{"id":5766,"date":"2021-06-11T22:11:38","date_gmt":"2021-06-12T01:11:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=5766"},"modified":"2021-06-11T22:11:48","modified_gmt":"2021-06-12T01:11:48","slug":"a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2021\/06\/11\/a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher-final\/","title":{"rendered":"&#8220;A GUERRA N\u00c3O TEM ROSTO DE MULHER&#8221; &#8211; (Final)"},"content":{"rendered":"<p>A PUNI\u00c7\u00c3O POR SER PRISIONEIRO<\/p>\n<p>\u201cA NKVD prendeu meu marido e me diziam que ele era um traidor. Eu tinha trabalhado na resist\u00eancia com meu marido. Era um homem corajoso e honesto. Tinham feito uma den\u00fancia contra ele. Uma cal\u00fania. Fui falar com o investigador e mandou que calasse a boca, me chamando de prostituta francesa. As pessoas que viveram a ocupa\u00e7\u00e3o foram presas e levadas para Alemanha, num campo de concentra\u00e7\u00e3o fascista. Todas eram suspeitas. At\u00e9 os mortos eram vistos como suspeitos\u201d.<\/p>\n<p>De outra entrevistada do livro \u201cA Guerra n\u00e3o Tem Rosto de Mulher\u201d, da escritora russa Svetlana: \u201c O povo venceu e Stalin n\u00e3o confiava no povo. Foi assim que a p\u00e1tria nos agradeceu. Por nosso amor, por nosso sangue. Meu marido voltou da guerra inv\u00e1lido. Estava envelhecido. Meu filho estava acostumado a pensar que o pai era branquinho, bonito, e veio um homem velho e doente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm 1931 me tornei a primeira mulher maquinista. Todo mundo se juntava nas esta\u00e7\u00f5es para olhar a mulher maquinista. Quando come\u00e7ou a guerra pedimos para ir para o front. Meu marido era maquinista-chefe e eu maquinista. Passamos quatro anos viajando em um vag\u00e3o, e nosso filho conosco. Sofremos v\u00e1rios bombardeios\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMeu marido tinha passado por v\u00e1rios pa\u00edses, tinha condecora\u00e7\u00f5es, mas estava com medo. J\u00e1 tinha sido interrogado por ter sido prisioneiro, e sua obriga\u00e7\u00e3o era ter se matado com um tiro, mas n\u00e3o tinha mais cartuchos. O comiss\u00e1rio partiu a pr\u00f3pria cabe\u00e7a com uma pedra diante dos olhos dele. N\u00e3o t\u00ednhamos prisioneiros, t\u00ednhamos traidores\u201d. Foi o que disse o camarada Stalin. Ele renegou o pr\u00f3prio filho que foi capturado. Os investigadores diziam: Por que ficou vivo?<\/p>\n<p>\u201cEu e meu filho passamos quatro anos esperando que ele voltasse da guerra, e depois da Vit\u00f3ria mais sete do campo de trabalho. Aprendi a me calar. N\u00e3o confiavam em mim nem para limpar o ch\u00e3o. Agora podemos falar de tudo. Nos primeiros meses da guerra, milh\u00f5es de soldados e oficiais foram feitos prisioneiros. De quem \u00e9 a culpa? Quem decapitou o ex\u00e9rcito antes da guerra, quem fuzilou e caluniou os comandantes vermelhos, como espi\u00f5es dos alem\u00e3es e japoneses? At\u00e9 hoje \u00e9 terr\u00edvel! Temos medo\u201d.<\/p>\n<p>Depois de aprender a odiar, era preciso amar de novo \u2013 destacou uma mulher que esteve no front e pisou em terras alem\u00e3s. \u201cAcumulamos tanto \u00f3dio no peito. Tinha vontade de ver as esposas deles, as m\u00e3es que tinham parido filhos como aqueles. Como eles iam olhar em nossos olhos? Tudo quanto os soldados tinham quando j\u00e1 estavam em terras alem\u00e3s dividiam um pedacinho com as crian\u00e7as. Fui at\u00e9 a Alemanha&#8230; Desde de Moscou andando\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCheguei \u00e0 Alemanha, e entrei logo em combate. Como n\u00e3o me mandei do campo de batalha. Em terras alem\u00e3s, conta uma tenente enfermeira que viu um cartaz com os dizeres: \u201cAi est\u00e1 ela, a maldita Alemanha.\u00a0 Goebbels tinha convencido a todos que, quando os russos chegassem, iriam cortar, trucidar e matar. Nas casas, todos estavam mortos. As crian\u00e7as jaziam mortas\u201d.