{"id":5918,"date":"2021-07-30T22:16:52","date_gmt":"2021-07-31T01:16:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5918"},"modified":"2021-07-30T22:17:18","modified_gmt":"2021-07-31T01:17:18","slug":"remanso-uma-comunidade-magico-religiosa-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/07\/30\/remanso-uma-comunidade-magico-religiosa-final\/","title":{"rendered":"&#8220;REMANSO &#8211; UMA COMUNIDADE M\u00c1GICO-RELIGIOSA&#8221; (Final)"},"content":{"rendered":"<p>A COMUNIDADE DE REMANSO<\/p>\n<p>Os autores acad\u00eamicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopo\u00e9tico e identificam o povoado de Remanso, em Len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o como um quilombo, mas como uma comunidade de Jar\u00ea, com duplo pertencimento religioso cat\u00f3lico e do candombl\u00e9 orix\u00e1 caboclo ind\u00edgena-afrodescendente.<\/p>\n<p>Trata-se de um grupo com profundas marcas, vistas como tribais, envolta na ambi\u00eancia cultural das Lavras Diamantinas, miscigenada, com suas cren\u00e7as, s\u00edmbolos e rituais peculiares.<\/p>\n<p>Narram os escritores e professores, que Remanso nasceu de uma propriedade localizada \u00e0s margens esquerdada dos Marimbus, no munic\u00edpio de Andara\u00ed, na primeira metade do s\u00e9culo XX. Essas terras pertenciam e ainda pertencem a membros da fam\u00edlia Gondim que consentiu a instala\u00e7\u00e3o de um grupo negro de etnia angolana, isto a julgar pela quantidade de vocabul\u00e1rio banto. Eles nasceram nas Lavras Diamantinas.<\/p>\n<p>A comunidade, conforme pesquisadores, foi fundada em 1920, habitada por aproximadamente 350 pessoas. As habita\u00e7\u00f5es eram simples choupanas feitas com paredes de barro (sopapo) e cobertas com folhas secas de palmeiras e tabuas. Esse quadro se modificou nos tempos atuais com o uso de paredes de tijolos de cer\u00e2mica, tetos de telhas, energia el\u00e9trica, \u00e1gua encanada e fog\u00e3o a g\u00e1s (antes era a lenha).<\/p>\n<p>Os moradores de Remanso ainda praticam uma agricultura de subsist\u00eancia (mandioca, feij\u00e3o e milho), um pouco de pecu\u00e1ria e pesca. Esses produtos servem para o sustento das fam\u00edlias, e a outra parte que sobra \u00e9 vendida nas feiras. A \u00e1rea est\u00e1 localizada no Parque da Chamada Diamantina, criada em 1985, e \u00e9 uma APA Marimbus Iraquara, fundada em 1993 por decreto estadual.<\/p>\n<p>Ronaldo e Itamar chegaram a entrevistar o seu An\u00edsio, de 83 anos, na data, s\u00f3cio da Sociedade Uni\u00e3o dos Mineiros, nascida em 1930. Ele era filho de garimpeiro e informou que do outro lado do Marimbus (Andara\u00ed) vivia um grupo de pessoas j\u00e1 organizado em comunidade, sob a lideran\u00e7a do negro \u201cManezim do Remanso\u201d.<\/p>\n<p>Disse seu An\u00edsio que, do lado de c\u00e1, em Len\u00e7\u00f3is, existiu um terreiro de Jar\u00e9, cujo curador se chamava de \u201cManezim Bumba\u201d. Lembra que, quando ainda menino, ia a mando do pai, \u00e0 casa desse Manezim abrir \u201crevista\u201d e buscar rem\u00e9dios que ele fazia quando era procurado por garimpeiros que desconfiavam estar enfusados. ou seja, n\u00e3o conseguiam extrair pedras.<\/p>\n<p>Seu An\u00edsio confirmou que a casa de \u201cManezim Bumba\u201d era um terreiro de Jar\u00ea onde existia festa todas as semanas, batia atabaques, tinha filhos de santo, abria revista, reza para mordida e espantar cobras do pasto e fazia rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>O pesquisador Gon\u00e7alves, em seu livro \u201cGarimpo, Devo\u00e7\u00e3o e Festa\u201d, em Len\u00e7\u00f3is, cita no cap\u00edtulo Medicina, receitas usadas pela comunidade para curar doen\u00e7as, como hortel\u00e3 mi\u00fado, das dores, Imburana, batata de purga, quebra pedra, capim lanceta, fedegoso, arruda do mato, ra\u00edzes de cai\u00e7ara e xiquexique, dom bernardo, dentre outras plantas. Destaca ainda a pele de sapo, usada para curar v\u00e1rios tipos de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Quando foi mesmo que a comunidade de Remanso mudou-se para o lugar onde se encontra hoje? Seu An\u00edsio respondeu que foi em 1950, acreditando ter sido por causa do terreiro de seu \u201cManezim Bumba\u201d, e para ficar mais perto de Len\u00e7\u00f3is. Afirmou que a comunidade vivia mesmo da pescaria e das ro\u00e7as que plantava. Tamb\u00e9m, muitos trabalhavam no garimpo, inclusive o Manezim, como o do Calder\u00e3o, e o de \u00a0Caba\u00e1 \u2013 nome popular porque quando aprendia a ler sempre colocava o polegar na letra \u201cA\u201d que, com o tempo, se apagou.