{"id":5970,"date":"2021-08-14T01:54:51","date_gmt":"2021-08-14T04:54:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5970"},"modified":"2021-08-14T01:55:02","modified_gmt":"2021-08-14T04:55:02","slug":"intelectuais-das-africas-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/08\/14\/intelectuais-das-africas-final\/","title":{"rendered":"&#8220;INTELECTUAIS DAS \u00c1FRICAS&#8221; (Final)"},"content":{"rendered":"<p>Este livro conta com a participa\u00e7\u00e3o do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Itamar Aguiar.<\/p>\n<p>\u201c\u00c1frica tem uma Hist\u00f3ria\u201d. Esta frase est\u00e1 no volume I de \u201cHist\u00f3ria Geral da \u00c1frica\u201d, de Joseph Ki-Zerbo. Era fins da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, organizadores da obra, nos oferecem um apanhado geral sobre as ideias dos grandes intelectuais da \u00c1frica que interpretaram os conceitos do Pan-Africanismo e da Negritude do continente pr\u00e9-colonial e p\u00f3s-col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Frantz Fanon foi um dos primeiros pensadores desse povo que por s\u00e9culos viveu sob o jugo dos dominadores &#8211; assinalam.<\/p>\n<p>Para elaborar o livro \u201cIntelectuais da \u00c1frica\u201d, por interm\u00e9dio dos autores convidados, Silvio e Washington adotaram o significado de intelectual como indiv\u00edduo que reflete, teoriza, projeta e produz sobre as sociedades, imaginando novas forma\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Os intelectuais foram h\u00e1beis na arte de representar, seja na escrita, no cinema ou na m\u00fasica, como Fela Kuti, Semb\u00e8ne, Soyinka, Fatema e outros &#8211; escreveram.<\/p>\n<p>O termo intelectuais, de acordo com os expositores do assunto, tem sua origem em fins do s\u00e9culo XIX, na Fran\u00e7a, por conta do caso Dreyfuss, condenado injustamente por trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Como dizem os autores do capitulo da obra, os estudos sobre os intelectuais entraram em descr\u00e9dito ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1920. No entanto, o papel deles na Fran\u00e7a foi fortalecido durante a guerra da Arg\u00e9lia (1954-1961). Eles interferiram na hist\u00f3ria, em especial Jean Paul Sartre.<\/p>\n<p>Textos de Anta Diop, Senghor e Fanon eram divulgados no bojo do Pan-Africanismo ou da Negritude, como forma de resist\u00eancia \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o de que a \u00c1frica n\u00e3o tinha hist\u00f3ria, e seu pensamento era atrasado e selvagem \u2013 acusam os acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Silvio e Washington afirmaram que o surgimento dos intelectuais est\u00e1 ligado a tr\u00eas origens, como o universo (ancestral), o isolamento e a escolariza\u00e7\u00e3o europeia. Esses processos se misturaram e se divergem em algumas regi\u00f5es &#8211; afirmaram.<\/p>\n<p>Formados no per\u00edodo do colonialismo europeu, um tra\u00e7o comum entre eles foi o engajamento frente a todos os problemas nacionalistas, nas lutas pela a emancipa\u00e7\u00e3o e nos direitos das mulheres, contribuindo para a transi\u00e7\u00e3o de descoloniza\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Nos textos do livro, existem fortes influ\u00eancias de matrizes pr\u00e9-coloniais. Esses pensadores, conforme apontam, foram tragados pelo Pan-Africanismo e a Negritude. Como estrangeiro, Fanon escreveu sobre os efeitos do colonialismo na \u00c1frica e participou da luta pela independ\u00eancia da Arg\u00e9lia. Essa intelectualidade viveu o processo do fim da coloniza\u00e7\u00e3o, da descoloniza\u00e7\u00e3o e da emerg\u00eancia dos novos Estados.