<\/p>\n<p>As pessoas culpavam Hitler pela guerra \u2013 assinala uma combatente, mas a tenente respondeu para uma senhora que ele n\u00e3o decidia sozinho. Foram seus filhos e maridos. Segundo outra entrevistada, \u201cvoc\u00ea n\u00e3o imagina os caminhos da vit\u00f3ria! Andavam os presos rec\u00e9m-libertos, com carretas, trouxas, bandeiras nacionais. Russos, poloneses, franceses, techecos&#8230; todos se misturavam, cada um ia para o seu lado. Todos nos abra\u00e7avam. Beijavam&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEncontrei jovens russas e uma delas estava gr\u00e1vida. Tinha sido estuprada pelo patr\u00e3o do lugar onde trabalhava. Ela andava e chorava, batia na barriga: N\u00e3o vou levar um fritz para casa. As outras tentavam convenc\u00ea-la, mas ela se enforcou, junto com o pequeno fritz\u201d.<\/p>\n<p>Uma sargento narra que um dos oficiais russos se apaixonou por uma grota alem\u00e3. A not\u00edcia chegou aos superiores. Ele foi degredado e mandado para a retaguarda. Se tivesse estuprado&#8230; \u00c9 a lei da guerra. Os homens ficam tantos anos sem mulher e, claro, havia o \u00f3dio.<\/p>\n<p>\u201cEu me lembro de uma alem\u00e3 estuprada. Ela estava deitada nua, com uma granada enfiada no meio das pernas&#8230; Cinco jovens alem\u00e3s vieram falar com o nosso comandante. Elas tinham feridas l\u00e1&#8230; Todas as calcinhas ensanguentadas. Tinham sido estupradas por toda noite. Os soldados faziam filas&#8230;Disseram para as garotas: V\u00e3o l\u00e1 e procurem, se voc\u00eas reconhecerem algu\u00e9m, fuzilamos na hora. Temos vergonha! Mas elas entraram e choraram. N\u00e3o queriam mais sangue\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNos mostraram o campo de Auschwitz&#8230; As montanhas de roupa feminina, de sapatinhos infantis&#8230;As cinzas acinzentadas&#8230; Levaram-nas para o campo, para servir de adubo para o repolho&#8230; Para a alface&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Uma operadora de artilharia cita que um dos seus soldados estava b\u00eabado, pois quanto mais perto estava a vit\u00f3ria, mais bebiam. Nas casas e nos por\u00f5es sempre se achava vinho. \u201cEle pegou o fuzil e correu para uma casa alem\u00e3. Descarregou toda muni\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m teve tempo de ir atr\u00e1s dele. Corremos, mas dentro da casa todos j\u00e1 estavam mortos. Deixem que eu mesmo me dou um tiro. Foi preso e julgado: Fuzilamento\u201d.<\/p>\n<p>Sobre antes da guerra, uma testemunha revela que estava no teatro quando come\u00e7ou umas salvas de palmas. \u201cNo camarote do governo estava Stalin. Meu pai estava preso, meu irm\u00e3o no campo de trabalhos for\u00e7ados e, apesar disso, senti entusiasmo que dos meus olhos jorraram l\u00e1grimas. Aplaudiram de p\u00e9 por dez minutos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cE fui para a guerra, e l\u00e1 escutava as conversas de voz baixa. Milhares desapareceram! Milh\u00f5es de pessoas. Para onde foram? Como Stalin organizou uma onda de fome, eles mesmo chamavam de Holodomor. M\u00e3es enlouquecidas comiam os pr\u00f3prios filhos. As conversas n\u00e3o eram em grupos, sempre entre duas pessoas. Tr\u00eas \u00e9 demais, o terceiro te denuncia.<\/p>\n<p>No final, o livro descreve como foi o terror ao cerco em Stalingrado entre 1941 e 42 quando muitos morreram de fome e pela artilharia pesada dos alem\u00e3es. A rea\u00e7\u00e3o do povo russo foi fundamental para que as tropas de Hitler recuassem. S\u00e3o cenas terr\u00edveis e chocantes contadas por testemunhas mulheres que lutaram\u00a0 durante a II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A PUNI\u00c7\u00c3O POR SER PRISIONEIRO \u201cA NKVD prendeu meu marido e me diziam que ele era um traidor. Eu tinha trabalhado na resist\u00eancia com meu marido. Era um homem corajoso e honesto. Tinham feito uma den\u00fancia contra ele. Uma cal\u00fania. 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