<\/p>\n<p>Seu An\u00edsio chegou a ser presidente da Sociedade Uni\u00e3o dos Mineiros por v\u00e1rias vezes quando trabalhava por conta pr\u00f3pria no garimpo. Ela foi fundada em 1920 quando a Sociedade de Socorros M\u00fatuos foi extinta. O velho An\u00edsio informou que umas das atividades da Sociedade era organizar a festa em louvor a Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, cuja imagem chegou em 1855, trazida do Rio S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o o coronel Filisberto S\u00e1 reuniu os garimpeiros mais fortes, pegaram Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, que \u00e9 a padroeira da cidade (para as autoridades eclesi\u00e1sticas \u00e9 Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o), fizeram uma prociss\u00e3o e foram pegar Bom Jesus dos Passos l\u00e1 no porto.\u00a0 Tempos depois uns portugueses doaram um terreno onde foi constru\u00edda uma igreja. Da\u00ed nasceu a rela\u00e7\u00e3o entre Senhor dos Passos e os garimpeiros\u201d.<\/p>\n<p>Contam Itamar e Ronaldo que, no ano de 2014, o p\u00e1roco da cidade entrou em desentendimento com os filiados da Sociedade Uni\u00e3o dos Mineiros, boa parte da popula\u00e7\u00e3o e o poder p\u00fablico municipal. O sacerdote julgou que a Sociedade n\u00e3o tinha o direito de participar da organiza\u00e7\u00e3o da festa, tentando modificar uma tradi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria. Foi um embate jur\u00eddico movido pelo advogado Alexandre Aguiar onde a comunidade saiu vitoriosa. As pessoas de Remanso sempre participavam da festa com reis e marujadas.<\/p>\n<p>O Hino dos Garimpeiros foi trazido de Mato Grosso por Samuel Salles, av\u00f4 do cineasta Orlando Senna, segundo seu An\u00edsio, que tamb\u00e9m apontou o nome do sr. Isaias Malaquias da Ressurrei\u00e7\u00e3o, um grande comprador de diamantes. De acordo com os autores do livro, a letra do hino foi feita por S\u00e1 de Carvalho, com m\u00fasica composta por J. Toledo, de Uberl\u00e2ndia. A can\u00e7\u00e3o foi executada pela primeira vez em 1\u00ba de fevereiro de 1927, na Festa do Senhor dos Passos, e reconhecida pela Prefeitura como hino municipal, em 2010. Quanto ao hino de Senhor dos Passos, foi elaborado por Dilson Cunha, em 1954.<\/p>\n<p>A comunidade se localiza \u00e0 margem direita dos Marimbus, formado pelo encontro das \u00e1guas dos rios Utinga, Santo Ant\u00f4nio e seus afluentes. Esses rios desembocam na margem esquerda do Rio Paragua\u00e7u. O povoado \u00e9 circundado por uma grande mata secund\u00e1ria, fronteirizada pelos Marimbus e pelos rios Roncador e S\u00e3o Jos\u00e9, afluentes da margem direita do Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>O Remanso dista 18 quil\u00f4metros da cidade de Len\u00e7\u00f3is e se constitui no que se pode chamar de comunidade afrodescendente, num sistema tribal. \u00a0Entre os personagens do povoado, os autores da obra citam Nusen\u00e7o, Aurino (m\u00fasicos) e Salvador do Remanso, ator de cinema, cantador de chula, rezeiro e marujo, um t\u00edpico Gri\u00f4.<\/p>\n<p>Existe ainda a Associa\u00e7\u00e3o dos Pescadores de Remanso, criada em 1959, e registrada em cart\u00f3rio de Len\u00e7\u00f3is em 1969, sob orienta\u00e7\u00e3o de Paulo da Silveira, que nos anos 70 foi eleito prefeito. Os moradores da cidade ainda participam da festa em louvor a S\u00e3o Francisco de Assis e Divino Esp\u00edrito Santo, em Andara\u00ed. Tamb\u00e9m frequentam terreiros de Jar\u00ea.<\/p>\n<p>\u201c A julgar pelos ritos religiosos, Remanso seria uma comunidade cat\u00f3lica semelhante a in\u00fameras outras existentes no sert\u00e3o brasileiro, levando em conta a descri\u00e7\u00e3o dos aspectos f\u00edsicos da comunidade. O que solta aos olhos s\u00e3o os s\u00edmbolos do catolicismo\u201d.<\/p>\n<p>Remanso fica dentro da \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Marimbus Iraquara, na jun\u00e7\u00e3o dos rios Utinga e Santo Ant\u00f4nio, onde existe uma grande variedade de peixes, como a piranha, a tra\u00edra, piaba, crumat\u00e1, tucunar\u00e9, apanhari, o martim pescador, dentre outros, sem contar os animais silvestres, como o quati, veado e tatu. Al\u00e9m da pesca, a comunidade tamb\u00e9m extrai mel de jata\u00ed, manda\u00e7aia, uru\u00e7u, tubi, arapu\u00e1 e italiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A COMUNIDADE DE REMANSO Os autores acad\u00eamicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopo\u00e9tico e identificam o povoado de Remanso, em Len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o como um quilombo, mas como uma comunidade de Jar\u00ea, com duplo pertencimento religioso cat\u00f3lico e do candombl\u00e9 orix\u00e1 caboclo ind\u00edgena-afrodescendente. 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