarde&#8221;<img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6030\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2428.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2428.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2428-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/p>\n<p>Aquilo me deixava ainda mais angustiado porque o cerco se fechava, mas n\u00e3o dava tr\u00e9gua \u00e0 briga para conseguir minha vez. Quando se est\u00e1 na pior, os argumentos brotam mais fortes como uma explos\u00e3o vinda do cora\u00e7\u00e3o. Para encurtar, um dia cheguei l\u00e1 com minha surrada malinha, e o respons\u00e1vel pelas casas, de tanta insist\u00eancia, liberou o meu nome. N\u00e3o consegui me conter de tanta alegria.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro muito bem, mas j\u00e1 era o segundo semestre de 1970 e l\u00e1 fiquei na R1, a maior de todas, no Corredor da Vit\u00f3ria, at\u00e9 o final de 1973. Foram tr\u00eas anos e meio de muitas boas lembran\u00e7a, de farras de caipirinhas, aventuras e confabula\u00e7\u00f5es entre colegas. N\u00e3o tinha nada, mas era feliz.<\/p>\n<p>O mais dif\u00edcil era que os homens da ditadura nos vigiavam dia e noite. Quando entrava uma cara nova, n\u00f3s fic\u00e1vamos com as antenas ligadas porque poderia ser um agente espi\u00e3o, e a\u00ed nada de grupinhos a tr\u00eas trocando ideias proibidas. Ali\u00e1s, era proibido pensar.\u00a0 Duas pessoas falando j\u00e1 era perigo \u00e0 vista. Compens\u00e1vamos a repress\u00e3o e o medo com as curti\u00e7\u00f5es de final de semana no p\u00e1tio da Resid\u00eancia (a R1), tomando umas cachacinhas (n\u00e3o tinha grana para cerveja em bar).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2429.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6031\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2429.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2429.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMG_2429-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O bom era que n\u00e3o me preocupava mais com passar fome porque tinha a moradia e mais duas refei\u00e7\u00f5es garantidas (o caf\u00e9 da manh\u00e3 a gente se virava como podia). Sem dinheiro, fazia os percursos entre as faculdades onde tinha disciplinas na base da velha paleta, mas sem reclamar. Vivia numa boa, dentro do poss\u00edvel. N\u00e3o me importava com dinheiro e nem com roupas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como, me tornei vice-presidente da R1 ao lado de Aroldo que fazia medicina. Vez por outra o regime trancafiava algu\u00e9m e sumia com um estudante. Assim aconteceu com meu companheiro presidente, e a\u00ed tive que assumir o seu lugar. Podia ser a bola da vez. Andava apreensivo, e os colegas ficavam na butuca quando pintava alguma coisa fora do normal. Algumas vezes tive que dormir fora, inclusive nas moitas do Abaet\u00e9.<\/p>\n<p>A ditadura torturava, matava e desaparecia, como fizeram com meu amigo residente Machado, um negro do curso de engenharia. Sumiu sem deixar rastro. Todos os anos, no dia 7 de setembro, as resid\u00eancias eram cercadas por policiais militares, do ex\u00e9rcito e os federais. Ningu\u00e9m saia. Certamente os generais temiam que fiz\u00e9ssemos um levante e, sem armas na m\u00e3o, derrub\u00e1ssemos a dita cuja. Dificilmente um confiava no outro, mas t\u00ednhamos aqueles grupos mais seguros com os quais troc\u00e1vamos nossas figurinhas.<\/p>\n<p>L\u00e1 se foram 50 anos e n\u00e3o \u00e9 que est\u00e3o passando sobre nossas cabe\u00e7as aquelas nuvens sombrias e pesadas que ach\u00e1vamos que n\u00e3o mais existiam! Sempre me recordo daqueles tempos de estudante da R1. A R2 ficava e ainda fica no Largo da Vit\u00f3ria e a R3, a Feminina, no Canela.