{"id":6018,"date":"2021-08-28T00:02:48","date_gmt":"2021-08-28T03:02:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=6018"},"modified":"2021-08-28T00:02:57","modified_gmt":"2021-08-28T03:02:57","slug":"percursos-translocais-valentin-mudimbe-e-o-pos-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/08\/28\/percursos-translocais-valentin-mudimbe-e-o-pos-colonial\/","title":{"rendered":"&#8220;PERCURSOS TRANSLOCAIS: VALENTIN MUDIMBE E O P\u00d3S-COLONIAL&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>As suas produ\u00e7\u00f5es intelectuais foram voltadas para a salva\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds, o Zaire, hoje a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Em suas teses filos\u00f3ficas sempre defendeu que a cultura nacional aut\u00eantica era uma mistifica\u00e7\u00e3o. Quanto ao continente africano, \u201cn\u00e3o existe uma cultura unificada\u201d.<\/p>\n<p>Como monge de forma\u00e7\u00e3o beneditina, Valentin Mudimbe estudou e lecionou em v\u00e1rias universidades como doutor nos Estados Unidos e na Fran\u00e7a. Em 1968 formou-se em Sociologia na Universidade de Paris-Nanterre. Na interpreta\u00e7\u00e3o da acad\u00eamica Regiane Augusto de Mattos, ele \u00e9 comentado como um dos expoentes africanos no livro \u201cIntelectuais das \u00c1fricas\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos 60, de acordo com Regiane, foram para Mudimbe e outros universit\u00e1rios africanos um per\u00edodo de despertar pol\u00edtico, no qual o marxismo, e depois o socialismo africano, tornaram-se inspira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente politicamente para os movimentos de independ\u00eancia da \u00c1frica, como para compreender academicamente as sociedades africanas.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cA Inven\u00e7\u00e3o de \u00c1frica: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento\u201d, publicado em 1988, Mudimbe apresenta a ideia de \u00c1frica como uma inven\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica na \u00e1rea das ci\u00eancias sociais, defendendo que o conhecimento seria um conhecimento estritamente controlado por procedimentos espec\u00edficos elaborados por europeus, que ele denomina gnose.<\/p>\n<p>De acordo com Regiane, o intelectual em que ela se refere, n\u00e3o apenas criticou a antropologia cl\u00e1ssica e a etnologia europeias, como rejeitou o movimento pol\u00edtico cultural Negritude (Aim\u00e9 C\u00e9saire, poeta da Matinica, foi o primeiro a usar esse termo) promovido por intelectuais negros, afirmando que tamb\u00e9m era uma concep\u00e7\u00e3o influenciada por uma episteme ocidental da \u00c1frica, mas representada por africanos e seus descendentes.<\/p>\n<p>Para a int\u00e9rprete de seus pensamentos, desde o final do s\u00e9culo XIX, intelectuais africanos empenharam-se em transformar a vis\u00e3o que imperava na \u00c1frica de um continente formado por sociedades sem hist\u00f3ria. Ap\u00f3s a segunda Guerra Mundial, esses intelectuais escreveram trabalhos em torno da problem\u00e1tica colonial, tendo um papel importante nas lutas de liberta\u00e7\u00e3o do continente. Nesse \u00e2mbito, ganhou destaque, como ramo espec\u00edfico do pan-africanismo, o movimento da Negritude.<\/p>\n<p>O principal te\u00f3rico do movimento foi L\u00e9opold Senghor, mais tarde presidente do Senegal, permanecendo no poder entre 1960 a 1980. O meio de debate e divulga\u00e7\u00e3o do movimento das ideias era a revista Pr\u00e9sence Africaine, criada em 1947.<\/p>\n<p>No pensamento de Mudimbe, os africanos deveriam criar suas pr\u00f3prias perspectivas atrav\u00e9s da ruptura, rejeitando as teorias do desenvolvimento cont\u00ednuo de uma cultura africana, fechada e \u00fanica. Ele prop\u00f4s que os intelectuais africanos inventassem suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es do conceito de africano.<\/p>\n<p>Para ele, os ocidentais se entendem como vetores de um modelo cultural pretensamente universal. Entretanto, essa universalidade n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia real da pluralidade, pois viveram a alteridade de modo marginal ou deformado, partindo da sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Mudimbe defende a import\u00e2ncia da singularidade das experi\u00eancias hist\u00f3ricas. Os africanos teriam a capacidade de gerar suas pr\u00f3prias normas de inteligibilidade e de interpreta\u00e7\u00e3o, sem a necessidade da utiliza\u00e7\u00e3o de categorias criadas por outras experi\u00eancias.\u00a0 Classificou a l\u00f3gica bin\u00e1ria local\/global ou singular\/universal como uma divis\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 totalmente absoluta.<\/p>\n<p>Em seus estudos, disse que todos t\u00eam o direito de usar o conhecimento sobre o continente para construir uma identidade que pode ser compartilhada. Se para ele, sua pr\u00f3pria experi\u00eancia foi bem-sucedida, a cr\u00edtica \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o recai sobre o processo colonial falhar na concilia\u00e7\u00e3o entre as tradi\u00e7\u00f5es africanas e europeias. Assim, a \u00c1frica e os africanos poderiam tamb\u00e9m ter \u00eaxito, se soubessem conciliar o passado colonial \u00e0s suas pr\u00f3prias experi\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As suas produ\u00e7\u00f5es intelectuais foram voltadas para a salva\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds, o Zaire, hoje a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Em suas teses filos\u00f3ficas sempre defendeu que a cultura nacional aut\u00eantica era uma mistifica\u00e7\u00e3o. Quanto ao continente africano, \u201cn\u00e3o existe uma cultura unificada\u201d. Como monge de forma\u00e7\u00e3o beneditina, Valentin Mudimbe estudou e lecionou em v\u00e1rias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6018"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6018"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6019,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6018\/revisions\/6019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}