<\/p>\n<p>O Pan e a Negritude foram dois importantes movimentos de resist\u00eancia pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. O primeiro foi na quest\u00e3o da ancestralidade que levaria a um sentimento racional gerador da solidariedade entre os povos.<\/p>\n<p>A Negritude tratou da quest\u00e3o espec\u00edfica do orgulho de ser negro e ado\u00e7\u00e3o da sua cultura. Esse movimento surgiu em fins da d\u00e9cada de 30 no poema l\u00edrico \u201cDi\u00e1rio de um Retorno ao Pa\u00eds Natal, do antilhano da Martinina Aim\u00e9 C\u00e9sare. Senghor desenvolveu essas ideias em diferentes obras, servindo de base para outros intelectuais.<\/p>\n<p>O orgulho da \u00c1frica, a luta, n\u00e3o contra o sistema, mas seus abusos, foram marcas do Pan, segundo Silvio e Washington. Somente depois do Congresso Pan-Africano (1945) e da invas\u00e3o da Eti\u00f3pia por Mussoline, em 1935, a luta pela independ\u00eancia entra na agenda dos intelectuais &#8211; relatam.<\/p>\n<p>Tudo isso contribuiu para a obra cinematogr\u00e1fica do senegal\u00eas Semb\u00e8ne. A partir da\u00ed, formou-se uma rede de solidariedade contra o colonialismo. Dentro dessa ideia de coparticipa\u00e7\u00e3o, o pan-africanista Am\u00edlcar Cabral, l\u00edder da independ\u00eancia de Cabo Verde e Guin\u00e9-Bissau, na d\u00e9cada de 60, postulava que a liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica n\u00e3o poderia caminhar apenas na linha da independ\u00eancia de cada col\u00f4nia, mas de toda \u00c1frica.<\/p>\n<p>Esse Pan-Africanismo passou a estimular a unifica\u00e7\u00e3o de toda a \u00c1frica em um \u00fanico Estado, mas esbarrou nas diverg\u00eancias e nos sentimentos de soberania de cada territ\u00f3rio. Nkrunah, l\u00edder de Gana (1957 -1966) foi um dos difusores da ideia. O Pan tamb\u00e9m foi prejudicado pela xenofobia entre os estrangeiros africanos, pelas dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas, pela a esquerda e direita, pelas prioridades econ\u00f4micas e interesses de cada governo.<\/p>\n<p>\u201cOs dirigentes africanos se dividiram em dois grupos, os que queriam uma uni\u00e3o pol\u00edtica forte e os que desejavam uma confedera\u00e7\u00e3o com soberania. A ideia caminhou para uma uni\u00e3o entre os estados independentes, visando combater o imperialismo. Dessa forma, surgiu em 1963, a Organiza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Africana (OUA).\u201d<\/p>\n<p>Sobre este \u00e2ngulo, a escritora nigeriana Adichie faz um de seus personagens lembrar de que o negro \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o branca, impregnada de autoritarismo e corrup\u00e7\u00e3o. Com as bandeiras do combate ao racismo e da negritude, o Pan obteve a simpatia de v\u00e1rios intelectuais africanos. Os dois se caracterizaram por sua face racial, de provar a n\u00e3o inferioridade da ra\u00e7a negra.<\/p>\n<p>Adichie em seu livro Meio Sol Amarelo (2006) fez uma personagem sustentar que os negros foram e s\u00e3o emparelhados pela mesma opress\u00e3o branca. Por\u00e9m, a cr\u00edtica \u00e0 branquitude teve suas reservas nas falas de Pepetela, Soyinka e Mia Couto. O pr\u00f3prio Soyinka prop\u00f4s uma valoriza\u00e7\u00e3o das culturas do continente, sem a nega\u00e7\u00e3o de qualquer porte. Pepetela e Mia tamb\u00e9m n\u00e3o defenderam uma idealiza\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a negra, se colocando abertos \u00e0s misturas das culturas, n\u00e3o acreditando numa raiz pura e intocada.<\/p>\n<p>Um Rio Chamado Tempo e Uma Casa Chamada Terra, Mia narra numa conversa entre fam\u00edlia onde um membro se espanta que nela haja tantos mulatos. \u201cNesse mundo, todos somos mulatos\u201d. \u201cAo longo dos s\u00e9culos, as culturas africanas sempre se aproveitaram de tra\u00e7os culturais entre si e de outras fora do continente.