<\/p>\n<p>Neste domingo (dia 29\/08) as lembran\u00e7as jorraram outra vez quando vi e li uma mat\u00e9ria no jornal \u201cA Tarde\u201d sobre a situa\u00e7\u00e3o das resid\u00eancias universit\u00e1rias, com uma foto da escadaria de entrada do pr\u00e9dio neocl\u00e1ssico. Logo bateram as saudades quando era residente universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Confesso que me imaginei ali descendo e subindo todos os dias. Muitos acontecimentos, muitas discuss\u00f5es, brigas e amizades seladas. Pena que as not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o nada animadoras. Hoje tem mais uma unidade na Avenida Garibaldi (quatro ao todo), e todas juntas t\u00eam capacidade para 389 alunos. Com a pandemia, s\u00f3 a metade est\u00e1 sendo ocupada. Muitos voltaram para suas cidades de origem.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, as resid\u00eancias sofreram drasticamente os efeitos dos cortes de verbas federais destinadas ao Plano Nacional de Assist\u00eancia Estudantil (Pnaes). Foram subtra\u00eddos R$6,5 milh\u00f5es somente neste ano, 18% menor que o investido em 2020. Mesmo assim, a n\u00famero um, (a R1) est\u00e1 sendo reformada porque seu pr\u00e9dio j\u00e1 \u00e9 antigo e carece de cuidados.<\/p>\n<p>A R1, da qual tive o privil\u00e9gio de morar (adquirida pela Ufba em 1950) entrou em processo de tombamento, e o atual prefeito de Salvador, Bruno Reis, chegou a assinar o pedido, mas depois voltou atr\u00e1s e revogou o decreto alegando que se trata de um patrim\u00f4nio federal e que a prefeitura n\u00e3o tem recursos para bancar sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode ter outros interesses escusos por detr\u00e1s por parte do setor imobili\u00e1rio que j\u00e1 derrubou a maioria dos casar\u00f5es do Corredor da Vit\u00f3ria (ainda tem o Museu Costa Pinto), transformando o local numa selva de pedra. A situa\u00e7\u00e3o da R2 (Largo da Vit\u00f3ria) n\u00e3o \u00e9 diferente. A R3 (antiga resid\u00eancia feminina) foi transferida para uma casa alugada na Gra\u00e7a, que abriga 100 estudantes. A R4 foi constru\u00edda em 2012, na Avenida Garibaldi, e atende at\u00e9 190 estudantes.<\/p>\n<p>Por causa das reformas e a pandemia, a R1 est\u00e1 com apenas 40% da sua capacidade de 80 alunos. Lembro que cheguei a morar no t\u00e9rreo, um local mais fechado e \u00famido que atualmente apresenta mais problemas na estrutura, e tamb\u00e9m no primeiro e segundo andares.<\/p>\n<p>Sem recursos, a gente mesmo lavava nossos \u201cpaninhos de bunda\u201d nuns tanquinhos que ficavam na parte externa. S\u00e1bado era o dia das \u201clavadeiras\u201d. Ao lado fica o restaurante (saudades dos bandej\u00f5es e das batidas de talheres quando a comida n\u00e3o estava boa). Os milicos ficavam de olho em n\u00f3s. Todos eram vistos com subversivos e perigosos comunistas.<\/p>\n<p>Para entrar hoje na resid\u00eancia \u00e9 necess\u00e1rio ter renda familiar de at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo e meio, estar regularmente matriculado na Ufba e n\u00e3o ter outra gradua\u00e7\u00e3o em paralelo. O candidato tem que ser do interior. As exig\u00eancias n\u00e3o mudaram muito de l\u00e1 para c\u00e1, mas meu pai n\u00e3o tinha renda fixa. Vivia da lavoura e dependia do tempo chuvoso ou seco.\u00a0 Tive que conseguir meu teto na \u201ctora\u201d, no convencimento de que era lascado mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram os anos iniciais da d\u00e9cada de 1970, e o regime ditatorial com o general M\u00e9dici era de chumbo e tirania. A duras penas frequentava a Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia-Ufba (terminei a gradua\u00e7\u00e3o em 1973). 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