{"id":5790,"date":"2021-06-18T22:30:35","date_gmt":"2021-06-19T01:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5790"},"modified":"2021-06-18T22:30:54","modified_gmt":"2021-06-19T01:30:54","slug":"desumanizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/06\/18\/desumanizados\/","title":{"rendered":"&#8220;DESUMANIZADOS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Um romance com um misto de cr\u00f4nica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filos\u00f3ficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num \u00f4nibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do ve\u00edculo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.<\/p>\n<p>O livro \u201cDesumanizados\u201d, do conquistense Gledin\u00e9lio Silva Santos \u2013 N\u00e9lio Silzantov \u2013 licenciado em Filosofia pela UESB \u2013 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, \u00e9 um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus ba\u00fas fedorentos de hipocrisia e moralismos.<\/p>\n<p>N\u00e9lio n\u00e3o poupa os nossos pol\u00edticos com suas ambi\u00e7\u00f5es fraudulentas de enganar os outros, e vai at\u00e9 as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e ang\u00fastias. Em suas 186 p\u00e1ginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos fil\u00f3sofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2026.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5791\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2026.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2026.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2026-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A obra romanesca e cron\u00edstica faz uma reflex\u00e3o sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e Jos\u00e9 Saramago. O escritor usa termos fortes e at\u00e9 em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religi\u00e3o, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens po\u00e9ticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.<\/p>\n<p>Seus personagens s\u00e3o uma explos\u00e3o de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e viol\u00eancia como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. \u00c9 um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde s\u00f3 os mais fortes sobrevivem.<\/p>\n<p>Digo que \u201cDesumanizados\u201d deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterf\u00fagios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cen\u00e1rio Vit\u00f3ria da Conquista, e \u00e9 todo focado no \u00f4nibus coletivo da linha R19A.<\/p>\n<p>N\u00e9lio n\u00e3o tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vil\u00f5es e v\u00edtimas dessa sociedade. Por isso, \u00e9 tamb\u00e9m um livro sociol\u00f3gico que mexe com o eu psicol\u00f3gico da cada um. \u00c9, antes de tudo, um trabalho de reflex\u00e3o, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e at\u00e9 de bons atos.<\/p>\n<p>Me atrevo a citar aqui poucos nomes fict\u00edcios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encar\u00e1-lo como realista. Na abertura, por exemplo, N\u00e9lio assinala que \u201ctemos tanto a aprender sobre os grandes mist\u00e9rios, e a sede \u00e9 tamanha para aliviarmos a ang\u00fastia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As frases de impacto do narrador Sebasti\u00e3o, na terceira pessoa, s\u00e3o fortes sobre seus personagens, como \u201c&#8230; o cora\u00e7\u00e3o e a mente s\u00e3o insond\u00e1veis, feito a imensid\u00e3o do universo&#8230; E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos n\u00e3o termos uma segunda chance\u201d.<\/p>\n<p>O narrador sempre est\u00e1 dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. \u201cVoltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A esc\u00f3ria do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da esc\u00f3ria humana, \u00e9 isso o que eles s\u00e3o. &#8230;pois matei toda aquela gente a sangue frio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Sobre o tr\u00e1gico acidente do coletivo R19A, ele come\u00e7a descrevendo que onze pessoas foram retiradas do \u00f4nibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2027.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5792\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2027.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2027.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/IMG_2027-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cA liga\u00e7\u00e3o entre duas pessoas segue a mesma l\u00f3gica. Amores, amizade, desafetos, rela\u00e7\u00f5es de todo tipo constituem-se cada um \u00e0 sua maneira, e a mensura da intensidade e dura\u00e7\u00e3o delas independem do tempo&#8230; Ao fim de tudo, o que importa \u00e9 aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua exist\u00eancia e fixou-se na eternidade\u201d. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.<\/p>\n<p>O escritor n\u00e3o segue a linha do corretamente pol\u00edtico em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda at\u00e9 hoje s\u00e3o vistas como palavr\u00f5es e recolhidas l\u00e1 num canto do seu \u00edntimo. \u201cDolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme&#8230; Em resumo, estava apaixonada\u201d. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos l\u00e1bios de Elizabete.<\/p>\n<p>N\u00e9lio trata das op\u00e7\u00f5es sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homof\u00f3bicos e racistas. S\u00e3o temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. &#8230;\u201dl\u00e1bios macios e \u00famidos de quem amava tanto&#8230; Lux\u00faria e fornica\u00e7\u00e3o s\u00e3o pecados abomin\u00e1veis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para n\u00e3o ca\u00edrem em tenta\u00e7\u00e3o, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. &#8230; o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos\u201d. Das lamenta\u00e7\u00f5es b\u00edblicas: \u201cV\u00ea Senhor, e considera a esc\u00f3ria em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor \u00e9 o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Mem\u00f3ria de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs coroinhas s\u00e3o servos de Deus que adoram imitar o capeta\u201d. Essa frase me lembra muito quando eu era sacrist\u00e3o e depois seminarista na d\u00e9cada de 60. \u201cO mundo \u00e9 um purgat\u00f3rio carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que est\u00e3o vivos\u201d&#8230; \u201cNenhuma conquista \u00e9 obtida sem a perda de algo. &#8230; A vida \u00e9 um jogo de concess\u00f5es&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No final do livro, o narrador-escritor d\u00e1 voz a um dos principais personagens, o motorista do \u00f4nibus de nome Marco que diz: \u201cFoda-se o patr\u00e3o e o emprego. &#8230;Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria seria um favor a mim mesmo e a esses miser\u00e1veis, era o pensamento que n\u00e3o sai da sua cabe\u00e7a. Camille deixou o semblante expressar uma esp\u00e9cie de desejo m\u00f3rbido que dominou a todos naquela manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>No Posf\u00e1cio, o escritor abre o texto afirmando que \u201cum corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, \u201cquando o esp\u00edrito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica&#8230;. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade\u201d. \u201cUm bando de hip\u00f3critas \u00e9 o que s\u00e3o todos eles\u201d!<\/p>\n<p>Em tom po\u00e9tico, destaca que \u201ca brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de in\u00edcio, meio e fim\u201d. &#8230; \u201cSempre soube o que voc\u00ea tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escurid\u00e3o da minha alma\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um romance com um misto de cr\u00f4nica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filos\u00f3ficos e existenciais. 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