\u201d<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, o m\u00fasico Fela-Kuti prop\u00f4s uma arte voltada para a solidariedade negra. Tanto Am\u00edlcar Cabral, Semb\u00e8ne e Adichie rejeitaram a ideia homogeneizante de uma \u00fanica identidade africana, Admitiram a exist\u00eancia de uma pluralidade cultural. Adichie fez um personagem sua declarar que o negro era em grande parte uma cria\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n<p>Para Mbembe, o importante n\u00e3o \u00e9 a volta ao passado, mas a autocria\u00e7\u00e3o e a auto explica\u00e7\u00e3o realizadas pelos africanos em cada lugar da sua hist\u00f3ria atrav\u00e9s de seus instrumentos, como a religi\u00e3o, a m\u00fasica, a literatura e das artes em geral.<\/p>\n<p>\u201cEm linhas gerais, os intelectuais africanos procuraram exercer influencias sobre a opini\u00e3o p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o a fatos, como o colonialismo, a descoloniza\u00e7\u00e3o ou os Estados e as quest\u00f5es sociais emergentes no p\u00f3s-independ\u00eancia, interpretando as realidades do continente\u201d.<\/p>\n<p>Os autores desse cap\u00edtulo citam a nigeriana Adichie que questiona a subalterniza\u00e7\u00e3o das mulheres africanas, testemunhas das injusti\u00e7as que, diante das quais, as mulheres se calavam. Ressaltam tamb\u00e9m a luta de Soyinka contra as ditaduras nigerianas, sendo preso durante a guerra da Biafra (1967-1970).<\/p>\n<p>\u201cAlguns desses intelectuais participaram de governos, como Senghor que foi presidente do Senegal (1960-1980) e Pepetela vice-ministro da Educa\u00e7\u00e3o angolana (1976-1982). \u201cTiveram de lidar frequentemente no mundo ocidental com um desconhecimento ou uma vis\u00e3o estereotipada dos problemas africanos. Levantaram quest\u00f5es embara\u00e7osas para o colonialismo ou para os regimes autorit\u00e1rios ou sociedades conservadoras em \u00c1frica. Lutaram contra diversas formas de poder, suas estruturas estatais autorit\u00e1rias no per\u00edodo colonial e nos p\u00f3s-independ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cUns engendraram no campo pol\u00edtico e outros, como Pepetela, na literatura ap\u00f3s deixar a cena pol\u00edtico-partid\u00e1ria. Enfim, lutaram pela promo\u00e7\u00e3o da liberdade dos africanos e pelo conhecimento cr\u00edtico das realidades vivenciadas pela \u00c1frica. Muitos acreditaram que a independ\u00eancia era o in\u00edcio do processo de emancipa\u00e7\u00e3o, chegando alguns, a pensarem realidades novas, \u00e0s vezes, ut\u00f3picas, enquanto outros acharam que era a sua conclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm geral, permaneceram cr\u00edticos do poder, marginais ou exilados, n\u00e3o sendo cooptados por governos e empresas. Poucos renegaram essa voca\u00e7\u00e3o. Muitos, ao assumirem governos, abandonaram a posi\u00e7\u00e3o extremamente cr\u00edtica mais f\u00e1cil aos intelectuais de oposi\u00e7\u00e3o, tendo de justificar regimes ao lado dos quais passaram a assumir a lideran\u00e7a ou a defesa, traindo, consequentemente, companheiros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMuitos, ap\u00f3s a independ\u00eancia, com o assumir de regimes autorit\u00e1rios e corruptos, passaram a denunciar que todas as dificuldades atuais da \u00c1frica, tais como ditaduras, guerras, genoc\u00eddios, machismo, fanatismo e polui\u00e7\u00e3o n\u00e3o podiam ser s\u00f3 atribu\u00eddas \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o. Entre estes, \u201cpodemos apontar Soyinka, Pepetela e Fatema Mernissi\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este livro conta com a participa\u00e7\u00e3o do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Itamar Aguiar. \u201c\u00c1frica tem uma Hist\u00f3ria\u201d. 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