{"id":5868,"date":"2021-07-15T01:00:38","date_gmt":"2021-07-15T04:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5868"},"modified":"2021-07-15T01:00:51","modified_gmt":"2021-07-15T04:00:51","slug":"um-sonho-ou-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/07\/15\/um-sonho-ou-pesadelo\/","title":{"rendered":"UM SONHO, OU PESADELO?"},"content":{"rendered":"<p>Numa noite de muito calor eu acordei l\u00e1 pela madrugada todo suado e apavorado com um terr\u00edvel sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta. \u00a0Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora s\u00f3 as luzes neon e as folhas das \u00e1rvores a farfalhar. Uma sombra de medo tomava conta das ruas abandonadas. Uns falam de fantasmas que aproveitam o sil\u00eancio para passear e outros de alguns viventes humanos na espreita prontos para dar o bote de assalto, como uma cobra trai\u00e7oeira.<\/p>\n<p>No outro dia, ainda zonzo e mal dormido, tentei recapitular algumas passagens daquele pesadelo. Lembrei do saudoso roqueiro Raul Seixas que fala em sua can\u00e7\u00e3o que um sonho que se sonha junto se torna realidade, s\u00f3 que n\u00e3o foi um sonho e estava sozinho. No entanto, s\u00f3 para contrariar, meu pesadelo se tornou concreto.<\/p>\n<p>Em meu pesadelo labir\u00edntico grego via o Pantanal do meu Brasil em chamas, e a floresta Amaz\u00f4nica sendo derrubada por ambiciosos lenhadores, e depois sendo queimada. A flora ardia em choros, e a bicharada gemia em dores de morte. Os \u00edndios que sobreviveram \u00e0quela tormenta foram expulsos de seus lares. Tudo depois eram cinzas, e um deserto sem ar para respirar.<\/p>\n<p>Em meio a toda aquela destrui\u00e7\u00e3o, um homem com cara de monstro aterrorizador, com outros tantos ao seu lado que mais pareciam zumbis sa\u00eddos da terra, gargalhava e mandava seus seguidores cobrir o ch\u00e3o de lavouras e gado. Outros avan\u00e7avam com m\u00e1quinas para minerar a terra. Os rios ficaram envenenados, e outros simplesmente sumiram. N\u00e3o existiam mais barqueiros para transportar as almas para as outras margens.<\/p>\n<p>No pesadelo, o homem, com fei\u00e7\u00f5es psicop\u00e1ticas de armas na m\u00e3o, esbraveja contra jornalistas, com palavr\u00f5es, xingamentos e amea\u00e7as. Condenava os cientistas, ambientalistas e pesquisadores que previam um futuro avassalador. Falava coisas malucas e dizia que era o novo dono de tudo aquilo.<\/p>\n<p>Pelas ruas ele jogava seu s\u00e9quito de apoiadores contra qualquer um que lhe opunha. Propunha investigar e prender os contr\u00e1rios. \u00c0s vezes se disfar\u00e7ava em pele de cordeiro e falava at\u00e9 em democracia e liberdade, mas era mesmo um lobo que queria impor nova ditadura e, para isso, se cercou de generais e coron\u00e9is. Espalhava terror em cada pronunciamento, amea\u00e7ando fechar os poderes constitu\u00eddos para ficar s\u00f3 com o dele.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do seu surgimento inesperado, ora em forma de animal mitol\u00f3gico e gente, avisou que tinha vindo para destruir, e n\u00e3o para construir. Para tanto, condenou todas as ideias avan\u00e7adas e evolutivas. Seria o anticristo? Mandou logo cortar a cultura, para ele coisa de comunista comedor de criancinhas. Arregimentou seus ajudantes para sucatear as universidades, para ele lugar de maconheiros e intelectuais pervertidos pecaminosos.<\/p>\n<p>O pesadelo ficou ainda pior e aterrorizante quando apareceram na escurid\u00e3o tenebrosa da noite uns monstros invis\u00edveis em forma de coroa atacando e matando nosso povo, principalmente os mais pobres e famintos. Levaram os diabinhos para o laborat\u00f3rio e l\u00e1 deram o nome de Covid-19. Vieram voando da China. Foi logo a primeira vers\u00e3o. Invadiram todo planeta e matavam por sufocamento, com morte dolorosa e sofrida.<\/p>\n<p>Muitos irm\u00e3os do meu pa\u00eds come\u00e7aram a perder a vida. S\u00f3 choro, ranger de dentes e l\u00e1grimas dos parentes e amigos pela perda de seus entes queridos. Mesmo diante daquele horror, daquela desgra\u00e7a que se abateu entre n\u00f3s humanos, o homem genocida debochou; chamou o visitante assassino contaminador de uma gripezinha de fresco; e ainda humilhou as pessoas classificando-as de maricas.<\/p>\n<p>O estrago foi aumentando. Os hospitais ficaram superlotados, numa agonia desesperadora diante de tantos seres humanos sendo dizimados pelo redondo coroado de espinhos venosos. Mesmo assim, aquele homem pestilento do meu pesadelo condenou todas recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para controlar o danado invasor. Saia por a\u00ed a cavalo, de moto, de barco e a p\u00e9 transmitindo a letal doen\u00e7a e ainda receitando uma tal cloroquina para derrubar o invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Vi em meu pesadelo, naqueles escombros e ru\u00ednas, muitos lamentos de dor, como se fosse um inferno de Dantes. Tentava acordar para me livrar daquelas imagens macabras, mas n\u00e3o conseguia me desvencilhar dos tent\u00e1culos pegajosos em torno de mim. Nas cenas, via fei\u00e7\u00f5es de caveiras e risos sarc\u00e1sticos, dizendo sou eu que mando, tudo \u00e9 meu, meus soldados, meus ministros, meu Brasil.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0quela afli\u00e7\u00e3o perturbadora, enxerguei na penumbra das trevas uma nave extraterrestre que pousava e abduzia o cara do mal e, rapidamente, levantou voo, riscando o universo numa velocidade alucinante. Os seguidores do ceifador de vidas tentaram impedir seu rapto planet\u00e1rio, mas nada puderam fazer. Ficaram at\u00e9 berrando palavras de ordem, mas sumiram depois do sumi\u00e7o repentino do seu chefe maior, como nas guerras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a do\u00eda quando, finalmente, acordei atormentado por nunca ter visto em toda vida aquelas figuras asquerosas. De l\u00e1 para c\u00e1, outros pesadelos parecidos sempre voltam, como num trauma que gruda em nossa alma para sempre. N\u00e3o foi um sonho para se levantar animado e otimista com a roda da vida. Foi mesmo um pesadelo que deixa o seu dia pesado e nunca d\u00e1 para se esquecer dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa noite de muito calor eu acordei l\u00e1 pela madrugada todo suado e apavorado com um terr\u00edvel sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta. \u00a0Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente. L\u00e1 fora s\u00f3 as luzes neon e as folhas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5868"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5868"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5868\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5869,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5868\/revisions\/5869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}